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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Por que perguntamos “o que você faz?” antes de perguntar quem você é?

Entre títulos, cargos e currículos, permanece esquecida a tarefa mais importante da existência: descobrir, desenvolver e compartilhar potencial humano

Por que perguntamos “o que você faz?” antes de perguntar quem você é?
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O marketing pessoal talvez seja uma das invenções mais reveladoras do nosso tempo. Não porque tenha ensinado profissionais a comunicar melhor o próprio trabalho, mas porque ajudou a deslocar a atenção daquilo que somos para aquilo que conseguimos projetar. 

A ascensão dessa lógica não foi apenas uma mudança de linguagem; foi uma mudança de paradigma. Neste ponto começa o inventário das nossas sombras, das nossas tragédias como humanos.

Entre as décadas de 1980 e 1990, nos Estados Unidos, conceitos criados para vender produtos e fortalecer empresas passaram a moldar trajetórias individuais. Livros de gestão, consultorias de carreira e departamentos de recursos humanos consolidaram uma nova exigência: cada indivíduo deveria administrar, gerenciar a si mesmo como uma como uma microempresa individual, uma marca. 

O mérito deixou de bastar. Era necessário conquistar visibilidade. A competência, por si só, perdeu força. Precisava ser transformada em narrativa, embalada, promovida e consumida.

À primeira vista, a proposta parecia sensata. Comunicar bem o próprio trabalho é, sem dúvida, uma habilidade valiosa. O problema começou quando a racionalidade mercadológica invadiu territórios mais profundos da existência. 

Pessoas passaram a ser avaliadas pelos mesmos parâmetros usados para mensurar produtos. Relações humanas foram reduzidas a networking. Prestígio virou posicionamento. O encontro genuíno cedeu espaço ao cálculo estratégico. 

Aos poucos, deixamos de perguntar quem alguém é para perguntar quanto vale sua projeção pública.

Essa transformação produziu efeitos que vão muito além das redes sociais. Em inúmeros ambientes profissionais, acadêmicos e corporativos, a curiosidade autêntica pelo outro foi substituída por um mecanismo quase automático de ranqueamento. 

Qual o cargo? Em qual organização trabalha? Qual cargo você ocupa? Quantos seguidores possui? Ensina em quais universidades? Quantos livros publicou? O interesse frequentemente recai menos sobre a pessoa do que sobre o capital simbólico acumulado em seu currículo.

As plataformas digitais ampliaram esse fenômeno a uma escala inédita. 

Nunca foi tão fácil construir uma versão editada da própria existência. O fracasso desaparece. A dúvida desaparece. Os erros desaparecem. Permanecem apenas os momentos cuidadosamente selecionados para exibição pública. Vemos a fotografia do lançamento de um livro, mas não as recusas recebidas antes da publicação. sabemos da aula Magna que você deu no primeiro dia do curso de Direito. Vemos a palestra concorrida, mas não os auditórios vazios que a antecederam. 

Vemos somente a conquista, mas raramente o caminho.

Fernando Pessoa identificou essa tendência muito antes da internet. Em “Poema em Linha Reta”, não apenas ironizou a necessidade humana de parecer admirável; expôs uma das mais persistentes formas de falsificação social. O poeta observava um mundo em que todos se apresentavam como vencedores, virtuosos, equilibrados e exemplares. Nunca encontrava alguém que confessasse uma fraqueza profunda, um fracasso humilhante, uma derrota moral ou uma bofetada recebida da vida. Todos pareciam heróis de si mesmos. Todos pareciam ter atravessado a existência sem tropeços, sem vergonha, sem contradições. O desconforto do poema nasce justamente desse deslocamento: Pessoa percebe que não se reconhece naquela galeria de personagens impecáveis. Sua humanidade, feita de falhas, inseguranças e imperfeições, não encontra lugar numa sociedade obcecada por exibir grandeza. 

Décadas depois, a crítica permanece assustadoramente atual. 

As tecnologias mudaram, mas a necessidade de dourar a pílula continua a mesma. Seguimos construindo versões idealizadas de nós mesmos, empenhados em demonstrar não apenas sucesso, mas felicidade permanente, equilíbrio permanente, realização permanente. O resultado é uma vitrine coletiva onde quase ninguém parece sofrer, fracassar ou duvidar. E justamente por isso tantas pessoas se sentem inadequadas diante de vidas que, na realidade, não existem. Ninguém aguentaria viver 100 anos em interruptos de plena felicidade. Refletirei sobre isso em outro momento.

Talvez por isso a pergunta “o que você faz?”  tenha se tornado cada vez menos interessante para mim. Ela informa ocupações, mas raramente revela pessoas.

Dois profissionais podem exercer a mesma atividade e representar presenças completamente distintas no mundo. Um médico pode enxergar pacientes como casos clínicos; outro como seres humanos. Um professor pode repetir conteúdos; outro despertar talentos e até vocações. Um jornalista pode reproduzir versões prontas; outro ampliar a compreensão coletiva da realidade.

Ao longo da vida passei a enxergar cada ser humano como uma mina ainda inexplorada. Não uma mina comum, daquelas que se esgotam após anos de exploração, mas uma formação geológica rara, cujas galerias mais valiosas permanecem ocultas até mesmo para seu proprietário. 

A maioria das pessoas atravessa a existência caminhando apenas pela superfície desse território interior. Conhece algumas habilidades, desenvolve certas competências, acumula experiências, mas jamais alcança as camadas mais profundas onde repousam suas verdadeiras riquezas. Em algum ponto dessa mina podem existir joias de imenso valor e nunca utilizadas, reservas de criatividade jamais despertadas, capacidades éticas adormecidas, talentos artísticos ignorados, formas de sensibilidade que nunca encontraram expressão. O mais impressionante é que essas riquezas não são visíveis à primeira vista. Exigem escavação, paciência, autoconhecimento e, muitas vezes, a ajuda de educadores, mentores, amigos ou experiências transformadoras.

Sempre me pareceu que a verdadeira educação deveria existir para isso. Não apenas para transmitir informações ou preparar profissionais para o mercado, mas para fornecer as ferramentas que permitam a cada indivíduo descer às profundezas de si mesmo. 

Porque o maior desperdício humano não é fracassar. É viver sobre uma montanha de joias interiores sem jamais descobrir sua existência.

Quando alguém inicia uma autêntica jornada de autoconhecimento, não beneficia apenas a si mesmo. Torna-se mais capaz de compreender os outros, de servir à sociedade e de produzir relações mais profundas. Descobrir quem somos talvez seja a tarefa mais importante da vida, porque dela depende a qualidade de tudo aquilo que oferecemos a nós mesmos e, em consequência, ao mundo.

Essa reflexão conduz a outro empobrecimento característico de nossa época: a superficialidade crescente das conversas. Zygmunt Bauman descreveu uma sociedade marcada pela liquidez dos vínculos. A mesma liquidez parece ter alcançado o diálogo cotidiano. Falamos cada vez mais e compreendemos cada vez menos.

Grande parte das interações permanece restrita à superfície dos acontecimentos. Comentamos se o dia está quente ou frio, se vai chover, os resultados esportivos, as guerras, os escândalos políticos, os reality shows, as novelas e as polêmicas do momento. Não há nada de errado nesses temas. O problema surge quando eles ocupam quase todo o espaço disponível. 

Falamos muito sobre fatos e pouco sobre significados. desperdiçamos assim com banalidades e futilidades o que temos de mais precioso — o tempo de vida que nos é destinado viver. E como sabemos o tempo não volta, não retrocede, ele apenas avança, inexorável e indiferente ao que fazemos com ele.

Temos hoje uma absoluta carência de conversas significativas. 

Não me refiro a diálogos sofisticados, intelectuais ou carregados de referências eruditas. Refiro-me a conversas capazes de ultrapassar a camada mais externa da realidade e alcançar aquilo que efetivamente molda uma vida humana. 

Conversas em que as pessoas não apenas trocam informações, mas compartilham compreensão. Em que existe espaço para examinar convicções, questionar certezas, refletir sobre escolhas, reconhecer vulnerabilidades e explorar aquilo que realmente importa. Uma conversa significativa não gira necessariamente em torno de grandes temas; ela se torna significativa quando produz discernimento. Quando nos ajuda a enxergar melhor a nós mesmos, aos outros ou ao mundo. Quando nos faz sair diferentes de como iniciamos a conversa. 

O problema de nossa época não é a falta de comunicação. É a abundância de comunicação sem profundidade. Estamos cercados por mensagens, opiniões, comentários e conteúdos, mas cada vez mais privados daquele tipo de diálogo que amplia a consciência e enriquece a experiência humana.

Quando me perguntam o que faço, respondo que sou escritor, jornalista e professor universitário. Mas essa resposta, embora correta, diz muito pouco sobre aquilo que realmente orienta minha trajetória. Os títulos descrevem funções; não revelam propósitos. 

Ao longo de décadas transitando entre a universidade, as redações, os livros e os espaços de formação humana, percebi que existe um fio condutor ligando todas essas atividades. Escrevo porque a escrita é uma ferramenta de investigação da realidade e da condição humana. O jornalismo me ensinou a desconfiar das aparências e a buscar o que está por trás dos fatos. Um sábio persa em meados do século XIX nos deu a chave: a verdade é um ponto, o ignorantes o multiplicaram. 

A docência reforçou minha convicção de que ideias podem alterar destinos individuais e coletivos quando encontram terreno fértil. Em todas essas frentes, meu interesse nunca esteve apenas na transmissão de informações, mas na ampliação da capacidade de compreensão. Em última análise, trato de dedicar minha vida profissional a fazer perguntas, estimular reflexão e criar pontes entre conhecimento e significado.

Com o passar dos anos, aprendi que cargos envelhecem rapidamente. Alguns desaparecem. Outros são ocupados por quem vem depois. O que permanece são os encontros humanos produzidos ao longo do caminho. Um aluno que escreve décadas depois fazendo a alusão a algo que ele diz ter sido determinante em sua vida. Um leitor que encontra numa página uma pergunta necessária. 

Uma amizade construída em torno de ideias compartilhadas. A título de exemplo, tenho um amigo a quem me refiro apenas pelas iniciais RB. Nos últimos anos, ele tem me concedido amplo espaço para conversas que ultrapassam as fronteiras do ambiente empresarial, acadêmico, corporativo e público. São diálogos que frequentemente avançam para questões de sentido, escolhas, valores e compreensão da experiência humana. Experiências assim reforçam minha convicção de que algumas das relações mais valiosas da vida nascem justamente da disposição de conversar para além dos papéis que desempenhamos. São essas experiências que resistem ao desgaste do tempo, muito depois de currículos terem perdido relevância e posições terem sido esquecidas.

Talvez a pergunta decisiva não seja “o que você faz?”, mas “o que permanece de você na vida dos outros?”. Essa é uma questão muito mais exigente, porque desloca o foco da performance para o legado humano. A resposta não se encontra em perfis profissionais, métricas de desempenho, estratégias de autopromoção ou indicadores de visibilidade. 

Ela se manifesta nas consciências que ajudamos a despertar, nas vidas que influenciamos positivamente e nas ideias que continuam produzindo efeitos depois de nossa passagem. É viver no modo aprendizagem contínua. Ninguém é mestre e ninguém é aluno: são saberes diferentes, mas igualmente importante e necessários. 

Neste tempo em que exposição se transformou em moeda social e notoriedade, em critério de valor, talvez a verdadeira resistência intelectual e moral consista em recusar essa lógica. Afinal, uma existência não se mede pela eficiência com que administra a própria imagem, mas pela profundidade das marcas humanas que deixa para trás. 

Quando a visibilidade desaparece — e ela sempre desaparece — resta apenas aquilo que fomos capazes de semear na experiência dos outros. É nesse terreno, e não nas vitrines da autopromoção, que uma vida encontra seu significado mais duradouro.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.