Pobreza também é comorbidade

"Os governos fingem que concordam com o isolamento mas fazem pouco para fiscalizá-lo. É a mesma teoria social do uso do capacete, do cinto de segurança e da camisinha", escreve o cartunista Miguel Paiva

(Foto: Miguel Paiva)
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Por Miguel Paiva, para o Jornalistas pela Democracia 

O que vai mudar daqui pra frente? Até voltarmos a uma vida normal, que de normal não terá mais muita coisa a que estávamos habituados, vamos ter que criar justamente novos hábitos. O primeiro será talvez o de abrir a cabeça. Teremos que admitir que a pandemia existe, é tremenda e nos ameaça a própria vida. Essa seria a primeira mudança. Pode parecer óbvia mas muita gente não leva isso a sério. Vemos todos os dias nas praias, nos parques, nas ruas de comércio, no transporte público e no nosso convívio diário. 

Os governos fingem que concordam com o isolamento mas fazem pouco para fiscalizá-lo. É a mesma teoria social do uso do capacete, do cinto de segurança e da camisinha. Existem mas não é preciso usar. A máscara de proteção se tornará o mais importante objeto de uso pessoal. Se todos usarem, o que é quase impossível, eliminaremos boa parte do risco de contaminação. Para isso precisamos admitir (e ai vem novamente  o mito do capacete, etc, etc,)  que podemos ser transmissores assintomáticos. 

Mas vocês sabem que para o brasileiro admitir que tem  algum problema tipo machismo, doença venérea, disfunção erétil ou coronavírus, é muito difícil. Acontecendo isso, todos usando máscaras, o risco diminuiria. Outra condição essencial seria a higiene pessoal. Depois de sair, tocar objetos, entrar em contato com o mundo exterior, lavar as mãos e as roupas seguindo as instruções que são bem simples.

Feito isso, estaríamos praticamente imunes ao contágio. Mas sabemos que não estamos imunes à estupidez. Eles continuarão achando que sãs meio super-homens meio bolsonaristas e não tomarão essas providências. Quem acredita no Bolsonaro está isento. O mundo lá fora é bobagem. É invenção dos comunistas, petistas e esquerdopatas, profetas do apocalipse. Para eles, os imunes, não existe o risco. A morte faz parte da economia do mercado e muitos terão que morrer para que o país atinja seus índices desejados. O resto é invenção da esquerda.

Difícil. Queria voltar ao novos hábitos mas não consigo sair dos velhos.

Falando em velhos, teremos que acabar de vez com essa história de que os velhos é que são contamináveis. Isso não existe e aqui no Brasil, onde a pobreza substitui a velhice, estamos todos sujeitos ao vírus.

A pobreza é uma comorbidade, como eles gostam de falar

Vida útil aos velhos, então, principalmente se os mais jovens  saírem feito loucos sem se preocupar com a contaminação. Morrerão todos e os velhos terão que assumir o mundo. Coitados. Depois de trabalharem a vida toda ainda vão ter que segurar a barra e consertar as cagadas dos mais jovens.

Vamos ter que repensar também o meio- ambiente, a alimentação, as relações de trabalho, o lazer e a cultura. Como foi importante o acervo cultural nesses dias de isolamento. Como foi fundamental entrar nos celulares ou computadores e podermos assistir aquilo que os chamados vagabundos no mundo inteiro produziram. A cultura passou a ser tão importante como o hamburguer que o Ifood nos entrega. Daqui pra frente, e ainda por um bom tempo, vamos ter que repaginar os assentos em cinemas e teatros para poder ocupá-los, claro, sempre usando máscaras. Este mercado precisa voltar a funcionar, apesar das forças contrárias que vivem em Brasília. As livrarias também terão que repensar seus espaços e continuar com o sistema de delivery. Ao invés de Ifood, Ibook.

O neoliberalismo, como conhecemos, morreu. Foi necessária a  pandemia para vermos como o Estado é importante e como se torna o único poder capaz de reverter esses quadros desesperadores. O Estado cobre todos os cidadãos. Uma nova forma de economia deveria surgir valorizando o trabalho, o emprego e o trabalhador. Os sistemas de saúde sairão feridos mas vitoriosos. O SUS recuperará seu valor e sua importância. O presidente Bolsonaro será um fato histórico totalmente esquecido. Olharemos para o futuro sem ter que fugir do passado. Temos tudo pela frente. É só encarar o próximo e ter consciência de que juntos somos mais fortes contra o Bolsonaro e até contra o coronavírus.

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