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João Antonio da Silva Filho

Mestre em Filosofia do Direito, Doutor em Direito Público e conselheiro do Tribunal de Contas do município de São Paulo

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Pós-verdade, democracia e o julgamento da política

Em tempos de pós-verdade, a democracia exige confrontar narrativas com fatos e compromisso real com justiça social

Pós-verdade, democracia e o julgamento da política (Foto: Brasil 247)
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Na filosofia, o certo e o errado representam juízos de valor formulados a partir de fatos, ideias ou atitudes. Em grande medida, é o ponto de vista do observador que condiciona sua interpretação da realidade e influencia a percepção do que lhe parece correto ou equivocado. Pode-se afirmar, portanto, que o certo e o errado são frequentemente mediados pelas circunstâncias históricas, culturais e sociais em que os indivíduos estão inseridos.

Fico a pensar: se o ponto de onde parte o olhar do observador é elemento fundamental para definir a sua visão de mundo, e se essa visão orienta a precisão — ou os limites — de sua análise, então a própria história também se constrói a partir de diferentes pontos de vista, ou mesmo da convergência entre múltiplas perspectivas. Nesse sentido, as narrativas exercem papel decisivo na construção histórica. Em outros termos: os fatos acabam sendo interpretados e relativizados pelas narrativas que os cercam; e, quando determinadas narrativas passam a ser compartilhadas por uma maioria, frequentemente assumem a condição de verdade socialmente aceita.

Vivemos, assim, tempos marcados pela chamada pós-verdade — fenômeno social em que fatos objetivos perdem força diante de apelos emocionais, crenças pessoais e percepções subjetivas. Nesse contexto, a emoção frequentemente se sobrepõe à razão, e a narrativa passa a importar mais do que a própria veracidade dos acontecimentos. O grande risco desse processo é transformar a política em um espaço onde a persuasão emocional substitui o compromisso com a verdade, fragilizando o debate público e tensionando os próprios fundamentos da democracia.

A pergunta inquietante que emerge desse cenário é a seguinte: como distinguir o certo do errado em um ambiente político profundamente polarizado? Talvez exista apenas um critério minimamente seguro para essa verificação: o compromisso real — não apenas retórico, mas demonstrado por gestos concretos — com os interesses coletivos. É preciso perguntar, permanentemente, se a condução do Estado está comprometida com as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo da história, com a preservação dos direitos fundamentais e com a implementação de políticas públicas capazes de ampliar a cidadania e reduzir desigualdades. Ou, ao contrário, se o poder político encontra-se capturado por interesses meramente patrimonialistas, subordinado às conveniências de elites econômicas incapazes de enxergar o bem comum para além de seus próprios privilégios.

O certo e o errado na política estão, portanto, diretamente relacionados aos objetivos finalísticos de cada projeto de poder. Em tempos de pós-verdade, nos quais o mercado dos algoritmos impulsiona a proliferação de versões e narrativas fragmentadas da realidade, descobrir a verdadeira intenção do proponente torna-se elemento decisivo para a busca da verdade política. Já não basta confiar apenas no discurso ou na habilidade retórica dos líderes. É necessário desenvolver critérios objetivos de verificação, capazes de confrontar palavras com práticas concretas, promessas com resultados efetivos e narrativas com a realidade social. Afinal, sem mecanismos críticos de discernimento, a sociedade torna-se vulnerável à manipulação, à desinformação e às sofisticadas formas contemporâneas de enganação coletiva.

Dois ditados populares ilustram bem a necessidade dessa permanente verificação entre o certo e o errado: “o papel aceita tudo” e “mais vale um gesto do que dezenas de palavras”. Há profunda sabedoria nessas expressões. Um texto escrito pode transformar-se em mera retórica ou simples carta de intenções desprovida de compromisso concreto. Da mesma forma, palavras são apenas sons lançados ao vento quando não encontram correspondência nas atitudes. Gestos, ao contrário, revelam intenções, desnudam propósitos e tornam visível aquilo que o discurso muitas vezes tenta ocultar. Por isso, em tempos de escolhas decisivas sobre os rumos da sociedade, é indispensável cautela nas conclusões. Mais do que ouvir promessas, é preciso observar práticas; mais do que aderir a narrativas, é necessário examinar coerências; mais do que acreditar em discursos emocionais, é fundamental verificar, concretamente, a serviço de quem o poder está sendo exercido.

E é exatamente isso que está em jogo em todo processo eleitoral. A pergunta decisiva que a sociedade brasileira precisa fazer é simples, mas profundamente reveladora: a quem desejamos que o Estado brasileiro sirva? A Constituição Federal de 1988 oferece uma resposta clara por meio de seu artigo 3º, ao estabelecer como objetivos fundamentais da República a construção de uma sociedade livre, justa e solidária; a garantia do desenvolvimento nacional; a erradicação da pobreza e da marginalização; a redução das desigualdades sociais e regionais; e a promoção do bem de todos, sem preconceitos ou quaisquer formas de discriminação. Em essência, a Constituição de 1988 não concebe o Estado como instrumento de privilégios, mas como mecanismo de realização da dignidade humana, de promoção da cidadania e de concretização da justiça social.

À luz do artigo 3º da Constituição da República, para não serem enganados, brasileiros e brasileiras precisam apenas formular uma indagação objetiva: dentre os diferentes projetos políticos que estiveram — ou estão — à frente da condução do Estado brasileiro, quais mais contribuíram, concretamente, para a realização dos objetivos constitucionais? Quais políticas públicas efetivamente ampliaram a inclusão social? Quais reduziram desigualdades? Quais promoveram maior acesso à cidadania, à educação, à saúde, à renda e à dignidade humana?

Se é a verificação concreta dos fatos que aproxima a sociedade da verdade — e, consequentemente, daquilo que é correto —, então o julgamento político não pode se limitar a discursos inflamados, slogans emocionais ou guerras de versões produzidas nas redes sociais. A história de um governo se mede pelos efeitos reais produzidos na vida do povo. O critério decisivo não deve ser o volume da propaganda, mas a profundidade das transformações sociais realizadas.

No fim, a democracia exige mais do que paixão política: exige memória, discernimento crítico e compromisso com a verdade concreta dos fatos. Sociedades que perdem a capacidade de comparar narrativas com resultados tornam-se presas fáceis da manipulação. Por isso, diante das escolhas que definirão os rumos do país, talvez a pergunta mais honesta e necessária seja esta: quem, de fato, governou para ampliar direitos, reduzir desigualdades e aproximar o Brasil do projeto civilizatório desenhado pela Constituição de 1988? É na resposta sincera a essa pergunta — e não na força das narrativas — que reside a possibilidade de uma escolha política verdadeiramente consciente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.