Precisamos falar sobre o fim do Brasil

"Bolsonaro simplesmente, em dois dias, acabou com a soberania e com o orgulho brasileiros. Eu nunca imaginei que um dia iria pronunciar aquela infeliz frase da consultoria Empiricus: "O Fim do Brasil'", diz o colunista Reinaldo Del Dotore; "O presidente, em resumo, curvou o Brasil aos interesses dos EUA, sem qualquer contrapartida de Trump. Tornamo-nos vassalos do Grande Irmão do Norte", afirma; "Há quem diga, até mesmo nas hostes da ultra-direita, que Bolsonaro não entra em 2020 como presidente. Até lá, porém, ele é capaz de causar estragos irremediáveis - o que já começa a acontecer"

Precisamos falar sobre o fim do Brasil
Precisamos falar sobre o fim do Brasil (Foto: REUTERS/Carlos Barria)

Relutei muito em redigir este artigo, pois aprendi, a duras penas, que o debate político no Brasil está mais para um duelo de monólogos: quase ninguém ouve quase ninguém, e a exposição das próprias opiniões não tem o intuito de enriquecer o debate - o objetivo é vencê-lo, impondo o próprio ponto de vista. Além disso, o debate político, assim transformado em UFC ideológico, fez com que eu precisasse me afastar, ainda que temporariamente, de pessoas queridas.

Saliento, também, que respeito absolutamente as opiniões opostas, por mais profunda que seja essa oposição. Compreenderei perfeitamente, também, se você, que lê essas angustiadas linhas, resolver me desconectar, bloquear, excomungar, etc. Peço apenas que, caso você decida comentar, faça-o com respeito, seja adulto. O Brasil já está cansado de marmanjos berrando "Passe dessa linha se for homem!".

Não dá mais, porém, para ignorar o absoluto desastre que já se desenha após pouco mais de dois meses do novo governo.

Os desastres prenunciados (como a liquidação de ativos bilionários do Estado brasileiro a preço de lojinha de R$ 1,99, o desmonte brutal e completo da rede de proteção social constitucional em prol de gigantes do sistema financeiro, etc.) até que já não me incomodam tanto: é como, quando eu era criança e no dia seguinte teria que tomar uma vacina, minha mãe já ia "amaciando" meu terror, e quando chegava o Dia D eu não sofria muito. Esses desastres prenunciados, além disso, já haviam sido nossa realidade na terrível década de 90, sob Fernando Henrique Cardoso - ainda que o Príncipe da Sociologia não tenha conseguido levar a cabo o desmonte do país como pretendia.

O que me deixou pasmo, porém, foi a sequência de falas e de atos do presidente na atual visita aos EUA: Bolsonaro simplesmente, em dois dias, acabou com a soberania e com o orgulho brasileiros. Eu nunca imaginei que um dia iria pronunciar aquela infeliz frase da consultoria Empiricus: "O Fim do Brasil".

O presidente, em resumo, curvou o Brasil aos interesses dos EUA, sem qualquer contrapartida de Trump. Tornamo-nos vassalos do Grande Irmão do Norte.

Extinguir a necessidade de vistos para que cidadãos estadunidenses (e de três outros países) entrem e circulem pelo Brasil sem que os EUA sequer precisassem oferecer reciprocidade, a meu sentir, beira à delinquência. Não é por outro motivo que até mesmo jornalistas e meios de comunicação de ultra-direita (como por exemplo a rádio Jovem Pan de São Paulo) estão espicaçando o presidente em seus comentários e editoriais. Este é um absurdo que nem mesmo de Bolsonaro eu esperava.

Outra atrocidade diplomática é o presidente ter baixado a cabeça e concordado em "fazer parte de uma força-tarefa destinada a restaurar a democracia na Venezuela". Trocando em miúdos: Bolsonaro aquiesceu em mergulhar o Brasil numa possível guerra (literalmente) contra o país vizinho, que, aliás, tem poderio militar superior ao nosso, para garantir que os infindáveis estoques de petróleo venezuelano fluam dóceis para o norte do Rio Grande. Nem mesmo os militares que povoam o governo querem entrar numa aventura grotesca como esta. Geopoliticamente, levando em consideração interesses das três grandes potências militares (EUA, Russia e China), essa atitude do presidente é um absurdo tão profundo que custo a acreditar: é demais, até mesmo para os padrões bolsonarianos de sandices.

Há quem diga, até mesmo nas hostes da ultra-direita, que Bolsonaro não entra em 2020 como presidente. (Aliás, sua hipotética queda seria uma bênção para o setor neoliberal do governo, pois, como muito bem pontua o economista Eduardo Moreira, as trapalhadas de Bolsonaro estão atrasando as "reformas" que eles tanto almejam.) Até lá, porém, ele é capaz de causar estragos irremediáveis - o que já começa a acontecer.

Reitero: respeito absolutamente eventual opção político-ideológica que você, leitor, professe e que seja oposta à minha. Respeito perfeitamente se você considerar que este texto é equivocado, que estou delirando, etc.

O que não posso, porém, é me omitir em deixar registrada a minha total oposição à liquidação do Brasil como nação soberana, que está sendo levada a cabo pelo presidente. Até porque, no futuro, quero que meu filho, com acesso a esse registro, saiba de qual dos lados eu estive.

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