Paulo Gala avatar

Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

11 artigos

HOME > blog

Por que Fundos Públicos são essenciais para produtividade, inovação e transição no Brasil

Fundos públicos para crédito de longo prazo em áreas estratégicas não são “distorção”; são infraestrutura financeira do desenvolvimento

Por que Fundos Públicos são essenciais para produtividade, inovação e transição no Brasil (Foto: Agência Brasil )

Em 2026, o Brasil vai operar uma das engrenagens mais importantes — e menos compreendidas — de política econômica: usar fundos públicos para alavancar crédito de longo prazo, a custo menor que o de mercado, em áreas com alto retorno social e produtivo. Estamos falando de algo na casa de R$ 148 bilhões entre dotações do ano e compromissos carregados, voltados a transição energética, inovação, habitação de interesse social, infraestrutura social e logística/indústria naval. Isso não é “gasto corrente”: é financiamento reembolsável, desenhado para destravar investimento, reduzir risco e acelerar a modernização produtiva num país que historicamente convive com custo de capital alto, prazos curtos e crédito pró-cíclico.

A lógica econômica é simples: existem atividades em que o retorno privado é menor que o retorno social — por incerteza tecnológica, risco de implantação, externalidades (ambientais, urbanas, de aprendizado) e maturação longa. Nesses casos, o mercado sozinho tende a subinvestir. Fundos como os de clima/energia, inovação (FNDCT), habitação e infraestrutura social funcionam como uma espécie de “ponte” entre o que é financeiramente viável para o privado e o que é estrategicamente necessário para o país. Ao reduzir o risco percebido e alongar prazos, o instrumento puxa investimento, amplia escala e permite que projetos que “não fechariam a conta” a juros de mercado saiam do papel.

O mix setorial desses recursos também revela uma estratégia coerente de produtividade. Na frente climática e energética, há um bloco relevante (cerca de R$ 27,5 bi no ano, além de aproximadamente R$ 11 bi carregados) para financiar eficiência energética, adaptação, descarbonização e cadeias verdes. Em inovação, o FNDCT entra com algo como R$ 8,9 bi mais aproximadamente R$ 14,2 bi já comprometidos, o que é crucial para P&D aplicado, infraestrutura de pesquisa, subvenções e instrumentos de difusão tecnológica. Em habitação de interesse social, há um montante expressivo (por volta de R$ 24,8 bi no ano e mais R$ 14,0 bi carregados) que não serve só para “construir casa”: serve para sustentar um setor com forte encadeamento, elevar produtividade urbana e reduzir déficit habitacional que, no fim, também é custo econômico. E, em infraestrutura social, aparece outro bloco significativo (cerca de R$ 10 bi no ano e R$ 13,5 bi carregados), com efeito direto sobre capital humano e eficiência do funcionamento das cidades.

“Mas por que não deixar tudo para o mercado?” Porque em países como o Brasil, com Selic elevada em momentos críticos e spreads estruturais, o mercado tende a operar com horizonte curto e avaliação de risco conservadora, especialmente em projetos complexos. Resultado: investimento cai justamente quando o país mais precisa dele. O papel do funding público — bem desenhado — é estabilizar o ciclo de investimento e permitir que setores estratégicos atravessem a volatilidade. Isso ajuda a explicar por que certos segmentos conseguem manter atividade e investir mesmo com juros altos: não é milagre, é arquitetura financeira.

Agora, compare isso com o agronegócio. O Brasil opera há décadas com subsídios e crédito direcionado no agro, via equalização, programas de custeio, investimento e instrumentos de garantia — e isso é amplamente aceito como “política de Estado” porque garante produção, exportação e segurança alimentar. Ou seja: quando é para o agro, o país entende que crédito com condições diferenciadas tem racionalidade econômica (risco climático, sazonalidade, garantia de oferta, estabilidade de renda, competitividade internacional). A pergunta correta, então, não é “pode ou não pode usar fundos públicos?”. A pergunta é: por que seria legítimo subsidiar e garantir funding barato para um setor e ilegítimo fazer o mesmo para clima, inovação, infraestrutura social e habitação, que também elevam produtividade, reduzem risco sistêmico e criam mercados?

E tem um ponto decisivo: muitos desses instrumentos são reembolsáveis e “alavancáveis”. Um real de funding público bem estruturado pode destravar múltiplos reais de investimento privado, via cofinanciamento, garantias, securitização e blending. Isso é muito diferente de gasto puro. É um modo de usar o orçamento para criar capacidade produtiva, acelerar transição tecnológica e reduzir gargalos que, sem isso, viram travas permanentes do crescimento.

Nada disso é argumento para cheque em branco. A defesa boa desses fundos vem junto com exigências claras: governança, transparência, adicionalidade (financiar o que não ocorreria sem o instrumento), metas e avaliação de impacto. Mas, cumpridas essas condições, o ponto central permanece: fundos públicos para crédito de longo prazo em áreas estratégicas não são “distorção”; são infraestrutura financeira do desenvolvimento. Sem esse tipo de instrumento, o Brasil fica condenado a um equilíbrio ruim: investimento baixo, inovação rarefeita, transição lenta e produtividade andando de lado — enquanto outros países fazem exatamente o oposto.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.