Por que retorno ao PT

Se no segundo semestre de 2013 a presidenta Dilma gozava de respeitável popularidade, mantendo o controle da administração do Estado em suas mãos, hoje a situação é inversa



Na última sexta-feira, 25/09, manifestei de público meu desejo de requerer refiliação ao PT, partido ao qual estive formalmente vinculado durante 19 anos, entre 1994 e 2013, com militância espontânea remontando a 1988. Com sua sobejamente conhecida perspicácia de análise, o jornalista Eliomar de Lima, ao comentar o fato em seu blog, reverberou trecho de minha carta de desfiliação em que asseguro que para minha decisão de saída "não havia nenhum motivo específico, senão um conjunto de fatores, entre os quais a opção do partido por 'gerenciar um modelo econômico neoliberal, priorizando, muitas vezes, o desenvolvimento econômico antes do desenvolvimento humano'". Ao final, o cronista político oportunamente arrematou: "VAMOS NÓS – O que mudou com a era Joaquim Levy?". O questionamento é válido e, sem sombra de dúvidas, me impõe a necessidade de explicar o porquê da decisão de retornar ao Partido dos Trabalhadores justamente agora no momento em que a política econômica do governo mostra sua faceta mais neoliberal.

Pois bem. Inicialmente, destaco que, apesar do curto espaço temporal de dois anos, os cenários políticos nacionais ao final de 2013 e neste tumultuado 2015 são inteiramente diversos. Se no segundo semestre de 2013 a presidenta Dilma gozava de respeitável popularidade, mantendo o controle da administração do Estado em suas mãos, hoje a situação é inversa, com os índices de aprovação do executivo marcando os níveis mais rasteiros da era Lula-Dilma, escapando da presidenta o controle da administração estatal, sendo possível afirmar que a mesma está refém de uma circunstância que lhe é infligida por partidos outros que não o seu, pessoas outras que não as de sua confiança, chegando-se ao extremo de haver-se que lutar pela manutenção do mandato legitimamente obtido nas urnas, ante uma hipótese de impeachment forçosamente requisitada não pelas razões de justiça, mas porque a elite nacional, submissa ao capital internacional, com o apoio aberto dos cartéis econômicos de mídia e de setores conservadores do sistema de Justiça assim o querem.

Dessa maneira, diferentemente de outrora, não confundo o governo federal com o Partido dos Trabalhadores. Em 2013, a política econômica da presidenta Dilma, por mais ortodoxa que fosse, se não agradava, pelo menos contemplava a maioria do Partido, habituada a constância de um desenvolvimento que se revertia em benefícios sociais (sobre os quais jamais neguei a relevância), mormente nem de longe resolver os problemas estruturais do Estado. Ou seja, a pauta econômica prestigiava o fortalecimento do capitalismo, mas o governo ladrilhava, até então, uma rota em comum acordo com a indústria nacional, com o capital brasileiro, com a infraestrutura do país, que desafiava a concentração de renda e proporcionava relativo bem estar, nada comparado com agora.

Atualmente, o governo foi tomado de assalto por agentes de wall street pouco ou quase nada sensíveis às metas de crescimento da indústria nacional, de geração de empregos, de melhoria de condições de vida para os brasileiros em geral. O objetivo é contemplar o mercado financeiro, mesmo que isto signifique a subversão da ordem jurídica, a evasão de divisas, a recessão, a derrocada do Estado nacional.

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Para manter a democracia brasileira incólume e garantir sobrevida a uma Constituição que já ultrapassa um quarto de século, a presidenta é forçada a ceder às chantagens do neoliberalismo puro. Não por acaso, as forças majoritárias do PT, endossadas por economistas, juristas, sociólogos e intelectuais diversos do Partido, vêm agora se posicionando criticamente ao viés neoliberalizador do modelo econômico em curso, cuja assimetria indigna até o ex Presidente Lula, fato notório. Vejo, portanto, um esforço do próprio Partido dos Trabalhadores em comprar uma disputa interna de governo, que, por um lado, fortaleça resistência às ofensivas antidemocráticas patrocinadas pela direita nacional e internacional contra o mandato da presidenta Dilma – ao qual jamais abriremos mão, posto que legitimamente conquistado - mas, por outro lado, que eive a política econômica do país das notas financistas que visam tão somente aplacar o mercado à custa do sacrifício social.

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O quadro tormentoso que ora subsiste, extra e intrapartidário, inclusive com defecções que consomem consciências inermes, desde militantes desconhecidos até ex-quadros nacionais do Partido, é, também, momento oportuno para que o PT desinche, depurando-se de ativistas pusilânimes, que não se identificam com os propósitos filosófico-políticos que lhes são inerentes à natureza, o que abre, consequentemente, portas para que o Partido trace novos rumos. Não apenas para que faça as autocríticas que precisam ser feitas, como para que realinhe pensamentos e retome como farol de orientação certos princípios fundantes, que foram relegados ao segundo plano durante a trintenária jornada, como, por exemplo, o compromisso com a luta socialista, o apreço pela permanente formação crítica da militância e pela emancipação plena da classe trabalhadora, e a busca pela conquista do apoio popular através dos melhores exemplos de gestão pública, até ontem considerados competentes, eficientes, justos e éticos.

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Volto para o PT com a expectativa de poder contribuir com este necessário debate: corrigir os desvios internos e recuperar a coerência externa. Sem deixar de emprestar apoio irrestrito à presidenta Dilma, lutar para que o PT retome as rédeas do governo, pondo-se contrariamente às investidas econômicas - ajustes fiscais, como queiram - que eventualmente coloquem em risco os direitos da classe trabalhadora e a qualidade de vida da população necessitada. Retorno para resistir, para engrossar o coro dos que creem que somente com uma postura mais altiva, que recuse as chantagens do mercado financeiro; que enfrente os ataques dos cartéis econômicos de mídia; que se posicione firme na defesa do processo democrático e das bandeiras que valoram a dignidade humana - rechaçando propostas indecorosas da politica mesquinha, refutando com propriedade as disputas ideológicas entre os Poderes, denunciando mundo afora a grande conspiração política que se opera no país - é possível construir um Brasil melhor.

No Ceará, o governo petista estadual põe em marcha um modelo de gestão. Uma gestão que se consolida, a cada dia, pelo despojo de vaidades, pela conduta austera e transparente, e, principalmente, pela aposta no diálogo. Uma gestão cuja autoridade diz o que tem que dizer e faz o que tem que fazer, independentemente de interesses individuais e colorações partidárias, porém, sempre através da escuta, da reflexão conjunta e da ponderação sobre o que é certo, e o que é errado, o que é factível às contas públicas, e o que é incompatível com o decoro. Considero isso um clarão para uma retomada de postura. Quisera o PT consiga, a partir do nosso entorno, reencontrar o caminho do equilíbrio, do crescimento com maturidade e da convicção pelo apego aos princípios mais caros à justiça social e à humanidade. É com essa esperança inebriada de otimismo que retorno ao Partido dos Trabalhadores.

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