Plano F é uma catástrofe social e pode derrubar a extrema-direita
Proposta econômica de Flávio Bolsonaro corta ganhos reais e reduz pisos sociais, tem baixo apelo popular e tende a ser ocultada na campanha
O conjunto de propostas econômicas em estudo pela equipe do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), revelado pela Folha de S.Paulo, aponta para uma nova inflexão profunda no papel do Estado brasileiro — e, como tudo o que vem da direita, não exatamente na direção que a maioria da população espera. Ao propor que benefícios previdenciários, assistenciais e os pisos constitucionais de saúde e educação sejam corrigidos apenas pela inflação, o “Plano F” de Flávio Bolsonaro rompe com a lógica de proteção social reconstruída a duras penas pelo atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, depois de seis anos de destruição das políticas públicas dos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, pai do atual presidenciável da extrema-direita. Como vimos nesses dois governos, trata-se de uma agenda que, embora embalada sob o discurso de responsabilidade fiscal, carrega um custo social elevado e, por isso mesmo, tem baixíssimo apelo popular.
A ideia de eliminar ganhos reais do salário mínimo nos benefícios pagos a aposentados e pessoas de baixa renda, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), significa, na prática, congelar o poder de compra de milhões de brasileiros. Em um país ainda marcado por desigualdades estruturais, essa medida não apenas freia avanços sociais, como pode aprofundar vulnerabilidades. A economia projetada — que pode chegar a R$ 1,1 trilhão em dez anos — revela o tamanho do ajuste pretendido, mas também escancara quem pagará a conta: os mais pobres.
No mesmo pacote, o Plano F prevê a desvinculação dos pisos de saúde e educação das receitas da União, o que desmonta um dos pilares do financiamento dessas áreas. Hoje, a Constituição garante percentuais mínimos justamente para evitar que políticas essenciais sejam sacrificadas em momentos de aperto fiscal. Ao atrelar esses gastos apenas à inflação, a proposta que Flávio Bolsonaro tenta camuflar reduz progressivamente os recursos disponíveis, especialmente em um cenário de crescimento populacional e maior demanda por serviços públicos. A estimativa de economia de R$ 800 bilhões em uma década não é um dado neutro — ela traduz menos investimentos em hospitais, escolas e políticas públicas.
Os defensores do Plano F argumentam que o ajuste, estimado em cerca de dois pontos percentuais do PIB, poderia sinalizar compromisso com o equilíbrio fiscal e reduzir a pressão por juros elevados. No entanto, a escolha de concentrar o ajuste sobre benefícios sociais e serviços públicos revela uma opção política clara, em defesa do andar de cima.
O próprio Flávio Bolsonaro já indicou o tom dessa agenda ao afirmar que promoveria um “tesouraço” nas contas públicas e ao defender a privatização de até 95% das estatais. Em outra frente, declarou: “Hoje, o brasileiro sente no bolso a alta dos preços e a pressão dos impostos. A resposta está em menos tributos sobre o que pesa no cotidiano, mais eficiência no uso do dinheiro público e decisões que olhem para quem gera riqueza no país”. A retórica de eficiência e redução de impostos pode soar atraente, mas perde força quando confrontada com medidas que atingem diretamente aposentados, trabalhadores de baixa renda e usuários do sistema público.
Não por acaso, aliados do pré-candidato têm evitado levar o plano ao debate público. O adiamento de um anúncio previsto e o silêncio estratégico indicam receio de desgaste eleitoral. Em um cenário competitivo, como apontam pesquisas do Datafolha, propostas com impacto negativo direto sobre amplas camadas da população tendem a ser exploradas por adversários — especialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que historicamente associa sua imagem à ampliação de políticas sociais.
Há um descompasso evidente entre o conteúdo do Plano F e a necessidade de conquistar votos. Ao priorizar um ajuste fiscal concentrado em áreas sensíveis, a proposta bolsonarista dificilmente arregimenta apoio popular. Pelo contrário: tende a gerar rejeição e mobilizar resistência social e política, inclusive no Congresso, onde mudanças constitucionais exigem amplo consenso.
A dificuldade de sustentação política desse programa neoliberal ajuda a explicar por que ele tende a enfraquecer a própria extrema-direita no país. Ao propor medidas que comprimem renda, reduzem investimentos sociais e atingem diretamente aposentados, beneficiários de assistência e usuários de serviços públicos, o plano não dialoga com as demandas concretas da maioria da população. Sem oferecer ganhos visíveis no cotidiano — e, ao contrário, sinalizando perdas —, a agenda econômica dificilmente mobiliza apoio eleitoral consistente. Nesse contexto, a tendência é que Flávio Bolsonaro desloque o eixo da campanha para pautas de costumes e temas identitários, repetindo uma estratégia já utilizada por Jair Bolsonaro, como forma de compensar a baixa adesão popular às suas propostas econômicas.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
