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Laurez Cerqueira

Autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes - vida e obra; Florestan Fernandes – um mestre radical; e O Outro Lado do Real

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“Prefiro ser um dinossauro de esquerda a uma lagartixa neoliberal” - Maria da Conceição Tavares

"Viva Maria da Conceição Tavares! Seu espírito democrático, solidariedade e seu amor ao povo brasileiro nos dão força para superar nossos problemas", diz Laurez

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(Foto: Arquivo Pessoal )
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Essa resposta foi dada pela deputada Maria da Conceição Tavares ao deputado Roberto Campos, depois de parlamentares do campo progressista terem sido chamados de “dinossauros”, num debate de elevada temperatura numa Comissão Especial da Câmara dos Deputados.

A comissão analisava a quebra do monopólio do petróleo. Disse isso num bate-pronto, tomada pela indignação. Mas, em seguida, num outro momento, sentiu desconforto com a resposta que deu e pediu desculpa a ele. Disse que, apesar de ser ele um homem conservador, ideologicamente de direita, era um professor, um intelectual, que deveria ser tratado com respeito, num debate democrático.

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Ela era assim, feita de sensibilidade à flor da pele, de honestidade, inteligência e paixão. Quando era confrontada nas suas ideias se transformava numa mãe defendendo os filhos diante do perigo. Quando ria, apertava os olhinhos. Pura ternura. Conheci de perto a professora Conceição Tavares quando fiz parte de sua equipe de assessores na Câmara dos Deputados. Era a mesma pessoa exposta em palavras nos seus artigos, nas suas entrevistas na TV, nas suas palestras, no quente dos debates. Mas não conhecia tanto as histórias pessoais e o humor que ela compartilhava nos círculos mais íntimos de amigos e amigas, capaz de arrancar gargalhadas nas pessoas mais sisudas.

Certas tiradas, preservadas dos dizeres portugueses, escapavam com naturalidade ou talvez de propósito, para provocar risos. Certo dia, ela me disse que queria conhecer "a piscina das águas minerais”, em que eu nadava todos os dias, chamada Piscina da Água Mineral, no Parque Nacional de Brasília. Num domingo de manhã liguei para saber se ela estava disposta a conhecer a piscina e perguntei: Professora, a senhora está ocupada nesse momento? E ela: “Ah, meu filho, estou cá aos peidos!”. Comecei a rir, ao telefone. Sabendo que me pregou uma peça, Ela: “Estas rindo de quê? Não sabes que isso é um dizer português? O mesmo que ‘não estou fazendo nada, pô!’. E desandou a rir também. Outra que saltava de vez em quando era “Caralhos me fodam!”, ou seja, danou-se!

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Esse humor latente e esse espírito despojado nos possibilitou uma amizade, nos ajudou a amenizar as tensões do frenético dia-a-dia do trabalho na Câmara. Logo no início da convivência, andando pelos corredores da Câmara, ela virou-se pra mim e disse: “Você, com essa cara de bom moço, vai se acostumando comigo. Falo puta que pariu, caralho e porra o tempo todo, viu?”. Não aguentei. Soltei uma gargalhada.

Certa vez, num dado momento de uma conversa com a deputada Sandra Starling, PT/MG, fiz a ela uma provocação. Disse que não obedecia a ordens nem me submetida a hierarquia. Ela disse: “Tá vendo, Sandra? Na minha equipe tem até anarquista. Você pensa o quê? Sou filha de mãe católica e pai anarquista. Casaram e deu Conceição, hahahahaha!”. Caímos na gargalhada.

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A paixão e a sensibilidade da professora Conceição Tavares eram tão intensas que quando ela debatia os problemas econômicos e políticos do Brasil e do mundo, sua indignação com a injustiça aflorava e muitas vezes a levava às lágrimas, tamanho o compromisso que tinha com os mais humildes.

Na crise da Ásia, em 1997, escrevendo o artigo semanal para a coluna do jornal Folha de S. Paulo, vi as lágrimas escorrerem por sua face. Disse: “Meu filho, você faz ideia da tragédia dessas crises na vida das crianças, dos velhinhos, de todas as pessoas que vivem no campo, nos morros do Rio de Janeiro, nas periferias de cidades como São Paulo, no limite da sobrevivência? Vão ficar sem comida, vão morar na rua, a violência vai explodir!".

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Aquilo me emocionou profundamente. Vi, ali na minha frente, a mais pura honestidade intelectual de uma das maiores economistas do País, com sua sensibilidade social debulhada em lágrimas.

Durante seu único mandato (1995-1999), os parlamentares do campo progressista se reuniam às terças-feiras no auditório da TV Câmara, para ouvir a deputada Conceição Tavares sobre a conjuntura semanal. A presença dela foi de fundamental importância no debate travado na Câmara com os deputados “seduzidos pelo canto da sereia neoliberal”, como costumava dizer, rendidos pelo “pensamento único” do Consenso de Washington.

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Para sua tristeza, alguns dos seus ex-alunos faziam parte da equipe econômica do governo Fernando Henrique Cardoso. Como estive ao lado dela em debates nas comissões, em entrevistas, vi cenas dramáticas. Pedro Parente, então ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão do governo FHC e Pedro Malan, ministro da Fazenda, foram confrontados por ela aos brados de “Eu não ensinei isso a vocês!”. Era um espetáculo ver a professora desconstruir a narrativa dos seus ex-alunos com intervenções brilhantes e indignadas.

Costumo dizer que tenho dois pais intelectuais: Florestan Fernandes e Maria da Conceição Tavares. Tive a honra de ser assessor, nos seus mandatos em períodos diferentes, e de ganhar de presente preciosos conhecimentos no convívio frenético do dia-a-dia na Câmara dos Deputados. Sinto profunda gratidão pela generosidade de compartilharem comigo o que tinham de melhor.

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Viva nossa querida professora Maria da Conceição Tavares! Seu espírito democrático, sua solidariedade, seu amor ao povo brasileiro e a inestimável grandeza de seu pensamento na Economia e na política, que nos dão força para superar nossos problemas.

(*) Laurez Cerqueira é autor de Florestan Fernandes – vida e obra; O Outro lado do Real; e outros trabalhos como ghostwrite.

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