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Pedro Maciel

Advogado, sócio da Maciel Neto Advocacia, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito”, Ed. Komedi, 2007

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"Por que o liberalismo fracassou?"

Segundo Deneen o liberalismo seria incompatível com a humanidade.

"Por que o liberalismo fracassou?" (Foto: Reprodução)

Tenho o hábito de compartilhar os meus artigos por WhatsApp.  

 Como os compartilho através das listas de transmissão (amigos, família, advogados, clientes) alguns recebem o mesmo conteúdo mais de uma vez, pois estão em mais de uma das listas.  

 Um dos últimos artigos que compartilhei é uma crítica à privatização da SABESP pretendida pelo governador bolso-paraquedista Tarcísio de Freitas.  

 Não é o caso de defender aqui o meu ponto de vista, que é frontalmente contra a privatização da empresa estadual de saneamento, mas vale a pena lembrar que: (a) privatizar não é política pública; (b) saneamento é Direito Humano e (c) a constituição estabelece que é permitida a atuação empresarial do Estado quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo.

 O artigo contra a privatização da SABESP, foi duramente criticado pelos olavobolsonaristas e pelos “isentões” (aqueles que dizem não ser “nem de direita, nem de esquerda”, mas que são sempre de direita).  

 Uma das críticas mais ácidas veio do querido Célio Andrade, um grande advogado, natural de Casa Branca, radicado em Campinas há décadas, e que, dentre tantos defeitos, insiste em não abrir o coração para a PONTE PRETA.

 O Célio disse que meu artigo é um “amontoado de narrativas”. Eu fico muito satisfeito quando os meus textos causam reações, especialmente de desagrado.  

 Outro que recebeu o artigo e que não gostou dele foi o Paulo Victorino; respondeu o WhatsApp afirmando que tudo deveria ser privatizado, ou, como ele escreveu: “tudo, tudo, tudo”. Ainda não perguntei a ele se o SUS também deve ser privatizado, tendo em vista que recentemente ele foi salvo por uma cirurgia pelo sistema público de saúde (vou perguntar e depois eu conto).

 Duas boas pessoas contaminadas por uma lógica que desumaniza a nossa sociedade.  

 Acredito que a verdade é que a sociedade ocidental é vítima do liberalismo, afinal, são décadas de lógica liberal, corroendo a capacidade de pensar livremente das pessoas. O liberalismo é corrosivo e desumanizante.   

 Exagero? Acho que não, aliás, não estou sozinho nessa opinião.  

 Há um livro chamado: “Por que o liberalismo fracassou?”, publicada em 2018 nos EUA pelo professor de ciência política da Universidade de Notre Dame, Patrick J. Deneen, que apresenta uma crítica à ideologia liberal, que abrange tanto o liberalismo clássico, identificado com a direita republicana no cenário americano, quanto ao liberalismo progressista, identificado com a esquerda democrata americana.  

 O professor Deneen crítica a excessiva ênfase à autonomia individual que fundamenta o pensamento liberal e defende que o liberalismo deve ser aposentado como ideologia; afirma que o liberalismo fracassou ao se tornar bem-sucedido, pois, a absolutização da autonomia individual leva à atomização dos indivíduos, à quebra de laços comunitários, à profunda desigualdade social, à desestabilização das autoridades, dentre outras consequências. Noutras palavras, o sucesso da ideologia é o fracasso da humanidade e da própria marcha do processo civilizatório.

 Ele sustenta que o liberalismo, enquanto ideologia que absolutiza a autonomia individual, tornou-se um pesadelo para a liberdade e propõe novas formas de comunidade que reestabeleçam as relações de fraternidade entre os indivíduos através de laços morais.  

 O liberalismo estaria funcionando como uma cosmovisão que só é percebida quando entra em crise, isto é, a visão de mundo dos indivíduos ocidentais teria sido tão modelada pelo liberalismo que, só em crise, é possível enxergar com mais clareza suas consequências.  

 A perspectiva apresentada por Dennen é de que as crises do liberalismo são inevitáveis, elas surgem e se aprofundam à medida que as promessas do sistema não correspondem à realidade da vida das pessoas e quando as promessas de mais liberdade por meio de mais autonomia individual não são alcançadas.  

 E tais crises dão-se em vários campos: política, economia, educação etc.

 Na política, aristocracias governantes são legitimadas com base em pressupostos liberais que, por sua vez, atribuem a tais lideranças mais poder para garantir mais liberdade aos indivíduos. Contudo, o custo da concentração de poder político é mais distanciamento entre as aristocracias e as massas, como também um maior controle de tais lideranças sobre os cidadãos.

 Deneen defende que no âmbito econômico, o princípio liberal de competição tende a reforçar as desigualdades econômicas, gerar distinção meritocrática entre vencedores e fracassados e submeter os indivíduos à mentalidade consumerista.

 A educação, por sua vez, deixa de servir ao cultivo de uma pessoa livre e passa a ter a finalidade de atribuir ao mercado profissionais preocupados, primordialmente, com o sucesso financeiro.  

 Há uma lógica nefasta: no liberalismo Estado e mercado agem fortalecendo ainda mais a aristocracia e o aparato estatal, aprofunda as desigualdades sociais, a competição e mérito passam a determinar as relações interpessoais e intercomunitárias, em detrimento das relações fraternas.  

 Segundo Deneen o liberalismo seria incompatível com a humanidade.  

 E no que diz respeito à proposta do governador bolso-paraquedista convido o leitor a pensar: (a) se acordo com o Transnational Institute, organismo internacional de pesquisa e financiamento que há mais de 40 anos atua ao lado de movimentos sociais, sindicais e acadêmicos, há em todo o mundo 835 casos de retomada do controle sobre serviços públicos por governos locais, dos quais 267 na gestão da água; (b) no período de 2000 a 2017 remunicipalização dos serviços de saneamento ocorreu sobretudo na França, onde há 106 casos; (c) a remunicipalização ou reestatização vem sendo conduzida por políticos de todas as tendências político-partidárias, o que revela que tais privatizações não são beneficias para os cidadãos, que acabam pagando mais caro pelo mais essencial recurso natural à vida.

 Essas são as reflexões.

 e.t. outro amigo, médico e fazendeiro, mandou um WhatsApp dizendo que está faltando diesel no Mato Grosso. Sugeri que ele reclame com quem privatizou a Br Distribuidora.  

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.