Por que te revoltas com teu pai pela separação de tua mãe?

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Querida AqualtuneTobias, de Goiânia, Goiás.

Minha querida jovem, um passarinho pousou aqui na minha única janela, que abre na direção do sol, me contou de tua “revolta” com a separação de teus pais.

Pior, tua ira te jogou nos braços de um juízo que alimenta a tua alienação parental, usada por tua mãe como guerra de desgaste da imagem de teu pai.

Impressiono-me com o fato de seres pessoa culta, que fizeste um bom curso superior numa universidade pública, justo na área das ciências humanas.

Sem te julgar, olhando-te daqui a partir de conversas que travamos pessoalmente noutras situações, de perceber tua inteligência inquieta e questionadora, avalio que justamente tu tens todos os recursos intelectuais e humanos para analisar criticamente essa tomada de decisão de tua mãe e de teu pai.

Nesta análise, esfriados os ânimos do calor da hora, no qual tudo se ofusca e os objetos se confundem, perceberás que o nível de relação é deles e não teu. Isso começou antes de existires, sem a tua participação.

A relação entre a mulher e o homem que separaram não tem as mesmas razões deles contigo. Ela continua sendo tua mãe e ele, teu pai. Esses protagonismos deles em relação a ti e aos demais de tua fraternidade ninguém jamais tirará de vocês, ainda mais que teu encaminhamento existencial e experiência de vida rolam a partir de tuas mãos e decisões.

O teu pai jamais será ex-pai e tua mãe, ex-mãe. Além de tudo, consciente como o és, as muitas conversas com teu pai, que experimenta envolvimento em lutas que a tua mãe não trava e por elas não se motiva, certamente te iluminarão.

Poderias me questionar, com todo o direito, que essa tese do acolhimento do direito que os casais têm direito de se separarem não deveria contar com o meu apoio porque a minha orientação teológica e pastoral apontam para o conceito de que o casamento é sacramento e, por isso, indissolúvel.

Respondo-te que sim e que não. Sim, porque o casamento é sacramento enquanto transparência do amor. Amor não somente do casal um pelo o outro, mas pela vida, pela humanidade, pelos injustiçados e, sobretudo, pelos trabalhadores.

Não há amor absoluto entre duas pessoas numa relação conjugal que se avalie superior às grandes causas libertárias. No momento em que um dos dois, ao invés de caminhar na direção da luta para além do trabalho opressivo pelo sustento do consumo, resvala no terreno empresarial burguês da exploração um do outro, das cobranças estafantes, com patrulhamentos que se movem agressivamente desde a prestação de contas dos minutos de atraso no retorno do trabalho, ao da investigação policialesca de com quem a outra pessoa esteve, com quem conversou, com quando chegará em casa, para se estender sob os olhos controladores, então não há mais um sacramento amoroso, mas uma turbulência institucional desumana e desgastante.

Além disso, há casamentos não construídos pelo ímpeto do amor à vida e à humanidade, mas por engano e por entusiasmo glandular e hormonal momentâneos. Aí não há sacramento, ainda que filhos nasçam.

Há muitos casos, minha querida e sofrida amiga, em que separações respeitosas e consensuais são infinitamente mais sacramentais que o terror de uma relação profundamente desrespeitosa, em cuja mecânica o diálogo se faz insosso e infrutífero. Percebo que é este o caso de teus pais. É preciso respeitá-los e não entrar no jogo movido pelas borrascas atrasadas do inconsciente.

Sobretudo, teus pais pertencem a mais sagrada de todas as classes: ambos são trabalhadores. O teu pai, além de ser conscientemente trabalhador ainda tem sede e fome de justiça, dedicando-se à causa na defesa dos negros, na qual ele acredita. Digo-te que não concordo com essa linha de luta dele, mas o respeito preferindo-o aí a estraçalhado pela alienação. Sei que lá adiante nos encontraremos.

Nessa linha de lutas compartilho contigo uma história real que me tocou muito.

Trata-se de um contexto destruidoramente opressor e terrorista. Nessa história entra um casal e uma família atacada pelo exército imperialista japonês, nas suas ações punitivas contra chineses e coreanos, lá pelos anos da década de 30, que lutavam pela unidade e emancipação de seus países.

As ações punitivas eram desempenhadas por militares que se arrogavam o “direito” de punir com incêndios de casas inteiras e com a morte das famílias que colaboravam com os revolucionários guerrilheiros comandados pelo grande General Kim Il Sung, que derrotou o imperialismo e, juntamente com todo o seu povo, formatou o Estado da República Popular Democrática da Coréia.

O próprio Presidente da República Popular Democrática da Coréia, Kim Il Sung, narra a forte impressão que teve sobre a coragem e consciência ideológica de Kum Sun, cujos pais foram incendiados pela perversidade cruel dos soldados japoneses. Mais tarde Sun, de apenas 9 anos, já plenamente integrada ao exército revolucionário, tinha rosto carregado de dor pela perda dos pais, não por causa de separação burguesa, mas pela morte imposta pelos inimigos do povo.

Já num acampamento guerrilheiro, totalmente consagrada à luta extrema na libertação do povo coreano, Kum Sun soube do milagre da sobrevivência da mãe. Embora com saudade profunda, com necessidade do carinho materno, a guriazinha se negou visitá-la em determinado momento por considerar essa medida um privilégio inaceitável diante do fato de que outras crianças não poderiam ver seus pais por causa da insegurança imposta pelos inimigos. Ela disse entusiasmada: “tio comandante Kim, aconteça o que acontecer não pense em nos fazer regressar à casa”.

Mais tarde, depois de cumprir leal e disciplinadamente uma missão, para a qual mostrara capacidade ideológica e maturidade bem para além de seus 9 anos, Kum Sun, decidiu que poderia ver sua mãe. Porém, seguida pelos soldados japoneses, desde que saíra do acampamento revolucionário, foi capturada.

Os inimigos detinham informações de que a menina poderia delatar a movimentação das tropas guerrilheiras. Corruptos, sabedores da fome e necessidades que os lutadores vivenciavam nas montanhas e vales gelados coreanos, tentaram seduzi-la com pratos e doces gostosos. Deram-lhe roupas quentes, cama confortável e presentes para estimulá-la a delatar. Depois a interrogaram, nada conseguindo dela. Daí “passaram às ameaças e torturas”, narra Kim Il Sung.

“Kum Sun era uma pequena combatente invencível, forjada como aço em meio das tempestades da revolução antijaponesa. Esta filha da Pátria não abriu a boca nem com os golpes que lhe arrancavam pedacinhos de carne. Só o fazia para protestar e para condenar os verdugos.

Um oficial da polícia que a interrogava a ameaçou:

– “se não falas te mataremos”.

Kum Sun replicou:

– “Dás-me asco! Não falarei com um bandido como tu.”

Decididos matá-la pelo “delito” de “…não delatar os segredos do exército revolucionário.

Arrastaram-na até o lugar da execução. Todo o seu corpinho estava sangrando. Os que presenciaram a cena apertaram os dentes e tremeram de indignação. Na campina de Baicaogou correram rios de lágrimas. Aos pais, mães, irmãos e irmãs que expressavam assim a sua dor, Kum Sun lhes disse:

– “queridos pais e mães, por que estão chorando? Não derramem lágrimas. Estou segura de que os tios do exército revolucionário aniquilarão os inimigos. Sigam lutando firmes até a emancipação da Pátria!”

Kum Sun, a quem o comandante Kim Il Sung chamava carinhosa e respeitosamente de “eterna flor” e de borboleta, foi assassinada a tiros com apenas 9 anos, tornou-se mártir do povo coreano e homenageada como a Joana D’Arc da Coreia (verifique na obra Kim Il Sung MEMÓRIAS no Transcurso do Século, vol. 3, Instituto da Amizade Brasil Coreia São Paulo – Brasil, páginas 318 – 342, 1993.)

É esta energia da resistência que tomou conta da vida curta de Kum Sun e de tantos mártires dos povos, que precisa ser retomada, querida AqualtuneTobias.

A luta, enriquecida pela consciência ideológica nos faz fortes diante do que é essencial na vida, como a que a classe trabalhadora, onde se situam a tua mãe e o teu pai, precisa fazer para nossa emancipação libertadora como povo, como classe e como Pátria.

Assim nada nos entristece avassaladoramente nem desanima nem mesmo a morte nos intimida!

Abraços críticos e fraternos,

Dom Orvandil.

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