PIB é retrovisor para quem não olha para frente

O ministro da Fazenda, ao declarar que o resultado do PIB de 2016 é "espelho retrovisor", mostra que não sabe olhar para a frente, pois sem uma profunda inflexão da política econômica, que se ancore em uma proposta de desenvolvimento, não sairemos da crise em curso

Brasília - O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles participa da Cerimônia de transferência do cargo de presidente do Banco Central (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília - O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles participa da Cerimônia de transferência do cargo de presidente do Banco Central (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) (Foto: Pedro Celestino Pereira)

O ministro da Fazenda, ao declarar que o resultado do PIB de 2016 é "espelho retrovisor", mostra que não sabe olhar para a frente, pois sem uma profunda inflexão da política econômica, que se ancore em uma proposta de desenvolvimento, não sairemos da crise em curso.

Na última segunda-feira, o jornal Valor Econômico publicou reportagem sobre uma pesquisa do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) que mostra como a retração econômica está afetando os diferentes tipos de indústrias desde 2014. Os indicadores do Produto Interno Bruto (PIB) de 2016 que acabam de ser anunciados são assustadores: vivemos a pior recessão desde que esse tipo de medição começou a ser feita, em 1948.

De acordo com o Iedi, a queda do investimento público e privado está por trás da retração em vários setores. Ajuste fiscal, aversão a riscos, efeitos diretos e indiretos da operação Lava-Jato foram apontados como justificativas para a retração em setores como o de máquinas e equipamentos de uso na extração mineral e na construção, que não pioraram em 2016, mas também não melhoraram.

O impacto no segmento de bens duráveis e mesmo em segmentos mais supérfluos, como vestimentas, é apontado como efeito secundário, resultante do desemprego, do medo do desemprego ou da queda na renda. Restaram de pé as indústrias de bens de consumo, particularmente daqueles segmentos onde é mais difícil deixar de consumir: alimentos, remédios.

Neste quadro, é impossível justificar a decisão de alijar as empresas aqui instaladas dos processos de compra da cadeia do petróleo. Essas empresas, desde há mais de 60 anos, investem aqui, geram empregos aqui, para brasileiros. Cada vaga direta que abrem contribui com outras quatro que são criadas indiretamente, em outras indústrias e no setor de serviços.

O que a reportagem do Valor mostrou é que boa parte dessa indústria mais pesada, que gera mais empregos, agrega mais valor e alavanca o desenvolvimento tecnológico permanece entre aqueles segmentos que continuaram a reduzir a produção no quarto trimestre do ano. Uma parte da indústria ensaiou uma tímida recuperação, mas longe de ser suficiente para garantir uma retomada.

Nos últimos três meses de 2016, o setor que mais caiu foi justamente o de máquinas e equipamentos de uso na extração mineral e na construção, que encolheu 26,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, acumulando uma redução de 47% desde 2014. A recuperação foi mais sentida no segmento de tratores e máquinas para agricultura e pecuária, que avançou 38% no último trimestre, mas pouco contribui para o desenvolvimento de novas tecnologias.

A despeito desse cenário desolador, o atual governo continua a gerar fatos que apenas postergam ainda mais qualquer expectativa de retomada da economia. Dos mesmos gabinetes de onde saiu a decisão sobre o desmonte da política de conteúdo local, saem agora promessas de estudos para concessões que, na melhor das hipóteses, ficarão prontos em meados de 2018.

Na prática, trata-se de deixar para o próximo governo decisões de investimento, enquanto os indicadores – e os brasileiros - continuam nas cordas. Não há melhora alguma, como indicam algumas manchetes; simplesmente, o colapso da demanda derrubou a inflação, como nenhuma política de juros altos tinha sido capaz de fazer até agora.

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