Por que voto em Fernando Haddad e não em Ciro Gomes?

O meu voto vai para Fernando Haddad por uma razão simples de se entender. Eleição não é um plebiscito sobre esquemas de corrupção. O projeto desenvolvimentista de Haddad e do PT me parece a solução mais correta ao Brasil, enquanto Ciro me emitiu sinais confusos

Por que voto em Fernando Haddad e não em Ciro Gomes?
Por que voto em Fernando Haddad e não em Ciro Gomes? (Foto: Cláudio Kbene | Reuters)

Prometi escrever este texto e estou aqui cumprindo a promessa. O texto surge um ano depois de "Por que votarei em Lula e não sou malufista de esquerda", que escrevi para minha coluna de política do Storia Brasil na ocasião, respondendo ao jornalista Marcio Juliboni.

Na época, lembro que o texto foi difícil de ser escrito por uma única condição: quem me conhece sabe que eu era contra Lula ser candidato representando o PT. Para mim, o partido deveria apresentar um quadro novo, propostas novas e deixar para trás o passado que o acompanhou até o momento. É óbvio que, além disso, eu também era contra Jair Bolsonaro se candidatar e muitos outros.

"Entre Lula e Bolsonaro, minha escolha é óbvia. A questão é que Lula me parece mais preparado do que Marina Silva, que só aparece em período eleitoral, e me parece uma opção muito melhor do que João Doria Jr., que está fazendo uma má-gestão assombrosa da cidade de São Paulo, e do que Geraldo Alckmin, governador com traços autoritários", escrevi naquele período.

Lula foi preso, condenado em primeira e em segunda instância. Impedido de concorrer no TSE, ele demorou mas enfim apontou como seu candidato o ex-prefeito Fernando Haddad. Ele é um quadro que considero próspero dentro do partido por mais que ele tenha defeitos diante da derrota avassaladora que sofreu de Doria em 2016 e do antipetismo turbinado pelo impeachment de Dilma.

Considerando isso, surge Ciro Gomes como uma opção a Haddad. De centro-esquerda, ele colocou como vice a ruralista Kátia Abreu, enquanto Fernando Haddad colocou a comunista Manuela D'Ávila. Alianças por alianças, embora Haddad não tenha o peso de Kátia Abreu, ele está cumprindo o jogo de Lula aliando-se com Renan Calheiros, Eunício Oliveira e a bancada do MDB que se rebelou contra Temer.

Nisso, portanto, Ciro e Haddad são iguais.

O meu voto vai para Fernando Haddad por uma razão simples de se entender.

Eleição não é um plebiscito sobre esquemas de corrupção. Corrupção por corrupção, Bolsonaro tem uma acusação pesada de enriquecimento indevido, não é formalmente acusado de coisa alguma e está conquistando com seu discurso proto-nazista uma parcela da população que só se preocupa com a corrupção. Eles querem eleger um ex-capitão que provavelmente é corrupto para combater um mal que não será solucionado.

A corrupção é solucionada por uma calibragem decente no judiciário. Que não pode prender apenas Lula em ano de eleição. Uma Justiça que precisa punir exemplarmente todos os partidos de todas as matizes, com dosimetria correta e direito a recursos, incluindo legendas ligadas à Presidência da República. E há crimes que não devem ser punidos com prisão ou execração pública, como o Ministério Público faz aliado com penas pagas dentro da imprensa.

Dito isso, o projeto desenvolvimentista de Haddad e do PT me parece a solução mais correta ao Brasil, enquanto Ciro me emitiu sinais confusos. Acreditar que apenas um candidato "nem petista e nem antipetista" vai vencer, enquanto o próprio Ciro Gomes conversou com Rodrigo Maia pra ganhar tempo de televisão, me parece ingenuidade demais.

Eu nunca fui formalmente contra o projeto petista de poder. Acredito que ele precise de ajustes. Acho até que uma derrota faria bem ao PT.

Mas não uma derrota para Bolsonaro ou para o antipetismo. Se fosse perder, deveria perder para um projeto melhor de governo.

Enquanto a lógica orbitar em torno do PT e desculpas escusas forem utilizadas numa mecânica de ódio, vocês vão me perdoar, mas muita gente vai votar no partido como protesto contra os que apoiam essas linhas de raciocínio.

A economista Laura Carvalho, que trabalha na campanha de Guilherme Boulos, e o próprio colunista Reinaldo Azevedo alertaram em textos recentes na imprensa: foi o casuísmo jurídico e uma campanha baseada em sentimentalismo odioso que reviveu o PT hoje. O partido poderia ter morrido. Perdendo 60% dos postos eleitorais em 2016, a legenda se reorganizou e fez a lição de casa. Não deve vencer São Paulo no governo estadual, mas deve aumentar sua presença legislativa no Brasil de 2019.

O PSDB encolheu. O MDB vive hoje o seu momento de maior vergonha. As duas legendas do golpe desidrataram para Bolsonaro, um candidato que simula Hitler na Alemanha de 1930.

Ciro Gomes é interessantíssimo, mas eu não consigo ver outros quadros interessantes no PDT na mesma proporção que ele.

Pela conjuntura de fatores, e dentro do projeto de país que acredito, vou de Fernando Haddad.

No segundo turno, óbvio, eu não voto em fascista ou em proto-nazista. Quem estiver contra Bolsonaro ou qualquer projeto autoritário de direita, é meu aliado, não interessa quais divergências a gente tenha.

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