Por que não protestar contra o racismo dentro de Igrejas que não permitiam a entrada de negros em seus cultos?

A Igreja deveria, não por imposição, mas de forma espontânea abrir as suas portas para o debate racial e para o combate ao racismo de maneira mais contundente

www.brasil247.com - Protesto aos arredores de uma igreja em Curitiba (PR)
Protesto aos arredores de uma igreja em Curitiba (PR) (Foto: Reprodução/Instagram)


A partir do século XVI, a participação da Igreja Católica no processo de escravização dos africanos no Brasil foi determinante. Tanto para implantação, quanto para a manutenção do regime escravocrata. Graças ao chamado “padroado real”, uma união entre o Estado português e a Igreja ficava determinado que a Santa Sé se subordinaria ao Estado português, em troca da exclusividade da ação evangelizadora nas terras “descobertas” por Portugal, com o objetivo de aumentar os eu número de fiéis seguidores. Em contrapartida, a Igreja e a religiosidade católica foram utilizadas para justificar o sistema colonial imposto, legitimando o mercantilismo da escravização africana para a geração de riquezas para os portugueses.

Apesar de a escravização africana ter se tornado um dos pilares na estruturação da sociedade (racismo estrutural) e da economia colonial, uma questão não caía bem nessa história. Como uma instituição criada para promover a fraternidade, a justiça e a paz entre homens em nome de Deus poderia estar associada a um sistema hediondo e cruel de exploração humana? A solução encontrada para justificar tal ligação foi mais hedionda do que a própria política de escravização adotada. Assim, surge a ideia do negro desumano, animalizado e que poderia ser escravizado por que não possuía alma como os brancos. Algo que o Deus que a Igreja Católica apresentava como salvação não poderia estar de acordo. A não ser que estivéssemos falando do deus do inferno. O diabo.

Se analisarmos os posicionamentos da Igreja Católica no Brasil a respeito de sua participação no processo escravagista e na sua omissão diante da negação da humanidade dos africanos, vamos perceber que a mão que ergue a hóstia consagrada como o corpo de Cristo, está suja de sangue. Do sangue do próprio Cristo que a Igreja oferece a seus fiéis na eucaristia. Isto porque Jesus Cristo tinha sangue africano correndo em suas veias. Ou alguém ainda acredita que ele era branco, loiro, de olhos azuis e cabelos jogados ao vento, como costuma ser retratado pelo catolicismo? E quem vos escreve é alguém de formação católica. Mas vamos ao fato que motivou esse texto. A suposta invasão a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, por parte do vereador Renato Ferreira (PT) e do Coletivo Núcleo Periférico de Curitiba.

A extrema direita está tentando criminalizar uma manifestação pacífica, que fazia parte dos protestos que vinham sendo realizados em várias partes do país, por ocasião dos assassinatos de Moïse Kabagambe e Durval Teófilo Filho. Dois homens pretos mortos pelo racismo estrutural brasileiro, que mata 23 negros por dia no país. Bolsonaristas e direitistas radicais estão pedindo a cassação de Renato Ferreira, sob a acusação de quebra de decoro. Até Sérgio Moro, aquele juiz ladrão, classificou a manifestação como “absurda e revoltante”, num delírio hipócrita de quem costuma condenar as pessoas sem provas e baseado em suas convicções pessoais. Outros apelaram para a violação de um espaço sagrado e para o desrespeito à fé cristã. Argumentos que não se sustentam, quando são apresentados por defensores de Jair Bolsonaro, mas que se justificam com base no racismo estrutural da nossa sociedade.

Mesmo sendo a casa de Deus, ou seja, de todos os seres humanos que foram criados por ele, não era permitido aos negros compartilhar o mesmo espaço religioso com os brancos. Talvez pelo fato de que eles não eram humanos, como a Igreja e os colonizadores europeus assim julgaram. Contrariando os exemplos de Jesus Cristo – o inspirador da Igreja – que pregava a igualdade, a justiça e a paz; a Igreja se colocava ao lado da desigualdade, da injustiça e da violência, ajudando a promover o terror sobre pessoas indefesas que eram caçadas e aprisionadas como animais e traficadas para o outro lado do oceano, para serem submetidas ao trabalho escravo, ao cativeiro, a castigos cruéis e desumanos e para a morte. É também criação da Igreja, através do Padre Jesuíta Antônio Vieira, a ideia de que a escravidão para os africanos lhes servia como expiação dos pecados, pois os açoites e as dores impostos sobre eles, imitavam o sofrimento de Jesus Cristo para salvar a humanidade, o que, segundo o Padre, lhes garantiriam a salvação eterna e um lugar no paraíso.

Não houve invasão à Igreja em Curitiba, porque a mesma se encontrava aberta ao público. Ainda que houvesse sido invadida, levando-se em consideração o motivo dos protestos, o ato deveria ser perdoado como uma forma de reparação histórica, por todos os danos que a Igreja permitiu ou ajudou a provocar na vida dos negros e negras que foram trazidos para esse país. E não seria crime protestar contra o racismo, dentro de uma instituição religiosa que não permitia a entrada de negros em seus templos. Outra coisa que precisa ficar clara, é o fato de que a Igreja não é Deus, e, como podemos ao longo da história, nem sempre o representou de fato. Ou Deus teria inspirado a queima de corpos vivos na fogueira da santa inquisição? Portanto, é precis o entender a crítica que aqui se faz, e deixar de agir com a infantilidade de um religioso fundamentalista, que associa Deus aos erros de instituições e de homens que se dizem ungidos por ele.

O Deus criador está e sempre esteve em outro patamar. Bem distante de religiosos escravocratas e sanguinários que construíram riquezas sob a exploração humana e bebendo o sangue de homens e mulheres por ele também criados. A Igreja deveria, não por imposição, mas de forma espontânea abrir as suas portas para o debate racial e para o combate ao racismo de maneira mais contundente. Quantos padres e pastores se manifestaram sobre as mortes de Moïse e Durval? Silenciam hoje, como silenciaram durante a escravização africana. Continuam surdos para as reivindicações dos pretos vítimas do racismo que ela ajudou a implementar como estrutura social, como estiveram surdos aos gritos de dor dos negros açoitados durante a escravidão. Segue, através do silênci o, da omissão e da timidez nos posicionamentos, relativizando a dor de um povo que, durante muito tempo, ela sequer considerava parte da humanidade.

O inferno deve mesmo estar cheio.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email