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Marcelo Zero

É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e assessor da liderança do PT no Senado

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Possíveis desdobramentos internacionais da CPMI do 8 de Janeiro

O colunista Marcelo Zero alerta para uma 'possível articulação internacional contra a democracia do Brasil'

Atos terroristas de bolsonaristas contra as sedes dos Três Poderes, em Brasília - 08.01.2023 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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O 8 de janeiro de 2023 não foi, como se diz popularmente, uma jabuticaba. 

Tanto em seus aspectos estratégicos como operacionais o atentado contra a democracia brasileira inspirou-se claramente na invasão do Capitólio norte-americano, ocorrida em 6 de janeiro de 2021.

Assim como aconteceu no 6 janeiro dos EUA, o 8 de janeiro do Brasil foi preparado com bastante antecedência, mediante a tentativa de deslegitimar o sistema eleitoral e as instituições democráticas de um modo geral. 

Lá como cá, abusou-se de fake news, de terraplanismo epistemológico e de discurso de ódio para sabotar o pleito democrático e instigar a tomada do poder por “patriotas”, indignados com o suposto “roubo” eleitoral e com o complô do “marxismo cultural” contra os valores da “família” e do “Ocidente”.

Trumpistas e bolsonaristas revelaram, em um e outro caso, não ter compromisso algum com os fatos e com a democracia. E o modus operandi do 8 de janeiro brasileiro foi inteiramente copiado do 6 de janeiro norte-americano. 

O libretto da ópera-bufa foi idêntico. Só mudou a trilha sonora. 

Não por acaso, é evidente.

É fato amplamente conhecido que Bolsonaro et caterva tinham e têm uma relação de total subalternidade política e ideológica com a extrema-direita dos EUA, em especial com Trump. Bolsonaro, que batia continência para a bandeira norte-americana, chegou até a declarar seu amor por aquele que tentou jogar na lama de um golpismo bananeiro uma das mais sólidas democracias do mundo.

Outro fato conhecido é que o governo Bolsonaro foi um dos últimos governos a reconhecer a vitória de Biden, coisa que só foi feita, a contragosto, em meados de dezembro de 2020, e só depois da votação no Colégio Eleitoral.

Também é realidade incontestável que Eduardo Bolsonaro estava em Washington nos idos da invasão do Capitólio, com a justificativa de fazer uma “visita surpresa” à Casa Branca, a convite de Ivanka Trump. O timing da visita de cortesia foi, portanto, politicamente impecável. E a surpresa pode não ter sido tão surpreendente. Coincidências, por vezes, não são apenas coincidências.

Outro fato, não desmentido pelos envolvidos, é que o Deputado Eduardo Bolsonaro se reuniu e conversou com Michael Lindell, doador da campanha de Trump e um dos principais artífices da invasão e agressão ao Congresso dos EUA.

Em denúncia veiculada no site Proof, de jornalismo investigativo dos EUA, o jornalista Seth Abramson, formado no Dartmouth College e em Harvard, duas das melhores universidades dos EUA e do mundo, informou que o Deputado Eduardo Bolsonaro, em seu périplo cortês, teria participado de reunião que definiu a estratégia para tentar impedir o reconhecimento da vitória de Biden pelo Congresso, a qual resultou na invasão do Capitólio. 

Hipótese possível, sustentada nas conhecidas “ligações perigosas”. 

De igual maneira, é razoável supor que a extrema-direita mundial e norte-americana, muito bem articulada por figuras notórias como Steve Bannon, tenha tido algum grau de participação no 8 de janeiro do Brasil. 

Indícios não faltam.

Com efeito, logo após a derrota de Bolsonaro no segundo turno, conhecidos apologistas da extrema-direita dos EUA começaram a divulgar furiosamente, em suas redes, que Jair Bolsonaro havia sido vítima de uma grande fraude eleitoral e que a vitória de Lula não deveria ser reconhecida por ninguém. 

Um desses foi Alex Jones, condenado recentemente a pagar cerca de US$1,5 bilhão por propagar descaradamente a falsa notícia de que o massacre da escola de Sandy Hook fora apenas uma “encenação” para fazer propaganda contra o uso de armas, o que causou danos gigantescos aos parentes das vítimas. 

Jones, que já se reuniu com membros da família Bolsonaro, chegou a afirmar, na época, que Bolsonaro havia ganhado as eleições por pelo menos 20 pontos sobre o segundo colocado, e que o presidente deveria acionar os militares para evitar a tomada “comunista” do poder. Em seus vídeos, supostos “traficantes” comemoravam a vitória de Lula. 

Outra figura proeminente nessa história toda foi Steve Bannon.

Logo após o primeiro turno das eleições brasileiras, Bannon passou a divulgar que as eleições no Brasil eram fraudadas e que a coisa toda “cheirava mal”, insinuando existir uma grande conspiração para afastar Bolsonaro. 

Depois das eleições, Bannon promoveu a hashtag “BrazilianSpring” (Primavera Brasileira) comparando os golpistas com os que se insurgiram contra os regimes autoritários do mundo árabe.

No dia seguinte ao 8 de janeiro, Bannon afirmou, em sua rede Gettr, que "Lula roubou a eleição... os brasileiros sabem disso". Afirmou também que os vândalos eram “combatentes da liberdade”. 

Por sua vez, Ali Alexander, um dos líderes do movimento pró-Trump Stop the Steal, insuflou os golpistas, ao escrever, em suas redes: "Façam o que for necessário!", autorizou ele. Alegava ter muitos contatos no Brasil.

Ali Alexander também afirmou que o STF brasileiro era “a parte mais corrupta do Brasil”. 

Pois bem, esse apoio da extrema-direita norte-americana à tentativa de golpe no Brasil pode ter ultrapassado o terreno da retórica de ódio e da divulgação estrondosa de fake news, o que, por si só, configura crime e uma tentativa evidente de interferir nos assuntos internos de outro país. 

Em novembro de 2022, Eduardo Bolsonaro esteve em Mar-a-Lago, a mansão de Trump na Flórida. Segundo o The Washington Post, o filho de Bolsonaro teria se reunido com Trump, Bannon e Jason Miller, assessor de Trump na época de sua presidência.  Um convescote inquietante.

Novamente, o filho do presidente Bolsonaro, habitué de Mar-a-Lago, exibiu um timing político impecável para uma mera visita de cortesia.

É possível que a conversa tenha tido um caráter inteiramente republicano (sem trocadilho) e democrático. Milagres ocorrem. É possível que tenham conversado sobre baseball e hambúrgueres. 

Mas é possível também que tenham discutido e articulado as estratégias que desembocaram no 8 de janeiro. Talvez até provável. Foi o que informou o The Washington Post. Conforme esse sisudo jornal, Eduardo Bolsonaro foi aconselhado, na ocasião, a contestar o resultado legítimo das eleições. Talvez otras cositas más.

Deve-se levar em consideração que, após a derrota de Trump, o Brasil de Bolsonaro tinha se convertido no grande bastião mundial da extrema-direita. Era imperioso, portanto, mantê-lo longe das garras ideológicas do “marxismo cultural” e dos perigos geográficos da Terra redonda. 

A CMPI do 8 de janeiro deveria, por conseguinte, se debruçar sobre esse tema da possível articulação internacional contra a democracia do Brasil. 

Lembramos, a esse respeito, que a Corte Internacional de Justiça, no “Caso Relativo às Atividades Militares e Paramilitares na e contra a Nicarágua” (Nicarágua vs. Estados Unidos), decidiu, em 1986, que:

“O princípio da não intervenção envolve o direito de todo Estado soberano de conduzir seus negócios sem interferência externa. [...]

A Corte define os elementos constitutivos que parecem relevantes neste caso: uma proibição à intervenção deve incidir sobre questões em que a cada Estado lhe é permitido, pelo princípio da soberania estatal, decidir livremente (por exemplo, a escolha de uma política econômica ou a formulação da política externa- poderíamos acrescentar: eleger seus governantes). A intervenção é ilícita quando utiliza, em relação a tais escolhas, métodos de coerção, particularmente pela força, seja na forma direta de ação militar ou na forma indireta de apoio a atividades subversivas em outro Estado.” 

Assim, tal investigação seria algo importante para a democracia brasileira e para a democracia norte-americana. Também seria um trabalho útil para todas as democracias do mundo, hoje fragilizadas pelas ações de forças políticas neofascistas e profundamente antidemocráticas.

Afinal, defender uma democracia é defender todas as democracias.

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