Precisamos de projetos políticos, não personalistas

Ao longo das duas últimas décadas estamos, cada dia mais, afastados do povo. Nossa base social vai ruindo em detrimento, principalmente, das igrejas neopentecostais, que vão criando capilaridade entre os mais pobres e afastados do Estado

Olá, companheiros e companheiras. Muito provavelmente vocês não me conhecem. Mas, me apresentando rapidamente, sou jornalista, formado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e participante de movimentos sociais desde 2015. Há pouco mais de dois anos, trabalho como repórter de TV no Espírito Santo. Já participei de algumas eleições, tanto majoritárias quando proporcionais. 

Meu desejo é trazer debate e reflexão. Para que juntos possamos pensar em formas de fazer da política um campo mais saudável, tanto de discussão, quanto de participação da sociedade. Afinal de contas, é para isso que ela existe. 

Para começar, nada melhor do que falar sobre os desafios que o campo progressista tem para este ano. Daqui uns meses, será realizada a eleição municipal em todo o país. A disputa pelas prefeituras e câmaras é o momento no qual os eleitores têm o contato mais próximo com seus futuros representantes. Até porque, quem for eleito, terá mais cobrança, uma vez que o trabalho político será dentro de cada município. 

E essa é a oportunidade para colocarmos em discussão projetos de governo. O maior dos erros que cometemos nos últimos anos é deixar de apostar em discussões e focarmos a política apenas em pessoas. Projetos personalistas não duram, mas as ideias sim. 

Ao longo das duas últimas décadas estamos, cada dia mais, afastados do povo. Nossa base social vai ruindo em detrimento, principalmente, das igrejas neopentecostais, que vão criando capilaridade entre os mais pobres e afastados do Estado. As discussões ficam restritas à academia, que tem no seu corpo intelectual, dificuldade de levar as ideias para o povo, de falar a linguagem popular e ter capacidade de discutir, com qualquer um, propostas de governo que sejam do interesse coletivo. 

O filósofo Vladimir Safatle, em coluna para o jornal El País, destacou que a “esquerda morreu”. E um dos pontos que cita é justamente a falta de saídas políticas através de projetos. Os estados e municípios controlados pela esquerda repetem fórmulas, principalmente no plano econômico, que sempre criticamos. Entretanto, como estes são “companheiros”, muitas vezes fechamos os olhos e deixamos para lá. 

Só que a repetição de erros leva ao descrédito por parte da população. Direitos tão importantes para a sociedade brasileira estão sendo destruídos sem a menor resistência. Reforma trabalhista, sindical, previdenciária, teto de gastos, e daqui a pouco a administrativa, vão destruindo conquistas históricas, que derramaram muito suor e sangue. 

Quantos trabalhadores morreram para que a carga horária de trabalho saísse de 16 para oito horas diárias? Quantas mulheres perderam a vida para que pudessem trabalhar? Quantos sindicalistas foram perseguidos por lutarem por direitos? Quando aposentados viveram na miséria para que conseguissem se aposentar com dignidade? 

O cenário econômico dos municípios é caótico, em sua maioria. Mas é justamente neste momento que precisamos de boas ideias. Os acadêmicos precisam sair da universidade. Os jovens precisam entrar nas comunidades. A militância precisa voltar para rua. Precisamos debater que país queremos para o futuro. 

Temos que ter projetos para evitar que nossos jovens saiam do país por falta de perspectiva; para evitar que enchentes destruam casas e acabem com vidas; para melhorar o sistema de transporte público, que a cada ano fica mais caro e com menos infraestrutura; para que o jovem da periferia tenha condição de ascender socialmente e se envolva, cada vez menos, com a criminalidade; para que o lazer volte nas praças de cada bairro; para que o vício em drogas seja tratado corretamente, via saúde pública. Estes são apenas alguns dos vários desafios que a municipalidade tem de enfrentar. 

Você pode me questionar.... “ah, mas muita coisa é obrigação de estado e União”. Sim, com certeza! Mas, é dever da prefeitura se unir junto com as outras esferas para criar soluções. E não ficar preso no jogo de “ah, sou oposição, então nada vai funcionar”. Sem projeto, realmente, nada vai pela frente. Ser oposição por oposição, também não leva a nada. Desse jeito, continuamos na mesmice. Sem projetos e perspectiva ficamos esperando a chegada de um Messias – só que do nosso campo ideológico – para tentar mudar nossa realidade. O problema é que até lá, a vida dos brasileiros, em especial os mais pobres, só tende a piorar. 

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