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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Por que a hostilidade aos muçulmanos não causa a mesma indignação que o antissemitismo?

Persiste o empenho multinacional por tachar de terroristas os muçulmanos

Islã, muçulmanos (Foto: Luciana Oliveira)

Persiste o empenho multinacional por tachar de terroristas os muçulmanos, e para tanto parecem contribuir decisivamente certas organizações jihadistas. Vide a destruição da Palestina e do seu povo, que chega a ser vista como necessária por se tratar, na tese americano-israelense, de combate ao Hamas. Nada justifica, contudo, identificar os seguidores do Alcorão como praticantes do terror. Trata-se de uma ligação fantasiosa, preconceituosa e portanto criminosa, responsável, por exemplo, pelo que passam nos Estados Unidos os cidadãos oriundos de países de maioria muçulmana. Na terra de Donald Trump, eles veem exagerados seus estereótipos negativos e são vítimas frequentes dos chamados “programas de segurança e vigilância”. 

São muitos os casos de perseguição, mas há os que resistam. Em Oklahoma City, em 2023, o veterano muçulmano americano Saadiq Long entrou com processo contra a polícia local por ter sido parado várias vezes e preso injustamente por causa da presença de seu nome em uma “lista de vigilância” antiterrorismo. Na queixa, ele afirmou ter sido detido, revistado e tratado como suspeito apenas com base nessa lista, o que viola seus direitos constitucionais, e que a polícia o tratou de modo discriminatório por sua identidade. 

O caso de Saadiq Long segue na Justiça. Tribunais superiores avaliam aspectos técnicos de como o governo usa e compartilha listas de vigilância e se isso viola direitos civis e constitucionais. O resultado poderá abrir uma brecha jurídica importante para o fim da perseguição aos muçulmanos nos Estados Unidos.

Em 2015, o humorístico francês Charlie Hebdo ofendeu os muçulmanos, na visão destes, ao expor e ridicularizar o profeta Maomé. Mas por que achar que os legítimos adeptos da fé islâmica teriam o ímpeto de tramar a dizimação dos humoristas em retaliação? “Quem acredita nisso desconhece a verdadeira religião muçulmana. No Alcorão Sagrado não há nenhum versículo condenando qualquer pessoa que blasfeme contra a religião. Aliás, o profeta Mohamed (Maomé) sofria blasfêmias e nunca as respondia, sempre virava as costas”, disse a este jornalista, à época, o xeique Houssan Al Boustani, fundador do Conselho Superior de Teólogos e Assuntos Islâmicos do Brasil. 

Organizações como o Estado Islâmico – ativa, mas em menor intensidade do que em tempos atrás –  não representam os muçulmanos. Não existem partidos islâmicos dirigidos por líderes religiosos formados na teoria islâmica academicamente. Al Zawahiri, chefe da Al-Qaeda morto em 2022, estudou a religião islâmica? Não se tem notícia disso. Onde Bin Laden, líder da Al- Qaeda morto em 2011, estudou a religião islâmica? Em nenhum lugar - ele era engenheiro. 

“Nós, formados na religião islâmica, não acreditamos em partidos ou estados religiosos. Os muçulmanos praticam a liberdade”, disse-nos Boustani. E foi além: “Quem é o líder do Estado Islâmico? Não é ninguém mundialmente conhecido. Trata-se de uma organização composta de jovens sem rumo, de 17 a 20 anos, atraídos por dinheiro e mulheres, não pelo islamismo”.

De qualquer forma, o preconceito contra os muçulmanos está instalado e é nítido nos Estados Unidos e na Europa, não merecendo a mesma indignação provocada pelo antissemitismo. 

Desde Segunda Guerra Mundial, ou mesmo antes, a Europa recebe imigrantes de origem árabe, mas os governos europeus não têm encontrado o mecanismo correto para que esses imigrantes se integrem à sociedade. Até há pouco tempo, na Bulgária, um partido extremista levava carros de som para a frente dos templos muçulmanos às sextas-feiras, na hora da reza, e impedia o culto.  A alegação do governo búlgaro para nada fazer era o respeito à liberdade de expressão, conceito deturpado cotidianamente.

A tão propalada liberdade de expressão precisa ter seus contornos definidos por um exercício de exegese e de práxis. As liberdades aparecem hoje como um novo sagrado e, assim como acontece com as religiões, é preciso interpretá-las de modo a permitir a convivência, a construção de sociedades justas em que haja espaço para a diversidade.

Para alguns estudiosos, Washington é responsável pelo surgimento das organizações terroristas que atormentam o Ocidente e fazem avançar a intolerância contra os muçulmanos. Não se pode esquecer que a Al-Qaeda nasceu e cresceu, entre outros motivos, a partir da instrumentalização do radicalismo islâmico que os Estados Unidos operaram no Afeganistão durante a ocupação soviética.

 Após o ‘11 de Setembro’, os Estados Unidos disseram não estar em guerra contra o Islã, apenas contra o terrorismo. Desde então, no entanto, deram todos os sinais de viverem, sim, uma guerra contra o Islã e os muçulmanos. As invasões do Afeganistão e do Iraque e depois todas as componentes da chamada ‘guerra contra o terror’, as prisões, as torturas, os assassinatos seletivos e a ameaça atual ao Irã alimentam o fogo do radicalismo, da discriminação e do medo.

Resta saber por que o mundo, nesta terceira década do Século XXI, sofre o arrefecimento dos princípios que nortearam a Declaração Universal dos Direitos Humanos?  Ignorada por um tirano extremamente poderoso, Donald Trump, e por outros de menor envergadura, a Declaração ainda pode ajudar no avanço da convivência harmônica entre os diferentes, mas há limites para o seu poder em relação à xenofobia e à intolerância. Esses fenômenos, nascidos do medo do outro, explicam-se muito mais em termos de psique, individual e coletiva, e a luta contra eles deve se dar em práticas de convivência que tragam à tona a consciência acerca do fato de que o outro, apesar das diferenças, é na essência um igual.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.