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Pedro Tancini

Fundador do Coletivo Parêntesis de Teatro

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Por que teatro?

"Como fazer o teatro mais popular?"

Por que teatro? (Foto: Fernando Silva/PCR)

No Brasil, viver de arte não é fácil, e isso não é uma novidade. De teatro? Menos ainda. De teatro que proponha reflexões minimamente críticas? Quase impossível. Artistas com décadas de experiência são obrigados a manter em paralelo trabalhos de publicidade, televisão e em outras áreas para complementar sua renda. Afinal, patrocínios são desafiadores, editais públicos são concorridos. Bilheteria? Só se seu espetáculo contar com algum global ou nome megaconhecido. Conseguiu aprovação de um projeto? Parabéns. Mas e ano que vem? E o próximo? Qual a garantia? Qual a segurança?

Existe a tentação de culpar o povo. Afinal, o nosso povo não tem cultura de ir ao teatro, não valoriza a arte. Isso é verdade, mas só parte dela. Porque cultura tem raízes, forças que atuam historicamente nela. E as forças que atuam por séculos na nossa cultura são as da escravidão, do imperialismo, da hiperexploração do trabalho. Como exigir que uma trabalhadora que sai de casa antes do sol nascer e chegue depois do sol se pôr ainda encontre tempo para teatro? Se ela dá uma chance, provavelmente se decepcionará com alguma obra hermética ou algum clássico empoeirado. É mais fácil a novela. O Youtube. Em forma e conteúdo.

Como fazer o teatro mais popular? Já tem gente muito boa trabalhando nisso. Um pensamento elitista ainda considera que o popular é baixo, apelativo, sem profundidade, e que o entretenimento, por definição, é alienante, não faz pensar. O irônico é que costuma ser o inverso. As produções mais caras, com ingressos inacessíveis, tendem à disneyficação da vida.

Diversão não é o oposto de reflexão. Pelo contrário, a diversão se aprofunda quando ela endereça o nosso sofrimento psíquico, as dores causadas pelo sistema onde vivemos. E o verdadeiramente popular diverte porque endereça a complexidade da realidade (e não apesar disso). Aí está o potencial. Esse teatro é mais poderoso que a Globo, que Hollywood, que a Broadway. A partir dele nos tornamos mais autônomos, ganhamos mais força para existir no mundo e nos aproximar de uma realidade de superação do sistema.

O capitalismo adora quem ama o que faz. É muito mais fácil explorar o trabalho dessa forma. E, assim como é feito com os nossos recursos naturais, o amor pelo teatro também é cercado para ser explorado. Mas é inegável: é ele que move a maioria dos artistas de teatro. E, por isso, merecemos tanto esse dia.

* Pedro Tancini é escritor, dramaturgo e fundador do Coletivo Parêntesis de Teatro. Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo, pesquisa sobre os impactos do capitalismo na arte. É autor dos livros “Teatro à Venda”, “Professores Online” e “Poemas de Plástico”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.