Política nacional se torna o Programa do Ratinho

À evidente regressão ética e ausência de debates sérios no Congresso soma-se uma sequência inglória de aberrações estéticas; a arte política agoniza em praça pública

À evidente regressão ética e ausência de debates sérios no Congresso soma-se uma sequência inglória de aberrações estéticas; a arte política agoniza em praça pública
À evidente regressão ética e ausência de debates sérios no Congresso soma-se uma sequência inglória de aberrações estéticas; a arte política agoniza em praça pública (Foto: Alceu Castilho)
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Que nada disso é ético, sabemos. E já seria motivo para ficarmos pessimistas. Mas essa overdose de tremeliques expressionistas no Congresso assusta também por sua face estética; ou pela mais absoluta ausência de senso estético, de senso do ridículo na expressão verbal e gestual desses personagens sinistros. O Parlamento brasileiro está tendo seu cabelo pintado de acaju e sua face pública embebida num botox barato – e ainda nem estamos a falar de cafajestagens e traições. É a corrupção do bom gosto, o atentado à compostura mínima; a apologia da náusea; um tsunami de decadências sem a mais elementar elegância.

O inovador parlamentarismo secreto online protagonizado por esses senhores aposta tanto na eficácia do grotesco que faz qualquer personagem caricatural de Fellini parecer o mais elegante e arguto dos imortais. E assim vemos a imprensa oferecer closes ao Eduardo Cunha como se estivéssemos admirando uma Gioconda às avessas; fotos em diversos ângulos de Michel Temer como se ele tivesse mais que uma expressão no rosto e algum pensamento próprio capaz de ser detectado; a eloquência beócia de Leonardo Picciani como se fosse um misto de Shakespeare e Churchill; Marco Feliciano como galã; Paulinho da Força balbuciando algo sobre ética.

Em que momento exato a política brasileira se tornou um grande Programa do Ratinho?

Podia-se discordar de Ulysses Guimarães. Mas havia um senso de liturgia. Leonel Brizola tinha lá seu destempero; mas envolto numa verve e em um carisma incontestáveis. Para não falar da graça e da genialidade de Darcy Ribeiro. Não que a culpa seja só da regressão ética e cognitiva dos nossos senhores nobres parlamentares. A câmera se aproximou demais deles. Houve uma perda de pudor dos mediadores. Todos regredimos juntos. A imprensa deseditou-se. O cabelo lambido de Inocêncio de Oliveira não era lá muito levado a sério. Agora seria – nós nos conformamos tanto com esse simulacro de pantomina que ele tomou o país de assalto.

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Darcy Ribeiro e Mario Juruna: do tempo em que os parlamentares se olhavam nos olhos

E quem seria capaz de desconstruir esse simulacro, dar ares de seriedade ao que já não mais é sério? Pedro Simon já não está mais lá. Eduardo Suplicy não foi reeleito. Todo mundo agora tem o gravador do Cacique Juruna sem a sua dignidade. E não, não se trata somente da esquerda. Que alguém busque com urgência o Marco Maciel, ressuscite até mesmo o Roberto Campos. Porque os sobrinhos e netos desses senhores perderam não apenas os resquícios de alguma moral; abandonaram a hipótese de qualquer limite. A qualquer momento vai aparecer no plenário alguém com nariz de palhaço, guardanapo na cabeça e língua de sogra – e não será o Tiririca.

Pois não estamos a falar de migração das caras e bocas da cultura popular – já que esta seria muito bem-vinda. Muito pelo contrário. E sim falando de figuras da elite, que até aprenderam a fazer nós de gravata, mas assistiram demais ao Manhattan Conection e com isso (Dorian Gray, século XXI) seus rostos foram ficando cada vez mais cínicos. Cínicos em uma competição específica de cinismo. A cada cobertura televisiva de uma sessão da Câmara a sensação é de asfixia, de uma procura quase impossível por mais do que sete almas ao mesmo tempo coerentes e contundentes. A lanterna de Diógenes – a busca por um homem verdadeiro – certamente foi deixada na chapelaria.

E as exceções apenas confirmam a regra, ainda que pareçam mais titubeantes do que poderiam, diante desse massacre visual e sonoro (até as vozes foram se tornando mais estridentes e menos moduladas) e dessa urgência, dessa pressa, dessa política que fica repetindo a tecla “enter” sem ter construído antes três ou quatro frases plausíveis, sem ter ao menos esboçado algo próximo de um sistema, de uma lógica, de alguma finalidade que não seja imediatista, tosca e financeiramente computável. Nossos poucos parlamentares honrados tentam falar algo razoável num debate organizado pelo Boninho. (E lá vem a tecla “delete”.)

Não há muitas saídas possíveis quando se vê um Parlamento esmagado entre a fissura pela chantagem e o exercício diário do riso debochado. Fomos capturados por linguagens regressivas, por um grande saldão de R$ 1,99 que só pode ser pago com notas falsas. E todos esses executivos políticos quando acordam vestem “a cara falsa e infame como a tara do mais vil dentre os mortais”, como bem definiria Sérgio Sampaio. Penso nos olhos grandes do compositor assistindo a esse filme de terror, vendo as “moscas mortas no conhaque” e os “gaviões vomitando entre os cristais”. A roda está morta e é assassina, meu amigo. Como uma roleta-russa desonrada. E o triste disso tudo é que sabemos disso.

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