Precisamos falar sobre tortura

Com relação a pessoas que ainda hoje dizem apoiar a tortura, eu me pergunto quantas pararam para pensar e imaginar o quê realmente significa ser torturado, seviciado, abusado, atormentado. Imaginar ser rebaixado a instintos básicos de sobrevivência como comer, dormir, se lavar, se for possível

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¨Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados.¨

Vladimir Herzog

Se eu estivesse contando o tempo, diria que há 42 anos e 52 dias iniciou a tortura à qual fui submetida no DOI-CODI do Rio de Janeiro. Não conto o tempo, só o fiz hoje porque estou conversando com vocês. Fiquei surpresa ao escrever isso: foi há muito tempo atrás. Tanto tempo, que daria para pensar que não seria mais necessário voltar a esse assunto. Porém, temos retornado com frequência a assuntos e situações que queríamos jamais ter vivido. Voltamos a falar sobre censura, perseguição étnica, ou por causa da orientação sexual, da raça, do sexo, da visão de mundo, da preocupação com o social e outras tantas coisas. Assim é com o holocausto que alguns resolveram contestar, como contestam também a ditadura que vivemos, as mortes, os desaparecimentos, as torturas. É por isso que ainda temos que falar sobre elas.

Vivemos mais um dia no qual foi feito o elogio a mortes em decorrência de tortura. Soubemos como procuradores zombavam e se referiam de forma imprópria a determinadas pessoas falecidas e a seus familiares. Assistimos à comemoração pela execução de um indivíduo que havia feito passageiros de um ônibus como reféns. Quando pessoas que ocupam posições de destaque num país estabelecem esse tipo de relação com a vida humana, como se fosse descartável, fica mais fácil entender (aceitar jamais!) que ocorra a banalização da vida e o consequente contingente de mortes descabidas e de forma fútil neste país. É por isso que ainda precisamos falar sobre mortes.

A celebração da tortura e das mortes por ela provocadas provém de um sentimento ignóbil, muito difícil de aceitar e de entender. A prática da tortura, a ação do torturador, a apreciação de ambos não podem ser vistos com naturalidade pelo ser humano. Se o for, indica um ser não civilizado, nem mesmo humano já que aquilo que distingue o Homem de outros seres é agir com racionalidade. Longe disso, essa apreciação denota a existência de ódio e de raiva tão profundos por outra pessoa que esta merece o total aniquilamento físico, mental e emocional.

Vi esse sentimento incompreensível, esse ódio desmesurado, esse instinto primitivo e de total brutalidade, cara a cara, aos 26 anos. Não tem idade melhor ou pior para encarar o horror. Apenas destaco a dificuldade em compreender, no início da vida adulta, até que ponto a brutalidade pode chegar. Não é fácil estar ao lado de um monstro cujo único objetivo é a sua nulificação. Hoje, muito mais velha, sei onde a falta de humanidade pode levar.

A tortura se manifesta de diversas formas e em diferentes níveis. Não tem cabimento a análise e a discussão sobre tortura ¨melhor¨ ou ¨pior¨. Quando saí da solitária e fui colocada na cela com outras mulheres, conversei com uma querida amiga que lá estava sobre as formas de tortura a que cada uma havia sido submetida. Eu falei do temor aos choques elétricos porque eu SÓ tinha sido espancada. Ela respondeu que achava pior o espancamento, porque considerava mais degradante. Jamais esqueci essa conversa estranha e que a tortura pode nos fazer chegar ao ponto de avaliar métodos e quais nos causam maior repugnância, medo ou horror.

Para mim, a tortura começou sem ser necessário o contato físico entre o torturador e eu. Começou com meu sequestro, encapuzada, num carro com 2 ou 3 homens, sem ter ideia do motivo, para onde estava sendo levada, quem eram aquelas pessoas e se era algum tipo de esquadrão da morte, hipótese segundo a qual meu fim estaria próximo. A imaginação não dá tréguas. Continuou com a chegada ao DOI-CODI onde a primeira coisa que tive que fazer foi ficar totalmente nua, na frente de vários homens, só com o capuz, enquanto pipocavam os flashes, o que me fez deduzir que estava sendo fotografada. 

A expressão ¨SÓ¨ (usada acima) me perseguiu durante muito tempo. Minimizei o que sofri face aos relatos aterrorizantes de formas diversas de crueldade a que várias pessoas foram submetidas, algumas não resistindo e morrendo em decorrência. Fiquei viva, as sequelas físicas foram administráveis ao longo do tempo, não fui estuprada como outras mulheres, não tive a presença ao meu lado de uma cobra ou de um jacaré... Mas, todas as formas de tortura são violentas e hediondas.

A experiência da tortura física e psicológica é inesquecível. É algo que nos acompanha para o resto da vida. Importante ressaltar que o medo de ser estuprada ou morta esteve sempre presente, desde o primeiro momento, no início do sequestro e, em especial, durante a permanência no quartel.  O pavor quanto a um possível estupro, alimentado pelos momentos em que tive que ficar nua, foi um sentimento muito marcante.  É indescritível o sentimento gerado pela impotência perante o fato de que você não possui mais o mínimo controle sobre sua vida, sua sobrevivência, sua integridade. É um processo que transforma qualquer um que o viveu: a vida jamais será como antes. Tive a felicidade de sempre conseguir falar sobre isso, pois ajudou a elaborar o ocorrido. Nem todas as pessoas conseguem.

O sequestro, a prisão e a tortura têm por objetivo degradar a pessoa, deixá-la só e solitária, modificar suas crenças sobre justiça social, acovardá-la. Além da dor, o momento da tortura nos coloca frente a uma das questões mais angustiantes para o ser humano: a ausência de futuro. O futuro passa a ser o momento imediato e uma possível sobrevivência a ele. A tortura é a afirmação de alguém pela destruição do outro. Cada um busca no seu interior uma forma de resistência para não ser aniquilado, não ser abatido, não ser deformado. Esta possível deformação é um aspecto de suma importância. A tortura é uma prática que visa a obter informações e, portanto, a que alguém delate outros. Isso é um martírio adicional à dor física. Se isso se concretiza, o torturado pode se tornar responsável pela tortura ou morte de outro, se aproximando do seu algoz e, consequentemente, se deformando como ser humano. 

Com relação a pessoas que ainda hoje dizem apoiar a tortura, eu me pergunto quantas pararam para pensar e imaginar o quê realmente significa ser torturado, seviciado, abusado, atormentado. Imaginar ser rebaixado a instintos básicos de sobrevivência como comer, dormir, se lavar, se for possível. Imaginar o que isso diz daquele que pratica tal ato e dos valores que orientam sua vida. É por isso que ainda precisamos falar sobre tortura. O tempo não apaga o que se viveu. Não é possível o esquecimento, o silêncio, a complacência, a indiferença, a amnésia moral. A prática da tortura é um crime imprescritível. Essa tragédia – caracterizada pela violência, pela barbárie, pela tortura enfim - ainda não é suficientemente pública, talvez porque não tenhamos esgotado o reconhecimento dos desmandos, das perseguições, da transgressão aos direitos, das responsabilidades e co-responsabilidades e como tudo isso afetou a nós e ao País. É fundamental a resistência atual para que aquilo que, mesmo de forma incompleta, se tornou de domínio público não retorne ao esquecimento. Se alguém quiser dizer que seria revanchismo, é importante lembrar que revanchismo está associado à vingança que por sua vez está associada ao ódio. Não é assim, em absoluto, que funcionam corações e mentes daqueles que querem um mundo mais igualitário e justo.

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