Por que os EUA têm interesse no petróleo da Venezuela
Toda a indústria americana de refino de petróleo foi projetada para processar petróleo mais pesado
Como explicar o interesse dos EUA pelo petróleo da Venezuela? Os motivos vão do geográfico, ao econômico e de infraestrutura. O Porto José, de onde partem navios com petróleo venezuelano, fica em torno de 3.650km de Houston, Texas, de onde saem os oleodutos que distribuem o petróleo para todos os estados e refinarias americanas. Uma distância que pode ser percorrida em menos de uma semana em contraste com os 40 dias que levaria para um petroleiro sair da Arábia Saudita e chegar aos EUA.
Toda a indústria americana de refino de petróleo foi projetada para processar petróleo mais pesado e com alto teor de enxofre vindo do México e da Venezuela. Nos últimos anos, os EUA vêm assistindo ao fechamento de diversas refinarias não só em função do avanço da produção das energias renováveis, mas, principalmente, em razão da queda de importação do petróleo venezuelano. Readaptá-las para o refino do petróleo de xisto mais leve e com baixo teor de enxofre da Bacia Permiana - a maior do mundo localizada entre os estados americanos do Novo México e Texas - exigiria um processo de modernização de altíssimo custo.
A solução econômica é importar petróleo de menor qualidade e valor, processá-lo e exportar seus derivados refinados (gasolina, óleo diesel e outros combustíveis) com valor agregado. O petróleo de xisto, chamado de petróleo doce, é, então, exportado em sua forma bruta por valores muito acima do petróleo mais pesado.
O Canadá, país vizinho dos EUA, também produz petróleo grosso, mas a logística de transporte por trens e caminhões-tanque devido ao número insuficiente de oleodutos entre os dois países, torna o produto excessivamente caro em comparação ao petróleo da Venezuela.
A produção americana de petróleo bruto e seus derivados vêm aumentando a cada ano desde 2015. Atualmente, são os principais produtos de exportação dos EUA. Em 2022, os três principais produtos de exportação dos EUA foram petróleo e seus derivados, sendo que o petróleo refinado (gasolina e outros combustíveis) representava 7,08% de todas as exportações, o petróleo bruto, 6,07% e gás de petróleo (GLP), 5,94%. Ou seja, o petróleo e seus derivados representaram 19,09% de todas as exportações americanas.
O petróleo e seus derivados são fundamentais para a economia americana em risco de recessão. A importação do petróleo venezuelano pelo EUA para abastecer suas antigas refinarias atingiu o pico durante o processo de abertura petrolífera nos anos de 1990. Iniciou-se, naquele período, na Venezuela um processo que transferiu do setor público para o setor privado, principalmente para empresas transnacionais, importantes atividades da indústria de hidrocarbonetos do país.
Após a nacionalização de vários setores da indústria de petróleo promovida por Hugo Chaves em seu segundo mandato, as importações de petróleo pelos EUA caíram. Em 2019 – já no governo Nicolas Maduro – a Venezuela passou a sofrer sanções impostas pelos EUA, o que impediu que o país negociasse livremente seu petróleo. Somente China e Rússia mantiveram o comércio com a Venezuela. Em outubro de 2023, os EUA suspenderam as sanções à indústria de petróleo e gás venezuelana alegando razões humanitárias, mas, claramente, também em razão das sanções impostas à Rússia devido a guerra contra a Ucrânia. Vítima de suas políticas de sanções, as exportações de petróleo refinado e outros combustíveis dos EUA caíram de principal produto de exportação em 2022, para a terceira posição em 2023.
Em um mundo ainda largamente dependente dos combustíveis fósseis - não só para produção de combustíveis, mas para toda uma cadeia de produção da indústria como tintas, partes automotivas, etc - a intervenção americana em países produtores de petróleo, como assistimos hoje na Venezuela, é apenas algumas das estratégias que os Estados Unidos utilizam para forçar alianças mais favoráveis para a sua política de comércio exterior.
A compra da refinaria Pasadena - alvo da operação Lava Jato - é um exemplo da pressão exercida pelos EUA sobre nações mais pobres para garantir o crescimento de sua economia. Ao ser adquirida pela Petrobrás, Pasadena passou por um processo de retrofit para o refino de petróleo leve. Localizada estrategicamente ao longo do Canal de Navegação de Houston, no Texas, e próxima da Bacia Permiana, Pasadena, que foi comprada em 2019 pela Chevron por US$ 562 milhões (muito abaixo do valor de US$ 718 milhões investidos pela Petrobras), processa atualmente 125 mil barris de petróleo por dia.
A história de usurpação de recursos naturais dos países mais pobres pelas grandes potências econômicas mundiais é antiga e acende um alerta para o Brasil em ano eleitoral.
Fontes:
EIA-US Energy Information Administration. The United States produces lighter crude oil, imports heavier crude oil. https://www.eia.gov/todayinenergy/detail.php?id=54199
Chevron, 2024. Chevron Upgrades Pasadena Refinery to Increase Capacity, Feedstock and Product Flexibility. https://www.chevron.com/newsroom/2024/q4/chevron-upgrades-pasadena-refinery-to-increase-capacity-feedstock-and-product-flexibility
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

