Portinari em Beijing: entre a guerra e a paz, o Brasil atravessa o mundo
No Ano Cultural Brasil-China 2026, a chegada da obra de Portinari recoloca uma pergunta urgente: se a humanidade ainda é capaz de construir diante da guerra
Por Iara Vidal em seu Substack - Cândido Portinari está chegando à China. Com ele, desembarca também uma pergunta que atravessa o tempo: o que fazemos, como humanidade, entre a guerra e a paz?
A megaexposição “O Brasil de Portinari” integra a programação do Ano Cultural Brasil-China 2026 e reunirá 50 obras originais do artista, de 9 de junho a 10 de outubro, no Museu Nacional da China, em Beijing. O local não poderia ser mais simbólico: o museu fica na Praça Tiananmen, no coração político e histórico da capital chinesa.
E eu tenho a sorte de estar aqui para ver isso de perto.
O Brasil de Portinari chega ao coração de Beijing
Como quase tudo por aqui, as dimensões impressionam. A expectativa é que cerca de 4 milhões de pessoas visitem a mostra, um público equivalente à população inteira de países como Croácia, Geórgia ou Uruguai. A exposição será realizada em uma das maiores instituições culturais do mundo.
Com cerca de 200 mil metros quadrados de área construída, dezenas de salas expositivas e um acervo superior a 1,4 milhão de itens, o Museu Nacional da China é o espaço onde o país organiza parte central de sua própria narrativa histórica e recebe grandes mostras internacionais. É nesse palco que Portinari chega como embaixador de um Brasil profundo, popular e humanista.
Depois do lançamento, em chinês, de “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, e da overdose de brasilidade que vivi em Shanghai com os shows do Ano Cultural Brasil-China, em especial ao som da guitarrada de Manoel Cordeiro, agora é Portinari que chega à China.
Se Darcy tentou explicar o Brasil em palavras, Portinari fez isso com cores, corpos, rostos e silêncios. Pintou o povo brasileiro em sua dor, sua beleza, sua força e suas contradições.
Mas há uma camada ainda mais simbólica nessa chegada: “Guerra e Paz”, os dois painéis monumentais que o Brasil presenteou à Organização das Nações Unidas (ONU) nos anos 1950.
Quando a guerra deixa de ser abstração
Portinari trabalhou neles entre 1952 e 1956. Estava doente. Os médicos já tinham recomendado que ele se afastasse das tintas, por causa da intoxicação pelo chumbo. Ele não parou. Pintou até o limite do corpo. Morreu em 1962, sem ver os painéis instalados na ONU.
Essa história, sozinha, já bastaria. Mas o que torna “Guerra e Paz” tão poderoso é que Portinari não pintou generais, tanques, bandeiras ou mapas. Pintou gente. Pintou mães, crianças, trabalhadores, corpos atravessados pela dor. E, no painel da paz, pintou a vida possível: brincadeiras, colheitas, danças, infância, comunidade.
Ou seja: ele tirou a guerra do campo abstrato da geopolítica e devolveu ao lugar onde ela realmente acontece: o corpo humano. A guerra não é apenas uma disputa entre Estados. É a criança sem futuro, a mãe em desespero, o trabalhador arrancado da própria vida. E a paz também não aparece como palavra bonita de discurso diplomático. Ela aparece como cotidiano. Como direito de brincar, plantar, dançar, existir sem medo.
Depois de deixarem a sede da ONU em 2010, durante a reforma do edifício das Nações Unidas, os painéis “Guerra e Paz” passaram por restauração e por uma rara circulação pública no Brasil e no exterior.
A jornada começou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em dezembro daquele ano, e permitiu que o grande público visse de perto obras que, desde 1957, ficavam no espaço reservado aos delegados da ONU.
Reinstalados em Nova York em dezembro de 2014, os painéis permaneceram cobertos até 8 de setembro de 2015, quando foram oficialmente revelados novamente em cerimônia com Ban Ki-moon.
A arte como chamada à ação
Quando os painéis foram reinstalados na sede da ONU, em 2015, Ban Ki-moon resumiu isso de forma precisa. Disse que “Guerra e Paz” eram mais do que obras magníficas: eram o chamado de Portinari à ação. Segundo ele, todos os líderes que entram nas Nações Unidas se deparam, por meio da obra, com o custo terrível da guerra e com o sonho universal da paz.
Gosto muito dessa ideia: a arte como chamada à ação. Não como enfeite de salão, não como ornamento diplomático, não como peça bonita para suavizar corredores de poder. Mas como incômodo. Como lembrete. Como pergunta pendurada diante de quem decide o destino dos outros.
E talvez seja por isso que Portinari faça tanto sentido agora.
A paz como urgência em 2026
Em 2026, falar de paz não é exercício retórico. É urgência. Lula tem repetido isso de forma direta. Em março, na Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe, ele criticou a corrida armamentista e rejeitou aquela velha máxima de que “quem quer paz se prepara para a guerra”. Para ele, é o contrário: “Nós queremos paz porque a paz é a única possibilidade de fazer com que a humanidade avance.”
Poucas semanas depois, na Alemanha, Lula afirmou que a prevalência da força sobre o direito é a maior ameaça à paz e à segurança internacional. Também criticou a paralisia da ONU diante das guerras, dizendo que, entre os que provocam conflitos e os que se calam, a organização volta a parecer imobilizada.
Do lado chinês, Xi Jinping também tem colocado a estabilidade e a paz no centro de sua linguagem diplomática. Na mensagem de Ano Novo para 2026, ele afirmou que algumas regiões ainda estão mergulhadas em guerra e que a China está pronta para trabalhar com outros países pela paz, pelo desenvolvimento mundial e por uma comunidade com futuro compartilhado para a humanidade.
Em maio, no encontro com Donald Trump em Beijing, Xi formulou a questão em termos de responsabilidade entre grandes potências: seria possível enfrentar juntos os desafios globais e oferecer mais estabilidade ao mundo? A pergunta, feita no Grande Palácio do Povo, parece ecoar justamente a tensão que Portinari pintou: a humanidade sempre de novo diante da escolha entre repetir a lógica da guerra ou insistir na construção da paz.
Entre Lula, Xi e a pergunta de Portinari
Não quero forçar aproximações fáceis. Portinari não pintou para ilustrar discursos de Estado. A grandeza dele está justamente em ir além disso. Mas é impossível olhar para “Guerra e Paz”, em 2026, sem perceber que aqueles painéis continuam falando conosco.
Eles falam com a ONU paralisada. Falam com um mundo em reordenação. Falam com o Brasil de Lula, que tenta recolocar a paz como política externa. Falam com a China de Xi, que apresenta estabilidade, desenvolvimento e coexistência como linguagem de sua diplomacia. Falam, sobretudo, com qualquer pessoa que ainda consiga se comover diante de uma criança pintada por Portinari.
Um Brasil ferido, popular e esperançoso
No fim, talvez seja isso que mais me emocione: ver o Brasil atravessar o mundo não como clichê, mas como memória, arte e humanidade. Portinari chega à China levando um Brasil profundo, popular, ferido e esperançoso. Um Brasil que conhece a desigualdade, a fome, o trabalho duro e a infância interrompida, mas que também conhece a festa, a ternura, a resistência e a beleza.
“Guerra e Paz” talvez seja a síntese mais radical de Portinari: a denúncia daquilo que destrói a humanidade e a afirmação daquilo que ainda pode salvá-la.
E ver essa obra ecoar agora, daqui de Beijing, em pleno Ano Cultural Brasil-China, tem uma força simbólica enorme. Porque a paz, como a arte, também precisa atravessar fronteiras.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

