Portugal vale uma festa – sem ressaca

"Os socialistas tiveram uma vitória importantíssima", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia. "Mas a abstenção recorde mostra que uma parcela da população se sente abandonada"

António Costa comemora vitória na eleição de Portugal
António Costa comemora vitória na eleição de Portugal (Foto: REUTERS/Rafael Marchante)

Num continente assaltado por movimentos conservadores e até fascistas, a vitória dos socialistas em Portugal merece ser festejada. Num dos primeiros países a enfrentar o ajuste da Troika que domina a política economica européia desde a crise mundial de 2008,  a vantagem maiúscula do PS sobre o PDS, principal partido da direita portuguesa, representa um voto claro a favor da resistência aos programas de austeridade e quebra de direitos.  

Os portugueses também enviaram um sinal importante ao PS, porém. Na maior abstenção da história do país, de cada 100 eleitores, 45 simplesmente se recusaram a comparecer às urnas. Em resumo: se  o PS  conseguiu uma vitória indiscutível, com 36,6% dos votos, não foi capaz de receber o apoio da maioria absoluta dos eleitores. Na pura matemática, a principal opção eleitoral dos portugueses e portuguesas, ontem, foi a abstenção. Esse fato ilustra um resultado eleitoral com mais nuances do que se pode imaginar.

Embora a coalizão chamada "Geringonça" tenha recebido uma inegável aprovação nas urnas,  a abstenção-recorde sinaliza um ambiente de frustração e descontentamento de uma parcela do eleitorado,  inclusive camadas que por tradição e necessidade destinam seu voto à esquerda -- e que no domingo passado nem saíram de casa.

Uma reportagem anterior de Mickael Correa, publicada pelo Monde Diplomatique (edição 146, setembro de 2019), ajuda a entender as ambiguidades desta situação.

Desde 2015, quando os socialistas chegaram ao governo, foram tomadas medidas importantes para a recuperação do país. O salário mínimo se valorizou -- subiu de 485 euros para 600 euros em 2019 --, o crescimento da economia atingiu o melhor nível em mais de uma década e o desemprego caiu de 12% para 6,3%.

São avanços inegáveis, mas que não foram acompanhados de medidas sociais correspondentes.

"A drástica queda do desemprego mascara, na verdade, os empregos de baixa remuneração e baixa qualificação", escreve Mickael Correa, sugerindo que o país está sendo transformado num reservatório de mão de obra barata. "Na linha de frente estão os jovens: 65% estão empregados em regime temporario, 10 pontos há mais do que há uma década".

Na vida social, um bom exemplo é o da moradia, que enfrenta um retrocesso alarmante. Durante o governo PDS, uma das exigências da Troika para liberar um empréstimo de 78 bilhões de euros consistiu na desregulamentação do mercado imobiliário. A medida transformou Portugal num paraíso de especuladores do mercado financeiro e turistas aptos a passar uma temporada no país.

Após um aumento de 3.000% no preço  do aluguel turístico, Lisboa tornou-se a capital europeia com maior número de residências Airbnb por habitante. A contrapartida são despejos em massa, inclusive com apoio policial, que transformaram a defesa da moradia popular numa causa cada vez mais relevante no país.

O leitor que teve boa vontade para chegar até este parágrafo, já percebeu que aqui se descreve -- de modo rudimentar  -- uma história semelhante à de diversos governos  comprometidos com interesses dos trabalhadores e da maioria da população, em muitos países do mundo. Sabemos o fim desse filme, que pode ser resumido assim.

Ou o governo reeleito ontem se empenha em reconstruir as esperanças de uma imensa parcela de homens e mulheres que desta vez não se animaram a tomar o caminho das urnas no domingo. Ou o desânimo pode se transformar em desalento e, quem sabe, raiva. Aí, não haverá muito para se fazer.

Alguma dúvida?  

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