Povo da Argélia vai às ruas em massa e faz governo renunciar

A Argélia, assim como o Brasil, tem a vocação de definir o rumo de um continente. Durante várias décadas sua diplomacia foi um verdadeiro esteio do terceiro-mundismo, não só no continente africano, mas igualmente no Oriente Médio

Povo da Argélia vai às ruas em massa e faz governo renunciar
Povo da Argélia vai às ruas em massa e faz governo renunciar

Até alguns meses atrás os argelinos se sentiam impotentes, chegavam a definir seu país como uma prisão a céu aberto e não viam solução para o que eles definiam como o "sistema" que tinha se apoderado do país. O "sistema" era a posse dos recursos públicos em benefício de alguns poucos oportunistas em torno de um presidente doente. A máfia político-econômica que governava a Argélia há quase 20 anos, sentia-se imbatível, eterna, e preparava-se para mais um mandato....Mas o povo não quis assim.

Foi suficiente uma faísca

Para incendiar os corações da população já cansada de sofrer. Desde 22 de fevereiro, todas as sextas-feiras, mais de dez milhões de argelinos desceram às ruas, em todo país, para pedir a renuncia do presidente. Um chamado nas redes, provavelmente iniciativa de estudantes, deu o start desse movimento. A sexta-feira, dia santo dos muçulmanos, dia em que os homens saem para rezar e as mulheres ficam em casa, dia em que as ruas de Argel se esvaziam e os comércios fecham, tornou-se de repente o dia símbolo da revolta de toda uma nação.

As ruas foram tomadas pelas mulheres

Que na sua condição de estudantes, funcionárias ou simples donas de casa deram o tom pacífico, mas extremamente engajado do movimento. Muitas delas, o véu tradicional (Hayk) cobrindo jeans e tênis, gritavam palavras de ordem levando uma bandeira na mão. Isso não é novidade. Na Argélia as mulheres participaram ativamente da guerra de independência. Zohra Drif e Djamilha Bouhired, revolucionárias da guerra de libertação, foram as únicas figuras aplaudidas nessas manifestações. Como nos coletes amarelos na França, a política tradicional não deixa saudades. O que se quer é renovação. Mas não no sentido niilista em que ela se fez no Brasil. Renovação no bom sentido, no resgate dos valores nacionalistas e anti-imperialistas que moldaram a independência.

Vencendo o medo

Há mais de vinte anos que já acabara a guerra civil entre islamistas e o Estado argelino, mas o povo ainda vivia com medo. Afinal o que eles chamam de "década de trevas" ou "década negra" deixara cicatrizes profundas na sociedade. Mais de 150.000 mortos, milhares de feridos e exilados. O país sangrara com o extermínio de vilarejos inteiros pelos islamistas, com o assassinato de seus melhores intelectuais, artistas, jornalistas e homens de teatro. Não se saía de casa na época com a certeza de poder retornar com vida. Desde então, o poder se valia deste espantalho para paralisar qualquer oposição. Tudo, menos retornar àqueles tenebrosos tempos, pensava a maioria da população. Daí inclusive a pouquíssima penetração da primavera árabe na Argélia.

Uma revolução pacífica

"Senhor presidente, pedimos gentilmente que o senhor se retire", lia-se em muitas faixas de protesto na Argélia. Nunca uma revolução foi tão pacífica e cidadã. Seu sucesso se deve à maré humana que invadiu as ruas do país, de norte a sul. Na sexta-feira, dia 8 de março, dia da mulher, dois milhões de manifestantes foram contados em Argel. Entre 14 e 16 milhões em todo o território nacional. Todo um povo nas ruas, unido e solidário. Durante a semana, estudantes do ensino médio, universitários, advogados e funcionários do sistema de saúde, fusionavam com as categorias em greve. Nas sextas-feiras, o encontro de todos os cidadãos nas ruas. Das sacadas, todas decoradas com bandeiras da Argélia, os moradores distribuíam água aos manifestantes e os apoiavam com palavras de ordem. Ao final do dia, brigadas de voluntários limpavam as ruas nos bairros.

E o Brasil com isso?

A Argélia, assim como o Brasil, tem a vocação de definir o rumo de um continente. Durante várias décadas sua diplomacia foi um verdadeiro esteio do terceiro-mundismo, não só no continente africano, mas igualmente no Oriente Médio. Com a presente revolução, o país se reconecta com sua veia independentista e igualitária. A resistência sempre definiu o povo argelino. O Brasil, por sua vez, possui longa história de luta popular. Nossas frentes de oposição, desde os anos 30 do século XX, se fizeram presentes na definição e condução de políticas de resistência ao imperialismo. Assim como a Argélia está vivendo sua segunda independência, está na hora do Brasil resgatar sua história de luta e recuperar sua dignidade. Nós podemos, não estamos mortos.

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