Povos conectados, podem ser povos mais seguros

Internet nas comunidades visa ajudar na denúncia de crimes ambientais, preservar e divulgar sua cultura, defender seus direitos, mostrar suas condições de vida

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(Foto: Pixabay)


Luciano Cerqueira [1]

Em março deste ano, o Instituto Nupef [2] promoveu dois encontros na comunidade Boa Esperança do Orcaisa, em Codó, no Maranhão. Localizada em área de difícil acesso, vivem hoje nessa comunidade aproximadamente 50 pessoas. São famílias descendentes de quilombolas que ainda lutam pelo reconhecimento do seu direito à terra, e que ganharam recentemente um aliado a nesta luta: o acesso à Internet. O objetivo da visita era saber como a comunidade avaliava a rede implementada pelo Instituto em 2021 e (re)apresentar o Graúna Comunitário, servidor portátil com conteúdos de interesse público [3] que funciona off-line. O encontro contou com, aproximadamente, 15 pessoas e teve predominância feminina e jovem. As oficinas foram divididas em duas partes: no primeiro dia conversamos sobre a qualidade do serviço que estava sendo oferecido, e no segundo reapresentamos o Graúna Comunitário.

Na comunidade, ficou claro que “informática” não é coisa de menino. Lá, são as meninas que atuam como as principais parceiras do projeto, atendendo as pessoas que utilizam a rede, mas que ainda não conseguem trocar uma senha; ensinando a utilizar sites de busca; utilizar uma rede social entre outras coisas. São elas, também, que são responsáveis por pequenos reparos na rede e pela arrecadação do dinheiro para pagar a mensalidade do link de Internet. [4]

Mesmo com o pouco tempo de funcionamento, as pessoas que passaram pela reunião foram unânimes em afirmar que o serviço prestado estava ótimo. Fizeram questão de frisar que mesmo quando chovia forte, o serviço funciona bem. Mas, ainda que satisfeitos, acreditam que o serviço pode melhorar.

A rede tem sido utilizada para diversas finalidades na comunidade. Muitas pessoas disseram que graças à Internet tem sido possível conversar com parentes que moram muito distante; outras pessoas estão conseguindo resolver antigos problemas (como envio de documentos, por exemplo), sem ter de se deslocar até a cidade mais próxima etc. Um exemplo disso, foi um integrante da associação de moradores que nos relatou que pediu às autoridades locais um trator para tapar os buracos da estrada (o que é realmente necessário, pois o carro da nossa equipe ficou atolado no segundo dia de viagem), e que esse pedido foi feito por uma rede social. Se não fosse isso, teria de ter ido até a cidade para tentar resolver. A cidade em questão, fica a quarenta minutos de comunidade e não existe transporte público para esse deslocamento.

Não pára por aí! Foi relatado também por duas participantes, que as irmãs estudantes utilizam a internet para fazer pesquisas para escola. Uma senhora relatou que agora utiliza a internet para encontrar receitas, e os jovens – em sua maioria – utilizam para acessar as redes sociais. Uma das falas mais interessantes veio de uma das responsáveis pela manutenção da rede na comunidade. Ela ressaltou que, antes, para chamar alguém de outra casa para alguma coisa, era preciso ficar aos berros. Agora, ela manda uma mensagem. Fez questão de dizer: “acabou o grito”.

Se a adoção do uso da Internet nos deixou entusiasmados, o nível de apropriação do Graúna Comunitário nos deixou preocupados. Ouvimos que poucas pessoas na comunidade tinham utilizado a plataforma, e relataram que isso se devia (em grande parte) ao fato de terem tido pouco tempo para conhecer a ferramenta quando o projeto de redes foi montado. Em suma, disseram que não entendiam bem o que aquilo oferecia.

Quando fizemos a explicação mais detalhada da ferramenta, todas as pessoas conseguiram entrar pelos seus celulares, fazer os testes e assistir a alguns vídeos. Após nossa apresentação, as pessoas entenderam que tipo de ajuda poderiam ter com o  conteúdo do Graúna. As moradoras que possuem irmãs nas escolas, gostaram da ideia de fazer pesquisa sem ter de utilizar o pacote de dados. Mas nossa intenção com o Graúna Comunitário não era só fazer com que as pessoas pudessem usar melhor o seu conteúdo (diversos textos e vídeos sobre direitos humanos, associativismo, agroecologia, discriminação racial, etc., produzidos por diversas organizações e selecionados pela equipe do Nupef), queríamos também que elas nos indicassem conteúdos para serem incluídos na plataforma. Esse é outro diferencial do Graúna: é uma plataforma que está em constante transformação, sempre sendo atualizado com materiais sugeridos pelas pessoas que o utilizam. 

A Internet já está fazendo diferença na comunidade, mas ainda existem problemas. Andando pela comunidade, foi possível observar que as queixas sobre a qualidade das redes estavam concentradas nos seus extremos, e que os roteadores já não estavam cobrindo toda comunidade. Pelo que foi dito, parte do problema poderia ter sido evitado se algumas árvores fossem podadas, mas alguns moradores não autorizaram. Outro problema que a comunidade enfrenta é o pagamento. A Internet tem um preço fixo para comunidade, quanto mais pessoas usarem mais barato fica o serviço. Algumas pessoas têm se utilizado do serviço (em determinados horários a rede apresentou problemas e ficou aberta) sem contribuir com as despesas mensais, e isso tem dificultado a arrecadação do dinheiro.

O Nupef não vai parar por aqui. Fomos conhecer os erros e acertos deste projeto para avançar, e não para retroceder. Neste ano teremos um novo projeto, dessa vez serão criadas 05 redes (em comunidades quilombolas) no Estado do Maranhão e do Piauí. O projeto tem como principal objetivo levar a estas comunidades um programa de formação para aumentar a resiliência dos movimentos (por meio de novas redes de Internet), melhorar a infraestrutura de redes existentes e acelera o processo de compartilhamento de conhecimentos para atuação no campo de comunicação e direitos humanos. Para algumas destas atividades, o Nupef vai trabalhar em parceria com outras organizações do terceiro setor.

Algumas mudanças já foram pensadas para essa nova fase. Haverá a formação de jovens bolsistas que vão ser os responsáveis pelas redes locais, para que no futuro possam desenvolver estas redes em comunidades próximas. Também serão promovidos debates [5] sobre políticas de comunicação, o direito à comunicação e direitos digitais. Parcerias, construção conjunta com a Conaq e as comunidades, essas serão as bases da nova fase do projeto de redes.

Mais do que levar a possibilidade de entretenimento e educação a estas comunidades, queremos ajudá-las a se preparar para a luta. Hoje estes grupos estão presenciando uma onda de ataques sem precedentes, e as mais recentes vítimas desta guerra foram Bruno Pereira e Dom Phillips.

Até hoje, muitas pessoas acreditam que as comunidades quilombolas (e também as indígenas) precisam estar completamente isoladas para manter sua identidade, seu direito ancestral à terra, etc. Essa é uma ideia errada, acreditam que essas comunidades precisam viver todas da mesma forma, sem contato algum com as áreas urbanas e sem pensamento, sempre nos referimos a esses povos no passado, sendo que eles vivem também no presente e são parte do nosso futuro.

Hoje a Internet nestas comunidades visa ajudar na denúncia de crimes ambientais, preservar e divulgar sua cultura, defender seus direitos, mostrar suas condições de vida. Para que isso aconteça, o Nupef (junto com outras organizações) pretende ajudar o maior número possível de jovens (e adultos) a utilizar as diversas ferramentas que uma rede conectada à Internet possui: filmar e postar vídeos com sua cultura nas redes sociais; usar a geolocalização para monitorar seu território; denunciar invasões e desmatamento e outros crimes ambientais.

Achamos que o projeto pode trazer novos parceiros de luta, conhecimentos, entretenimento, etc., mas queremos mesmo é que o trabalho que desenvolvemos aproxime estes povos dos seus direitos.

[1] Doutor em Políticas Públicas, pesquisador associado do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e consultor do Instituto Nupef. 

[2] https://nupef.org.br/pagina-inicial/pagina-inicial

[3] A plataforma Graúna Comunitário é composta por: nextcloud - é uma nuvem, ou seja, um espaço onde podemos armazenar diversos tipos de conteúdo como vídeos, textos, livros, cartilhas e etc; Kolibri - trata-se de uma ferramenta com material educacional, voltada para áreas de internet escassa ou sem internet; e Kiwix - é um leitor offline, para conteúdo online como wikipedia. Ele disponibiliza conhecimento para as pessoas com pouco ou sem acesso à internet.

[4] A internet é instalada mediante a concordância da comunidade em pagar a mensalidade mensal. Como sabemos que algumas comunidades são muito carentes e precisam dum tempo para organizarem-se melhor para esse pagamento, o projeto disponibiliza os seis primeiros meses de internet grátis.

[5] Alguns destes debates poderão ocorrer em parceria com outras organizações.

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