Precisamos falar de transição, agora

"Houve um tempo em que as pessoas eram mortas e sumiam pelas mãos do Estado ou se auto-exilavam ou eram banidas do país. Estamos falando da ditadura. Até hoje, embora tudo isto pareça óbvio, não é. Há quem faça questão de ignorar tudo o que foi escrito a respeito", escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

(Foto: Arquivo)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Precisamos falar de transição, agora. Houve um tempo, como sabemos, em que as pessoas eram mortas e sumiam pelas mãos do Estado ou se auto-exilavam ou eram banidas do país, também pelas mãos do poder da época. Vítimas da repressão eram presas e enfrentavam tamanho suplício nas prisões – choques, estupro, submissão ao “pau-de-arara” – que os seus companheiros de luta armada não viram outra saída se não sequestrar figuras internacionais, de expressão, que poderiam causar incidentes diplomáticos se perdessem a vida aqui, no Brasil. Como exemplo: embaixadores. Essas figuram foram usada como “moeda de troca” para salvar vidas em sofrimento. Sim. Estamos falando da ditadura, implantada em 1964. O tom didático e “professoral” é proposital, porque até hoje, embora tudo isto pareça óbvio, não é. Há quem faça questão de ignorar tudo o que foi escrito a respeito.

Quando houve a “anistia”, em 1979, os “retornados” – como eram chamados na época os que finalmente puderam voltar ao país depois de amargar longo exílio, faziam depoimentos para jornalistas interessados em falar dos acontecimentos até então sob censura – que vigorou “oficialmente” até 1978 -, ou escreviam livros, contando em detalhes a tortura a que foram submetidos.

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Este era o pavor dos que atuaram no aparelho repressivo. Ver os seus nomes veiculados e ligados aos horrores perpetrados contra seres humanos, concidadãos. Revelações que poderiam cair nas mãos de suas mulheres, filhos e netos. (Demonstraram um “pudor” que não tiveram na hora de violentar estudantes nuas, desfigurar corpos massacrados por suas “porradas” e fazer desaparecer os cadáveres de jovens, trabalhadores e, lideranças sindicais e políticas).

Para embaralhar a opinião pública e tentar uma “saída” para as suas biografias e a de suas instituições, os generais e seus batalhões de torturadores iniciaram o discurso do “revanchismo”. 

O que era um termo definidor de quem procurava vingança pelas próprias mãos, punindo a quem matou e os torturou – coisa que nenhum retornado tentou ou tinha em mente – o “revanchismo” passou a ser usado maldosamente pelos agentes repressivos para definir os que relatavam, com justa razão, pela imprensa ou por livros-depoimentos, os horrores sofridos nos porões, sem que pudessem ser denunciados, na época. Vivíamos sob censura. 

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Assim, no discurso dos perpetradores, todos os que contassem as suas dores, ou procurassem, enfim, saber que “noite” foi aquela, passaram a ser qualificados de “revanchistas”. Nenhum torturador, nenhum chefe de comando ou general fez “mea culpa”. O Exército e as instituições afins envolvidas na prática de tortura, jamais vieram a público reconhecer que houve muito mais que abuso de poder. Houve arbítrio. Pelo contrário. Adotaram o negacionismo, a postura de avestruz. Enterraram as suas cabeças dentro dos quartéis, não porque entenderam a necessidade de se retirarem da política, ou por terem aceitado a mudança dos ventos, mas por medo de que tudo o que fizeram viesse à tona. Temiam que os seus netos fossem apontados na escola, nos clubes, nos grupos de amigos.

Apenas um veículo de Comunicação conivente com o golpe e a repressão, pediu desculpas à sociedade – mas, onde estão os corpos? - pelo terror imposto a todos nós. Quarenta anos e 434 mortos e desaparecidos depois. 

Propositadamente os generais repetiram à exaustão, a fábula de que quem contasse a própria saga ou pesquisasse a respeito era “revanchista”. Os que não viveram esse tempo compraram a versão do jeito que eles venderam, e ainda hoje reverberam o termo, como se escrever sobre as torturas ou denunciá-las - como é obrigação dos que prezam pelo princípio universal dos Direitos do Homem -, fossem revanchistas. No máximo, poderiam ser tachados de “denuncistas”, por revelarem, com muita propriedade, uma história que lhes pertence. 

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Fazer disto um instrumento de manipulação política, querer encontrar no direito de narrar e fazer memória, um pretexto para fechar regimes, surrupiar direitos e subtrair liberdades, é a nítida intenção de retroceder a um tempo que deveríamos ter revisto, sim, para não repetir. 

O que esses senhores (militares, principalmente) precisam entender de uma vez por todas, é que se não queriam que as suas mulheres, filhos e netos, soubessem que dividem a mesa com assassinos e torturadores, não se metessem nesta atividade vil, degradante e desumana. O erro não está em quem conta. O erro está nos que fizeram as barbaridades em nome da “ordem”, ou seja, lá o que os moveu.

O precisam entender é que os governos posteriores ao seu ciclo dantesco de poder tiveram a grandeza (ou seria fraqueza? Ou a limitação jurídica?) de não puni-los. Nem mesmo a Comissão da verdade usada pelo general Villas Boas - patrono do atual ciclo vergonhoso de fascismo inaugurado por ele com um “singelo” tuíte, como pretexto para um golpe -, não tinha poderes para punir os perpetradores. Nem era este o objetivo. O que se pretendeu foi atenuar as angústias dos familiares, sem respostas para o destino dos seus entes queridos. Não era “revanchismo”, senhores. Era “transição”, construção de memória. Uma memória que os assombra.

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O deles é um discurso falso, torpe e usado pelo general Villas Boas e seu grupelho para justificar a necessidade de um golpe que nos legou o atual estado de coisas. Infelizmente, há os que compram termos da direita, para vender na feira dos desinformados. Reproduzi-los, só coloca lenha na fogueira. “Revanchismo” é o chavão dos covardes.

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