Porta do Alvorada: chega de humilhações

"Se as chefias não mandarem mais repórteres para a porta da residência presidencial, o show vai acabar. Bolsonaro pode parar para cumprimentar seus bajuladores mas não haverá repórteres implorando por um quebra-queixo, do qual pode sair uma matéria mas com frequência sai uma agressão", escreve a jornalista Tereza Cruvinel sobre o ataque de Jair Bolsonaro a jornalistas nesse fim de semana

(Foto: Marcello Casal JrAgência Brasil)

Na sexta-feira Jair Bolsonaro deu uma banana para os repórteres que o esperavam na saída do Alvorada, onde tantas vezes já agrediu e humilhou jornalistas. Uma boa evidência de que ele faz um jogo de manipulação com a imprensa veio hoje, quando não parou para o sinistro quebra-queixo, para não ter que falar sobre a morte do miliciano Adriano da Nóbrega, de notórias relações com ele e sua família,  numa operação que tem toda a pinta de queima de arquivo.

Então, não é por consideração para com a imprensa, que ele detesta, nem pelo dever de prestar informações aos governados, que Bolsonaro para na saída do palácio residencial. Ele para quando lhe convém, quando quer soltar fake-news ou disparar agressões verbais, seja contra os jornalistas, seja contra outras pessoas.

Já é hora de os chefes das redações de Brasília deixarem de expor os repórteres setoristas da presidência ao desrespeito. A cobertura da Presidência da República sempre foi e deve ser feita, por jornalistas credenciados,  no palácio de despachos, o do Planalto, onde o presidente e os ministros da casa trabalham. Ali, e não na porta do palácio residencial,  devem ocorrer, como sempre aconteceu, os briefings do porta-voz e as entrevistas do presidente. Esta é a relação institucional correta que deve ser mantida. Na rua, saindo de casa,  Bolsonaro pode insultar e dar banana e fica por isso mesmo.   Se fizer isso no gabinete ou dentro do Palácio, pode dar motivos para alegações de quebra decoro do cargo.

Nos meus tempos de setorista da Presidência, e nos anos que se seguiram, repórteres davam plantões eventuais na porta do Alvorada. “Estarei de plantão na mangueira”, era como dizíamos em referência à árvore que ali existia e nos dava sombra. Não sei se foi cortada, pois hoje em dia uma barreira policial dificulta a passagem de carros pela porta do Alvorada. Mas o plantão na mangueira só acontecia em ocasiões muito especiais. Por exemplo, quando havia ali uma reunião importante, e era conveniente cercar os visitantes na saída para colher informações. Ali nunca foi lugar de ouvir presidentes no passado. Nem eles se permitiam isso, nem nós nos sujeitávamos a tanto, pois o lugar de trabalho era o comitê de imprensa do Planalto.

Se as chefias não mandarem mais repórteres para a porta da residência presidencial, o show vai acabar. Bolsonaro pode parar para cumprimentar seus bajuladores mas não haverá repórteres implorando por um quebra-queixo, do qual pode sair uma matéria mas com frequência sai uma agressão.

Eles não têm culpa. São quase todos jovens no início de carreira, defendendo seus empregos. Os patrões e as chefias é que deviam dar um basta nas humilhações dos profissionais.

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