Por que Marighella mete medo?

"Não à toa a cadeia de homens brancos responsáveis pela condenação politica do único presidente de origem popular do Brasil, um Silva, começa por um Dallagnol, tem seu ponto mais trágico na caneta de um Moro e termina na pantomima de um trio "Gebran, Paulsen, Laus", sob a chancela de um 'simpático' Thompson Flores"

Marighella
Marighella (Foto: Brasil de Fato)
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As hostes bolsonaristas insistem em desprezar o ensino das ciências humanas, bem como todo o arcabouço cultural que as circunda, como livros e filmes que fazem alusão à história tal como é ensinada nos currículos universitários, amparados na pesquisa e na chancela técnica da comunidade científica. Recentemente, foi a vez da censura da Ancine ao filme “Marighella", do cineasta Wagner Moura, inicialmente previsto para estrear no dia 20 de novembro, quando se celebra a Consciência Negra. Marighella era negro, mestiço de mulher nascida escravizada e imigrante proletário italiano, de quem herdou o nome branco, mas cuja aparência não escondia as origens africanas.

A produção do filme dispensou verba pública, mas era ela necessária à sua distribuição para as salas de cinema, o que gerou o impasse. Uma conjunção de fatores faz com que o filme seja alvo da polícia politica ora informal de Jair Bolsonaro (PSL). O principal deles, contar uma versão dos fatos que seja crítica, porém generosa, com um homem que, sempre alijado, pelas forças de repressão, da vida pública à qual chegara legitimamente, um dia decidiu desistir de acreditar no modelo burguês de democracia e partiu à luta proletária, de armas na mão, fundando o grupo armado Ação de Libertaçao Nacional (ALN) durante o Regime Militar que se instalou em março de 1964 e que deixaria cair as máscaras quatro anos mais tarde, em maio de 1968, quando da outorga do Ato Institucional 5, que cassou direitos políticos e instituiu a perseguição política pelo Estado.

 O segundo, e mais complexo, não permitir que a história das pessoas negras deste país seja contada sob um novo prisma, apresentando-as como atuantes nas lutas sociais que construíram o Brasil atual, e não simplesmente como grupos sociais que apenas contemplaram as transições políticas e econômicas lideradas pelas elites luso-descendentes que hegemonizaram o país desde a Independência em 1822. Estes que, mais tarde, ganhariam companhia não pela imigração dos trabalhadores da lavoura, comércio e indústria vindos da Itália, do Japão e do Líbano, mas daqueles que resolveram, em meados do século XX, fazer dinheiro com investimentos no Brasil e criaram uma nova elite européia, radicada especialmente em São Paulo e no Sul do Brasil. Esta, tomaria para si o protagonismo. Em linhas gerais, salvo uma ou outra exceção, aí estão os Maluf, Matarazzo, Von Richtofen, Grael, Nasr e outros infindáveis exemplos de nomes estranhos às classes populares e usuais nas rodas de influência do poder econômico e político.

Não à toa a cadeia de homens brancos responsáveis pela condenação politica do único presidente de origem popular do Brasil, um Silva, começa por um Dallagnol, tem seu ponto mais trágico na caneta de um Moro e termina na pantomima de um trio "Gebran, Paulsen, Laus", sob a chancela de um simpático Thompson Flores, os quais jamais estariam na lista de chamada de um terceiro ano fundamental de uma escola pública de Ananindeua, no Pará.

Essa leitura sociológica deixa o academicismo dos livros universitários quando ganha os contornos das artes para chegar à compreensão popular (quem, do doutor universitário ao jovem aprendiz, não entende a mensagem de “Que horas ela volta?”). Desta forma, causa pânico aos que buscam manter o status quo social que, no Brasil, a exemplo de países como Estados Unidos e África do Sul, mantém igualmente um terrível aspecto racial. Juntos, são mais difíceis de serem ressignificados e quebrados, e neste momento o Brasil encontra-se atrás de seus pares nessa tarefa.

O terceiro aspecto seria, no âmbito mais amplo, a leitura histórica que se poderia fazer sobre o momento atual do país, quando um juiz de nome Moro manipula o sistema judicial e condena um homem do povo, de nome Silva, por ter feito bem ao povo de nome Sousa, Ferreira, Oliveira, Almeida que representam o trabalho e a luta no Brasil. Em que um governador de nome Witzel atira contra os Antunes, Fernandes, Abreu, de Jesus.

Ora, se Witzel atira contra o povo, sem mandado e contra a Constituição, por que não deve o povo estar armado para proteger-se, como preconizou Marighella? E se não há oportunidades para um homem negro, impedido de pertencer à classe política por pensar na libertação dos trabalhadores (à época, o comunismo era a única tendência à esquerda que punha esta possibilidade às claras na roda política), por que este segmento da formação étnica brasileira não deve encontrar formas pacíficas de se rebelar? E, afinal, se desde 70 nos atrás (remetendo ao Estado Novo de Vargas) a luta popular foi perseguida e ilegalizada por sistemas ditos “constitucionais” no Brasil, por que ainda acreditar na democracia burguesa?

São questionamentos que, a bem da verdade de ainda não termos assistido ao filme, a história de Carlos Marighella, retratada pela magia do cinema, pode despertar no mais simples dos cidadãos. E esses questionamentos, assim como os que eventualmente estejam presentes em outras manifestações artísticas que poderiam ser discutidas aqui, causam horror à elite sempre ameaçada do país, assim como à classe média que, mesmo igualmente explorada, prefere ser-lhe cliente e gozar das migalhas.

E antes que conteste o incauto: Marighella era, sim, um nome que nos soa elitizado, porque no caso dos italianos confundem-se os nomes dos proletários que vieram em condições análogas à de escravidão com as elites que vieram especialmente ao Sul e a São Paulo, dos anos 1920 ao pós-guerra. Apesar disso, Carlos Marighella não tinha dois sobrenomes, como é comum a quase todos os brasileiros, mas sua mãe, mulher nascida escravizada, era Maria Rita do Nascimento.

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