Pra não dizer que eu não falei da esquerda que ama a direita

O raciocínio é simples: se Bolsonaro é contra o povo, quem se opõe a ele está a favor do povo. Certo? Errado

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Há algumas semanas, Luiz Henrique Mandetta se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter. O motivo da comoção em torno do nome dele se deve à revelação “bombástica” de que o ex-Ministro do governo genocida é amigo do também ex-ministro genocida Sergio Moro e que ambos podem estar juntos em uma chapa presidencial. Para o meu espanto, uma parte dos comentários de pessoas que se diziam decepcionadas com a informação eram pessoas do campo das esquerdas. O motivo? Mandetta havia se posicionado frontalmente ao Governo Bolsonaro, defendendo o isolamento social e condenando o uso da Cloroquina, remédio que ainda não se tem aprovação científica de sua eficácia contra o combate à COVID-19. Aparentemente, parte das esquerdas, assustada com o cenário caótico gerada pelo (des) governo de Bolsonaro em tempos de pandemia, embarcou no ditado popular que diz que “o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo”, caindo facilmente no canto da sereia. O raciocínio é simples: se Bolsonaro é contra o povo, quem se opõe a ele está a favor do povo. Certo?  Errado.

Com a constante queda na aprovação do Governo Bolsonaro até mesmo Amoedo, Lobão e Danilo Gentilli já se tornaram anti-Bolsonaro, passando a fazer duras críticas ao presidente genocida. Mas o que motivou essa abrupta mudança de postura de tais figuras? Se analisarmos de forma fria; o  Bolsonaro que governa é o mesmo que foi eleito: quando deputado já dizia que não se importaria com a morte de 30 mil inocentes; o número inocentes mortos por COVID-19 já ultrapassa três vez mais o número estimado pelo deputado do baixo clero que nunca chegou a aprovar, em vinte oito  anos, sequer um projeto relevante; não podemos nos esquecer que o Presidente que disse que a COVID-19 é uma “gripezinha”, que não ameaçava pessoas jovens ou com histórico de atleta, possui as mesmas características que tinha quando dizia que crianças afeminadas deveriam apanhar; que chamava mulheres de fraquejada e dizia que jamais entraria em um avião pilotado por um cotista. Por que então somente agora o machismo e a misoginia de Bolsonaro passaram incomodar pessoas liberais? 

É importante frisar que Amoedo, Luciano Huck, Gentilli e muitos influenciadores e youtubers que hoje se dizem anti-Bolsonaro, não só ajudaram a criar o ambiente propicio e fértil para as ideias bolsonaristas, como votaram em Bolsonaro. Afinal de contas, foi criado um contexto que possibilitou a vitória de Bolsonaro e muitas dessas personalidades citadas anteriormente, incluindo o ex. Juiz de Curitiba, fortaleceram o discurso que possibilitou a ascensão de Bolsonaro ao Palácio do Planalto. Assim, a experiência frustrante de Mandetta pode ser vista como um grande ensinamento para as esquerdas.  Porque evidencia claramente o que, de fato, estamos plantando hoje. Mandetta, como muitos sabem, é um deputado de direita, que amplamente defendeu o Golpe de 2016,  tirando fotos com o cartaz escrito “tchau querida”;  além de ser um representante ligado aos interesses dos planos de saúde privados e ter votado a favor da PEC do teto de gastos, que tirou R$ 22,5 bilhões de reais da saúde e praticamente congelou a verba da educação. Como ministro do governo genocida, é importante sublinhar que Mandetta foi fundamental para o desmonte do SUS e para o desligamento dos médicos cubanos do Programa Mais-Médicos. No entanto, bastou algumas entrevistas do ex-Ministro da Saúde, criticando a ausência de ações coordenadas do Governo Federal em relação ao combate à COVID-19 para a esquerda divulgar vídeos do Mandetta, compartilhar suas entrevistas, soltar notas de apoio, bem como fazer tweets em sua defesa e subir hastags. O resultado foi nítido: Mandetta saiu do governo, que ele ajudou a eleger, com um capital político invejável.  Além de se tornar uma potência nas redes, hoje ele conta com mais de 808 mil seguidores no Twitter; 670 mil seguidores no Instagran. Não pode deixar de mencionar que a grande mídia tradicional já se encarregaria de tornar Mandetta em uma liderança de direita. No entanto, à esquerda ao compartilhar vídeos, seguir o então ministro nas redes sociais, sobe tags [tendência] para ele nas redes, com isso também ajudou no crescimento político dessa nova liderança de direita. Infelizmente, Mandetta não é um caso isolado. Há outros episódios em que pessoas de esquerdas contribuem para dar visibilidade às figuras políticas que se dizem que não são direita, nem de esquerda. O problema principal de cair nesse discurso é que não existe neutralidade ideológica, não se pode estar do lado dos endividados e dos donos de bancos ao mesmo tempo, nem dos bilionários e dos trabalhadores precarizados. Como diria Antonio Gramsci “viver é tomar partido”. Acreditar que amansar o discurso, abaixar nossas bandeiras para que o discurso da esquerda seja mais palatável é uma ilusão. A direita nunca mudou seu discurso e nunca deu espaço para os comunicadores de esquerda em ascensão alcançar o mainstream. Mesmo sendo contra Bolsonaro eles foram favoráveis à Reforma da Previdência e seguem batendo na tecla de uma reforma tributária que beneficia os super-ricos em detrimento dos mais pobres. Perceba: em nome de uma “união” a esquerda é a única a abaixar suas bandeiras. É o momento das esquerdas retomarem as pautas que historicamente são suas, tais como a taxação de grandes fortunas, o debate verdadeiro sobre segurança pública que passa pela desmilitarização, pelo debate sobre a ineficiência do sistema prisional e pelo o fim do genocídio da população negra, indígena e quilombolas. É hora de à esquerda fazer um debate honesto sobre família: apoiar mais direitos trabalhistas para os homens e mulheres trabalhadores; de pautar o debate sobre a previdência; de mostrar quão espoliáveis e cruéis são as taxas de juros do Brasil que levam aos endividamentos de pais e mães de família. É hora de às esquerdas defenderem o SUS e a educação pública e gratuita para todos. Precisamos ser coerentes com nossas lutas: fomos contra o golpe, fomos contra a reforma trabalhista, contra a reforma da previdência, somos contra o genocídio da população negra, lutamos contra a precarização do trabalho e somos contra o Bolsonaro. 

Que a direita prenda o monstro que eles mesmo criaram. Não somos nós, que sempre apontamos os erros do governo Bolsonaro que devamos abaixar nossas bandeiras. Enquanto as esquerdas continuarem apoiando o discurso de direita, sustentado que o socialismo e o fascismo são iguais em seus extremos, continuaremos perdendo força no campo social; enquanto a esquerda reforçar figuras que nas próximas eleições estarão com Moro ou com PSDB, seguiremos perdendo. É verdade que a esquerda perde na comunicação, é verdade que os nossos jornalistas de esquerda, nossos influenciadores, nossos artistas têm menos projeção que os comunicadores da esquerda. A solução pra isso? Fortalecer os nossos, compartilhar os nossos, amplificar e apoiar os nossos. Eis que é chegado ao momento de as esquerdas ocuparem o espaço que é historicamente seu: o de ser antissistema. 

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