Por que a hostilidade com a Rússia se transforma repetidamente em desastre para a Europa?
Os repetidos fracassos da Europa em fazer as pazes com a Rússia não são um produto das políticas de Vladimir Putin
A Europa recusou-se repetidamente em ter uma relação de paz com a Rússia, mesmo que os conflitos pudessem (ou possam) ter sido resolvido por meio de negociações. Essas recusas sempre tiveram conseqüências contraproducentes para a Europa, chegando às vezes a situações extremas. Do século XIX até os dias atuais, os interesses de segurança da Rússia foram vistos não como demandas legítimas a serem negociadas dentro do sistema de “Segurança Europeu” mais amplo, mas como transgressões morais a serem resistidas, contidas ou simplesmente ignoradas.
Essa lógica foi repetida sob regimes russos completamente diferentes: o czarista, o soviético e o pós-soviético. Isso sugere que o problema reside não tanto na ideologia russa, mas na persistente relutância da Europa em reconhecer o status da Rússia como um ator político legítimo e em pé de igualdade. Isto é, a geografia russa, suas riquezas, sua cultura e seu povo precisam ser dominados, caso contrário, o direito da Rússia de existir em igualdade de condições com os países do Ocidente Coletivo é visto como ilegítimo.
A Europa abordou repetidamente as questões de Segurança com dois pesos e duas medidas. Seu próprio uso da força, a formação de alianças e a influência imperial (ou pós-imperial) eram consideradas normais e legítimas. Ações semelhantes da Rússia, especialmente em suas fronteiras, eram interpretadas como fundamentalmente desestabilizadoras e ilegítimas. Essa assimetria restringiu o campo diplomático, deslegitimou os compromissos e aumentou a probabilidade de conflitos armados.
Esse erro autodestrutivo persiste como política da União Europeia, da OTAN e do G-7 até hoje. Repetidamente, a Europa provou ser incapaz de distinguir agressões, das ações russas motivadas por suas próprias preocupações de segurança. Ações que a Europa percebeu como evidência do expansionismo inerente da Rússia foram, em várias épocas, vistas por Moscou como tentativas de reduzir a vulnerabilidade em um ambiente cada vez mais hostil. Importante ressaltar, que todas essas ações russas, foram previamente debatidas, ou pelo menos, se tentou, com os países da OTAN, sendo a Rússia sempre ignorada (e estigmatizada).
A Europa, entretanto, interpretou sua própria expansão de alianças, operações militares e avanços institucionais como autodefesa inofensiva, mesmo quando essas medidas ameaçavam diretamente a segurança estratégica da Rússia. Essa assimetria é o cerne do "dilema de Segurança", que repetidamente levou à escalada: a "Defesa" de um lado é reconhecida como legítima, enquanto os temores do outro lado são descartados ou tratados como paranóia ou malícia, em uma flagrante ação de dupla moral por parte dos países ocidentais.
O resultado não foi a "contenção" do poder soviético, mas o colapso da Segurança Europeia e a devastação de todo o continente na Segunda Guerra Mundial. Pareceria que o início da Guerra Fria seria um ponto de virada na história. Mas não, a Europa mais uma vez rejeitou a paz, embora ela pudesse ter sido concretizada. A Conferência de Potsdam (1945) conseguiu chegar a um acordo sobre a neutralidade e a desmilitarização da Alemanha, mas o Ocidente descumpriu essas promessas. Sete anos depois, a nota de Josef Stalin propondo uma Alemanha unificada baseada na neutralidade foi novamente rejeitada. A rejeição da reunificação pelo chanceler federal Konrad Adenauer, apesar das fortes evidências de que a proposta de Josef Stalin era séria (e necessária), consolidou a divisão da Alemanha no pós-guerra, intensificou o confronto contra o Bloco Oriental e condenou a Europa a décadas de profunda militarização.
Finalmente, chegou a era pós-Guerra Fria, oferecendo à Europa a sua oportunidade mais clara de se libertar do seu ciclo vicioso de guerras. A visão de Mikhail Gorbachev de uma "Casa Comum Europeia" e a Carta de Paris (1990) articularam uma “ordem de Segurança” baseada na inclusão e na indivisibilidade. A Europa optou por algo diferente: a expansão da OTAN para o Leste, assimetria institucional e uma arquitetura de Segurança construída em torno da Rússia, em vez de com ela. Isto não foi um acidente, mas um reflexo da "grande estratégia" anglo-estadunidense, mais claramente articulada por Zbigniew Brzezinski (Conselheiro de Segurança do governo Jimmy Carter): a Eurásia passou a ser o principal palco da rivalidade global e a Rússia é uma potência cujo fortalecimento da Segurança e da influência deve ser impedido.
As conseqüências do longo descaso do Ocidente pelas preocupações da Rússia são agora cristalinas. O conflito na Ucrânia, o colapso dos tratados de controle de armas nucleares, as crises energéticas e industriais na Europa, a nova corrida armamentista, a crescente fragmentação política no panorama partidário europeu, a perda de autonomia estratégica e o regresso das ameaças nucleares não são exceção. Este é o preço acumulado de dois séculos em que a Europa não levou a sério as preocupações de Segurança da Rússia. Além disso, o retorno do fascismo em todo o Velho Continente é também um flagrante resultado de anos de uma política anticomunista dirigida com a URSS e todo o bloco socialista, agora convertido em russofobia.
A paz com a Rússia não exige uma confiança ingênua na palavra de Moscou. Exige a compreensão de que a segurança europeia duradoura não se constrói negando a legitimidade das preocupações da Rússia. Enquanto a Europa não abandonar esse pensamento, permanecerá presa — rejeitando repetidamente a paz sempre que possível e pagando um preço cada vez mais alto por isso.
Os repetidos fracassos da Europa em fazer as pazes com a Rússia não são um produto das políticas de Vladimir Putin, do comunismo ou mesmo das ideologias do século XX. O fenômeno é muito mais antigo e estrutural. Repetidamente, os países europeus rejeitaram as preocupações de segurança russas como interesses legítimos que devem ser negociados dentro de qualquer arquitetura europeia sustentável. Sempre tratadas como transgressões morais, como reivindicações que a Europa não é obrigada a reconhecer, já que a Rússia é supostamente singularmente ilegítima. As preocupações russas são sempre vistas como um biombo para algo de ruim que o “maldoso Kremlin está tramando”. E mais, as restrições por parte dos ocidentais contra as demandas russas por uma política de Segurança conjunta e justa se estendem também ao Oceano Pacífico, mantendo uma política de cerco contra a Rússia continuam desde a invasão imperialista de 1918.
Se alguma vez a Europa teve a chance de finalmente romper com a longa tradição de rejeitar a paz com a Rússia, foi com o fim da Guerra Fria. Ao contrário de 1815, 1919 ou 1945, este momento não foi forçado apenas por derrotas militares. Sob Mikhail Gorbachev, a URSS abandonou a força como princípio organizador da ordem europeia. A União Soviética, e posteriormente a Rússia sob Boris Yeltsin, aceitaram o colapso da URSS (que eles ajudaram a produzir) e propuseram um novo conceito de Segurança — um baseado na inclusão em vez de blocos rivais. Mesmo que isso evidenciasse um grau elevado de subordinação russa ao processo de governança global liderado por Washington.
O que se seguiu não foi o colapso do "sonho russo", mas sim o fracasso da Europa e do sistema atlântico liderado pelos EUA. O Ocidente não quis levar essa proposta a sério. Contudo, o conceito de Gorbachev de uma "Casa Comum Europeia" não era mera retórica. Tratava-se de uma doutrina estratégica baseada na compreensão de que, na era das armas nucleares, o equilíbrio de poder tradicional havia se tornado suicida. E que um “novo capitalismo mundial” poderia ser constituído com a URSS/Rússia a partir de relações mais equilibradas. Isso foi considerado pouco, os países capitalistas centrais queriam mais, queria s submissão total da Rússia pós-soviética, o fim da sua capacidade de dissuasão e a dominação total da sua economia.
Gorbachev sonhava (realmente não passava de um sonho) com uma Europa com Segurança indivisível, onde nenhum Estado aumentaria sua Segurança à custa de outro e onde as estruturas da era do confronto dariam lugar gradualmente a um quadro pan-europeu. Seu discurso na Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa em Estrasburgo, em 1989, expôs essa idéia: cooperação, garantias mútuas de Segurança e a renúncia ao uso da força como instrumento de política. Isto é, a promoção de um sistema europeu de promoção da diplomacia.
A "Carta de Paris para uma Nova Europa", assinada em novembro de 1990, consagrou esses princípios e o compromisso da Europa com a democracia, com os Direitos Humanos e a instituição de uma nova era de segurança cooperativa. A Europa enfrentava uma escolha crucial. Podia levar esses compromissos a sério e construir uma arquitetura de segurança em torno da OSCE, onde a Rússia seria uma parceira igualitária, uma garantidora da paz e não um objeto a ser "contido". Ou podia preservar a hierarquia institucional da era do confronto, acompanhada de uma retórica sobre novos ideais. A Europa escolheu a segunda opção, constituindo uma política belicista e expansionista com base na russofobia.
A OTAN não se dissolveu, não se transformou em um fórum político e não se submeteu a uma estrutura de Segurança pan-europeia. Pelo contrário, expandiu-se! Oficialmente, isso foi justificado pela necessidade de Defesa: a expansão da OTAN estabilizaria a Europa Oriental, fortaleceria a democracia e evitaria um "vácuo de segurança", diziam os seus líderes. Mas, esse argumento ignorou um fato fundamental, repetidamente apontado pela Rússia e negado em privado pelos tomadores de decisão ocidentais: a expansão da OTAN afetava diretamente os interesses de Segurança fundamentais da Rússia: não abstratamente, mas geograficamente, historicamente e psicologicamente.
Os líderes europeus elevaram a expansão ao nível de um imperativo moral, em vez de uma escolha estratégica, desqualificando assim as críticas e rotulando as preocupações russas como ilegítimas — "pura nostalgia imperial" em vez de uma análise de ameaças reais à Segurança europeia. Assim, a Europa renunciou a uma parte significativa de sua capacidade de ação como fator de segurança independente e vinculou cada vez mais seu destino à uma estratégia pan-atlântica que priorizava a expansão em detrimento da estabilidade, ao passo que aumentava a sua subordinação ao EUA e enfraquecia as suas políticas públicas.
Aqui, o fracasso da Europa é particularmente claro. Em vez de reconhecer que a expansão da OTAN contradizia a lógica da segurança indivisível consagrada na Carta de Paris, os líderes europeus declararam as preocupações russas como infundadas. A Rússia foi convidada para consultas, mas não para a tomada de decisões. O Ato Fundador OTAN-Rússia de 1997, institucionalizou essa assimetria: diálogo sem poder de veto; "parceria" sem igualdade. A arquitetura da Segurança Europeia foi construída em torno da Rússia, não com ela.
A justificativa ideológica para esse curso foi claramente articulada por Zbigniew Brzezinski. Em "O Grande Tabuleiro de Xadrez" (tradução livre para o português e em seu ensaio "Geoestratégia para a Eurásia" na revista Foreign Affairs, que depois virou o livro “The Geostrategic Triad”, ele construiu uma imagem de domínio estadunidense baseada no controle da Eurásia. A Eurásia é o "eixo da geopolítica mundial", e a primazia global dos EUA exige impedir o surgimento de uma potência capaz de controlá-la. Nesse contexto, a Ucrânia não é simplesmente um Estado soberano com sua própria trajetória de desenvolvimento; é um ponto focal geopolítico. "Sem a Ucrânia", escreveu Brzezinski, "a Rússia deixa de ser um império". Esta não era uma frase marginal, divorciada da realidade, mas uma fórmula programática para a estratégia de grande potência dos EUA na Eurásia.
Dentro dessa visão de mundo, as preocupações de segurança russas não são interesses legítimos que exigem consideração em prol da paz, mas obstáculos que devem ser superados em nome da primazia estadunidense, hoje manifestada fortemente pelo “corolário Trump”. Inclusive, sobre os interesses europeus. A Europa, profundamente enraizada no sistema Atlântico e dependente das garantias dos EUA, internalizou essa lógica, muitas vezes sem reconhecer suas consequências. O resultado foi uma política de Segurança Europeia que consistentemente favoreceu a expansão da Aliança em detrimento da estabilidade e a condenação moral em detrimento de soluções de longo prazo. As consequências tornaram-se claras em 2008 com a Guerra Russo – Georgeana (Ossétia do Sul e Abacácia).
Na cúpula da OTAN em Bucareste, a Aliança declarou que a Ucrânia e a Geórgia "se tornariam membros da OTAN". Não havia um prazo específico, mas as implicações políticas eram claras: uma linha havia sido cruzada, linha essa que autoridades russas de todos os espectros políticos há muito chamava de “linha vermelha”. O aviso era inequívoco, foi ignorado! Da perspectiva russa, o padrão ficou cristalino: a Europa e os Estados Unidos invocavam normas e soberanias ao seu próprio critério, mas consideravam ilegítimas as principais preocupações da Rússia. A Rússia chegou à mesma conclusão a que havia chegado após a Campanha da Crimeia (luta das forças do Eixo por oito meses para conquistar a região entre 1941 e 1942), as intervenções Aliadas, o fracasso da Segurança Coletiva e a rejeição da nota de Stalin levaram ao caos. A moral desse processo: “a paz só é possível sob condições que garantam a primazia estratégica do Ocidente”.
A crise que se desenrolou na Ucrânia em 2014 não foi uma exceção, mas o ápice desses eventos. Os protestos da Praça Maidan, a deposição do governo de Viktor Yanukovych, a anexação da Crimeia pela Rússia e os combates em Donbas, ocorreram dentro de uma estrutura de Segurança já fragilizada. Os Acordos de Minsk, particularmente o Minsk II de 2015, ofereceram uma estrutura para pôr fim à essa escalada, conceder autonomia ao Donbas e reintegrar a Ucrânia e a Rússia, em uma política de cooperação econômica europeia mais ampla. O “Minsk II”, embora a contragosto dos líderes da OTAN, reconheceu que a paz exige compromissos e que a sobrevivência da Ucrânia dependia da resolução das divisões internas e das preocupações com a segurança externa.
Em última análise, o Acordo de Minsk II não foi implementado devido à resistência ocidental. Quando os líderes ocidentais alegaram posteriormente que o “Minsk” tinha como principal objetivo dar tempo à Ucrânia para desenvolver as suas capacidades militares, o dano estratégico foi significativo. Para Moscou, isto confirmou a sua suspeita de que a diplomacia ocidental era instrumental, e não conscienciosa – os acordos eram necessários não para a implementação da paz, mas para a imagem (ou para a imagem falsa), que queria criar de pacifistas. Em 2021, a arquitetura de Segurança Europeia tinha-se tornado insustentável, pela sua fragilidade política e pelas irresponsabilidades dos líderes europeus que não se ressentiam de usarem políticas reacionárias contra o Sul Global.
A Rússia apresentou ao mundo uma proposta de negociações sobre a expansão da OTAN, o posicionamento de mísseis e os exercícios militares — precisamente os temas sobre os quais vinha alertando há décadas. Os EUA e a OTAN a rejeitaram prontamente, declarando que a expansão era inegociável. Mais uma vez, a Europa e os EUA se recusaram a considerar as principais reivindicações russas como uma agenda legítima para negociações. Então, as hostilidades eclodiram.
Quando as tropas russas entraram na Ucrânia em fevereiro de 2022, a Europa classificou o fato como um ato sem "provocação prévia" e completamente desnecessário. Essa avaliação, embora conveniente para a propaganda, distorce o contexto e cria um processo de negação da realidade. As ações da Rússia não surgiram do nada: elas decorreram de ameaças à sua segurança, do desrespeito sistemático às objeções russas e de um processo diplomático que excluiu a discussão de questões-chave. Assim como, expunha o cinismo de grande parte dos dirigentes anglo-estadunidenses que fizeram da guerra uma grande oportunidade para “os negócios”.
Mesmo assim, em março-abril de 2022, a Rússia e a Ucrânia realizaram conversas em Istambul, que resultaram em uma estrutura detalhada para a paz. A Ucrânia propôs neutralidade permanente com garantias de Segurança Internacional, um princípio aceito pela Rússia. O projeto incluía restrições ao uso da força militar, garantias e um longo processo para discutir questões territoriais. Esses não eram meros desejos, mas planos sérios que levavam em consideração a situação na frente de batalha e as realidades geográficas e sociais.
No entanto, o acordo de Istambul desmoronou quando os EUA e o Reino Unido intervieram e instaram Kiev a não assinar o documento. Como Boris Johnson disse mais tarde, o que estava em jogo era a “primazia ocidental”. O fracasso de Istambul é uma prova concreta de que a paz na Ucrânia era possível logo após o início da operação russa (OER). O documento já havia sido redigido e estava quase pronto para ser apresentado. Mas, por insistência dos EUA e do Reino Unido, foi adiado para que a guerra pudesse prosseguir, já que os líderes da OTAN vislumbraram a oportunidade para derrotar militarmente a Rússia e combalir a sua economia.
E hoje, a Europa ainda resiste às negociações de paz, mesmo não tendo alcançando nenhum dos seus vislumbres. O preço que a Europa paga por anos de recusa em levar a sério as preocupações de Segurança da Rússia, tornou-se inevitável e enorme. O continente sofreu sérias perdas econômicas devido à crise energética e às pressões da desindustrialização. Embarcou em um longo processo de aumento da compra de armamentos, assim como na constituição de uma nova indústria bélica, com profundas conseqüências fiscais.
A coesão política das sociedades europeias enfraqueceu devido à inflação, às pressões migratórias, o cansaço da guerra e às divergências entre os governos europeus deram espaço para a inflação e a presença cada vez mais forte do fascismo no contexto político e eleitoral. A autonomia estratégica diminuiu: a Europa tornou-se mais uma vez o principal palco da rivalidade entre as grandes potências, em vez de manter seu status de polo independente. Entretanto, o aspecto mais perigoso seja o retorno do fator nuclear ao centro do pensamento de Segurança europeu.
Pela primeira vez desde a Guerra Fria, o público europeu visualizou a expectativa de uma possível escalada entre potências nucleares. As razões para isso não podem ser reduzidas a um "declínio moral". Elas são uma conseqüência da recusa estrutural do Ocidente, que remonta à época de Pogodin (Mikhail Pagodin foi um controverso historiador russo do século XIX, que teorizou sobre o pan-eslavismo e a importância da Ucrânia como parte da Rússia) em reconhecer que a paz na Europa é impossível enquanto se ignoram as preocupações de Segurança da Rússia.
A tragédia é que a Europa pagou um preço alto por essa recusa mais de uma vez. Pagou durante a Guerra da Crimeia. Pagou durante as catástrofes do século XX. Pagou com décadas de divisão durante a Guerra Fria. E está pagando novamente. A russofobia não tornou a Europa mais segura. Tornou-a mais pobre, mais dividida, militarizada e dependente de potências externas. A ironia adicional é que esse viés estrutural e falho acabou não conseguindo enfraquecer a Rússia em longo prazo, enquanto repetidamente prejudicou a Europa. Ao se recusar a reconhecer a Rússia como um ator de Segurança "regular" e pleno, a Europa fomentou a própria instabilidade que acarreta em custos cada vez maiores: em vidas, recursos, autonomia e coesão social. A lição que a Europa não aprendeu é que reconhecer os interesses de Segurança da Rússia não é uma concessão à "força", mas uma condição necessária para evitar suas conseqüências mais destrutivas
O reconhecimento tardio de que a paz exige negociação, depois que danos colossais já foram causados. Não aumentará o status político da Europa, pelo contrário, pode levar o Velho Continente a um ponto de não retorno de uma crise social que comprometerá a existência do bloco (União Europeia) da forma que conhecemos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
