Por Lênin, sem fantasmas e sem silêncios

O fantasma do marxismo-leninismo com certeza seguirá e deve seguir assustando os setores conservadores da elite latino-americana, e não os progressistas que buscam um projeto no qual os trabalhadores e trabalhadoras, em sua diversidade e pluralidade, sejam protagonistas

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“É hora – / inicio / a história de Lenin. / Não porque / não há mais / desgraça, / é hora / porque / uma tristeza brusca / virou uma dor / clara e consciente. / É hora, / novamente / os lemas de Lenin em turbilhão”, Maiakovski, poema Vladimir Ilich Lenin

É evidente que há um combate da mídia empresarial a qualquer tema que contribua ou provoque o debate sobre a organização da classe trabalhadora.

Como se alguns assuntos até pudessem ser abordados, desde que não com a sua capacidade e potência organizativa.

Tudo é permitido, diria a voz dos segmentos conservadores e patronais midiáticos, menos a classe trabalhadora organizada nas suas diferentes formas e munida da teoria da organização.

É exemplar, neste sentido, a disseminação de notícias de senso comum e incompletas sobre a História do século vinte, sobre o papel da Revolução Russa e seu principal dirigente: Vladimir Ilich Ulianov, Lênin, nascido em 1870, morto em 1924, cujo marco de cem anos de sua morte está próximo.

Este período de proximidade com o centenário de morte do autor de “Estado e Revolução”, “Imperialismo, fase superior do capitalismo” e outras bússolas para as organizações revolucionárias ao longo dos séculos vinte e vinte e um, exige debates que resgatem a dimensão histórica e o que significou a tentativa de transição para um modo de produção socialista naquele país que, de czarista e atrasado, tornou-se no século vinte a segunda potência mundial.

O pensamento de Lênin foi justamente voltado para os problemas do seu tempo, desde o período anterior à revolução Russa de 1917, na busca por uma forma de organização capaz de responder às necessidades do operariado russo, que até então estava longe de ser a maioria em um país notadamente agrário, de um campesinato que até 1861 vivia no sistema de servidão. Passou pela experiência de transição ao socialismo em um país de formação social atrasada, acumulando para a teoria marxista sobre o papel do Estado, da sua necessidade de tomada pela classe trabalhadora à sua dissolução.

Revolução de comuns

Todas essas questões estão presentes no estudo do autor húngaro Tamás Krausz, “Reconstruindo Lênin, uma biografia intelectual” (Boitempo, 2017), que enfoca o aspecto de produção intelectual de Lênin, embora também extraia os elementos de uma vida atribulada do revolucionário russo, e fiquei me perguntando como ainda há um grande silêncio nos meios audiovisuais sobre o legado marcante do pensador e político russo, sobretudo no cinema.

Isso porque a Revolução Russa – como defende o jornalista indiano, Vijay Prashad, teve a capacidade de conduzir ao poder homens, mulheres, componesas, operários, marinheiros comuns, essa a experiência que tantas vezes é abafada.

Na mesma medida desta conquista, realizada em meio ao desgaste com a política da primeira guerra mundial, a reação das elites russas e internacionais veio na mesma medida de fúria, instaurando a guerra civil.

Num possível diálogo indireto com aspecto levantado pelo autor italiano Domenico Losurdo (no livro Guerra e Revolução), Tamás Krausz por sua vez dimensiona aquilo que analistas midiáticos e historiadores conservadores não comentam: se há uma aceitação histórica sobre o processo que levou às revoluções francesa e de independência estadunidense, o mesmo não acontece na avaliação do processo russo, colocado sempre dentro de um rótulo de um possível autoritarismo arbitrário.

"Nas revoluções francesa, inglesa e estadunidense, o acerto de contas com aqueles comprometidos com o antigo sistema ocorreu nas circunstâncias particulares oferecidas por cada nação. A situação na Rússia tornou-se ainda mais cruel pelo poder social que assentava o novo sistema; Os trabalhadores urbanos ficaram crescentemente fatigados à medida que a guerra civil se estendia e isso se refletia na fragilidade do novo regime político e na vulnerabilidade de sua base social", descreve o autor.

Krausz ressalta como, em 1914, de acordo com o método de análise do materialismo histórico dialético, o pensamento de Lênin estava voltado a perceber as possibilidades particulares de uma revolução em um país atrasado e cuja cultura e composição apontam para o Oriente, ao mesmo tempo em que ele mirava para o Ocidente e as principais economias, buscando a necessária totalidade da revolução mundial, em ebulição após a primeira guerra na Europa.

Da tomada do poder que levou à expropriação da burguesia, logo passando ao comunismo de guerra, chegando à necessidade da Nova Política Econômica (NEP) e de um socialismo com abertura para o mercado, com desenvolvimento e benefícios para os produtores do campo sobretudo: o pensamento de Lenin esteve adequado às circunstâncias históricas, enquanto ponto de partida, sem perder de vista as possibilidades desta transição ao socialismo e a necessária condução do poder do Estado neste sentido, de forma ininterrupta.

Os trabalhos iniciais de Lênin e da própria caminhada da social-democracia russa contra o czarismo, caso de “Por onde Começar” (1901), seguido de “Quê Fazer?” (1902) indicam lições ainda atuais e preciosas para a esquerda em crise e necessidade de reorganização no Brasil. Entre os principais aprendizados históricos, levantamos:

- A necessidade de conexão entre a vanguarda e o proletariado (em suas diferentes formas contratuais e organizativas);

- O papel da comunicação como ferramenta organizativa e fio condutor da política da organização;

- A necessidade de síntese entre o local e o geral. E também o trabalho de base em local de moradia ou trabalho que deve unir essas duas vertentes, sem o receio de que o marxismo-leninismo é a síntese entre o programa e a força do operariado;

Retomar a obra de Lênin, principal expressão teórica da revolução russa e da aplicação do marxismo, é uma experiência e herança fundamental da História de uma revolução – como sempre nos recorda Vijay Prashad – quando camponeses e trabalhadores atiraram-se à tomada do poder do Estado.

O fantasma do marxismo-leninismo com certeza seguirá e deve seguir assustando os setores conservadores da elite latino-americana, e não os progressistas que buscam um projeto no qual os trabalhadores e trabalhadoras, em sua diversidade e pluralidade, sejam protagonistas.

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