Por que o Irã não irá capitular
Escalada militar expõe isolamento dos EUA e fortalece posição estratégica do Irã no cenário global
O governo dos EUA está claramente assustado. Em 16 de março, Trump contatou sete países, clamando pelo envio de barcos de guerra para o estreito de Ormuz, entre eles China, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido. Todos se manifestaram negando o pedido. Alemanha, Grécia, Itália e Espanha rejeitaram publicamente o pedido, mesmo não tendo sido nomeados pelo presidente dos EUA.
O acontecimento ilustra um pouco a correlação de forças no palco de guerra. Há cerca de 10 dias, ante a ameaça do Irã de fechar Ormuz, Donald Trump afirmou que, se o Irã cumprisse a promessa, os EUA seriam 20 vezes mais violentos com o país, impedindo a sua reconstrução. Neste momento, os EUA não apenas não estão conseguindo cumprir a promessa, como estão implorando ajuda aos aliados e outros. Conforme o planejado, o Irã está usando o controle do estreito de Ormuz para dissuadir potenciais aliados dos EUA de entrarem na guerra.
Nenhum país imperialista, que sempre é tão subserviente aos EUA (como revela a guerra na Ucrânia), quer participar deste conflito. Esses países já perceberam que essa guerra é um verdadeiro pântano. Um ministro da Alemanha chegou a afirmar que essa é uma guerra dos EUA e, portanto, o país tem que resolvê-la sozinho. Os países europeus, que perdem implacavelmente uma guerra em seu próprio continente, não querem embarcar na aventura de um ataque mal planejado e sem estratégia de retirada. Além disso, entrar ativamente em mais uma guerra encontra alta rejeição em todos os países da Europa. Os eleitores europeus, que estão perdendo renda e direitos, são absolutamente hostis à ideia de aderir a uma guerra por causa dos interesses de norte-americanos e sionistas. Aliás, considerando a situação política e econômica da Europa, o continente não deveria nem pensar em entrar em guerra de qualquer tipo.
Há uma outra razão que coloca os europeus visceralmente contra a guerra no Golfo Pérsico. Ela está melhorando substancialmente o caixa da Rússia. Antes do início da guerra no Irã (em 28 de fevereiro de 2026), o petróleo russo do tipo Urals (principal tipo de petróleo bruto exportado pela Rússia) estava sendo vendido em uma faixa de preço entre US$ 49 e US$ 59 por barril. A Rússia aplicava descontos para manter suas exportações para países como China e Índia, além das sanções remanescentes do conflito na Ucrânia. O governo russo havia elaborado seu orçamento federal para 2026 baseando-se em um preço médio de US$ 59 por barril. Com o ataque ao Irã e o controle do estreito de Ormuz, o preço atual beira os US$ 100, com possibilidades de aumentar muito mais, a depender dos desdobramentos da guerra. Calcula-se que a receita extra do governo russo, em decorrência do aumento do preço do petróleo, seja de cerca de US$ 150 milhões por dia.
O tabuleiro da guerra é espinhoso. A agressão dos EUA ao Irã está, ao mesmo tempo, melhorando as condições russas na inevitável vitória sobre a OTAN na Ucrânia. E isso a russofobia dos europeus não perdoa. Há um dado adicional que é a inteligência com que os iranianos combinam guerra e diplomacia. O estreito de Ormuz está aberto para os aliados. O ministro de Relações Exteriores, Abbas Araqchi, tem dito que o estreito só está fechado para os barcos estadunidenses, israelenses e seus aliados. Barcos de outros países estão passando normalmente. O Irã está abrindo a possibilidade mesmo para países imperialistas muito alinhados com os EUA, como França e Reino Unido. Essa é uma jogada de alto nível, que só uma diplomacia muito sofisticada poderia produzir.
Um dos elementos-chave nos acontecimentos do conflito é o de que o governo dos EUA, basicamente, não entende o que acontece no Irã. Por exemplo, achou que o assassinato do aiatolá Khamenei, nas primeiras horas do ataque, fosse abreviar o fim da guerra com a rendição dos iranianos. Nada disso aconteceu, e estão perdendo a guerra. Os EUA, por sua arrogância e desprezo ao Irã, não compreendem que este país tem uma constituição nacional sofisticada e que vem sendo respeitada desde que adotada. O que é uma diferença radical em relação aos EUA, que cometem todos os crimes possíveis à revelia de sua Constituição federal e das leis internacionais.
De fato, o imperialismo não entende que a República Islâmica do Irã não depende de nenhuma pessoa em particular, mas é um Estado sofisticado. Além disso, a nação iraniana tem demonstrado uma fibra que não se vê em nenhum outro país do mundo. Por exemplo, na posição de repúdio contra o genocídio de crianças e mulheres na Faixa de Gaza, nenhum outro governo no mundo assume uma posição tão corajosa e consequente nesse tema quanto o Irã. O professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, especialista em geopolítica, é autor de uma frase recente que sintetiza a questão: “O Eixo da Resistência, liderado pelo Irã, é a maior força moral do planeta”. O elevado moral do povo iraniano e de suas lideranças, comparado com a desonra e a baixeza do inimigo, sem dúvida influenciará os rumos desta guerra.
As possibilidades de desfecho deste conflito são inúmeras, e sobre elas é possível apenas montar hipóteses, até o momento. Em face de uma evidente frustração dos agressores nas três primeiras semanas de guerra, fala-se dos riscos de Israel atacar o Irã com armas nucleares táticas. O simples fato de que se levante essa possibilidade revela com que tipo de governo se está lidando. Na verdade, a crueldade sionista já é bastante conhecida da população mundial, e por isso a possibilidade de uso de armas nucleares é real, ainda que remota neste momento. Evidentemente, no planejamento meticuloso que o Irã fez desta guerra, essa hipótese foi considerada, por sua centralidade e importância.
Com o uso de armas nucleares, a realidade da guerra mudaria. O Irã teria que rever sua posição de não possuir armas nucleares, para a qual inclusive iria firmar acordo com os EUA, se este país realmente quisesse negociar. Um outro efeito seria um repúdio do mundo contra o regime de Israel ainda maior. Outra questão seria a inevitável escalada da guerra, já que o Irã tem vários aliados com capacidade nuclear que, do ponto de vista estratégico, não poderiam deixar de dar uma resposta.
Ademais, o Irã tem condições tecnológicas de possuir seu próprio arsenal nuclear em relativamente pouco tempo. Não apenas por dispor de uma engenharia muito desenvolvida — que está mostrando a que veio nesta guerra —, mas também em decorrência das novas tecnologias e da inteligência artificial, que facilitam sobremaneira o desenvolvimento desse tipo de processo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
