Primárias Argentinas dia 11: Que força terá a chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner?

Helena Iono analisa as Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (PASO) e o quadro eleitoral da Argentina

Presidenciável argentino Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner.
Presidenciável argentino Alberto Fernández e sua vice, Cristina Kirchner. (Foto: Alberto Fernández e Cristina Kirchner)

Estamos a oito dias das PASO (Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias) na qual sedefinem os candidatos na Argentina para as eleições de 27 de outubro que decidem quem será o presidente da República a partir do dia 10 de dezembro. Nas PASO se votam também pelos candidatos que deverão renovar a metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado, além do governador, prefeitos e vereadores da Província de Buenos Aires.

Campanha eleitoral de Macri 

O quadro atual da campanha se caracteriza, por uma rara aparição de Macri, com comícios em recintos restritos, de público seleto e exclusivo, com vazios discursos típicos de um empresário fanfarrão de que o “melhor está por vir nos próximos quatro anos” depois desta “primeira fase de sacrifícios” e “medidas inevitáveis”, produto da “pesada herança do kirchnerismo”. Após 4 anos de gestão, arrochos e destruição do Estado, ainda tocam na mesma tecla de ataques à gestão anterior. 

A campanha do macrismo não tem sustentabilidade frente à degradação da vida real do povo, visível nas ruas, nas escolas, nos transportes coletivos e no comércio. Como disse Cristina Kirchner, não basta debater com cifras e números, o importante é sentir e ver o que está ocorrendo com as pessoas. Aos que não vivem na Argentina, devo citar algumas cifras para que se tenha noção do que ocorre. São 4, 1 milhões de novos pobres, e 6 milhões que já não comem; 19.147 empresas fechadas, e 119.527 postos de trabalho eliminados, e um crescimento de 35% da pobreza em 4 anos. A classe média também é afetada: há 82 mil crianças na cidade de Buenos Aires que abandonaram a escola privada. Nesta semana, houve cenas de triste impacto: a de um velho aposentado que vivia dignamente antes e que agora só consegue comer 1 vez a cada 2 dias. E viu-se uma cena tristíssima na TV: 1,5km de fila em La Plata, de mulheres e jovens desempregados levando currículo para concorrer a um trabalho pouco desejado de guarda carcerário. Mas, o mais indignante é que a governadora Vidal, da província de Buenos Aires, ousou comentar de forma desumana: “não é uma fila para buscar trabalho; é para estudar!”. 

Diante deste quadro tenebroso na Argentina que viemos descrevendo no largo destes últimos anos, tal é o descrédito popular onde cada 6 de 10 cidadãos rechaçam Macri, que os próprios candidatos oficialistas da chapa “Juntos para el Cambio (Mudança)”, como a atual governadora e legisladores de Buenos Aires, tratam de aparecer dissociados da imagem de Macri que os faz perder votos. Neste contexto, todas as armas das fakenews, da blindagem midiática, do suspeitoso investimento do FMI na campanha oficialista, serão acionadas, mas poderão falhar. Por isso, a fraude eleitoral de “Juntos para el Cambio” está prevista já nas PASO, como último recurso diante do fracasso social e do avanço da campanha opositora “Frente para Todos”. 

Campanha eleitoral da “Frente de Todos”

A “Frente de Todos”, com Alberto Fernández-Cristina Fernández de Kirchner, além de ser a maior força de oposição, e uma ampla frente única de forças progressistas do peronismo- kirchnerismo-radicalismo apoiada pelos sindicatos, pelos movimentos sociais, pela maioria dos governadores das Províncias e setores do empresariado nacional, como já dito em artigo anterior, desponta de forma clara como um outro modelo econômico, um projeto de país de  recuperação da soberania nacional e inclusão social, alternativo ao projeto neoliberal concentrador, do capital financeiro, levado a cabo pelo “Juntos para el Cambio” de Mauricio Macri e Miguel Pichetto. Isto sem contar as outras forças políticas minoritárias de oposição a Macri que apoiam a Roberto Lavagna (Consenso Federal), Nicolás del Caño (FIT Unidade), Manuela Castañeira (Nuevo MAS), José Luis Espert (Unir) e Juan José Centurión (NOS), entre outros. 

Alberto Fernández, advogado, professor, com larga experiência nos governos de Néstor e Cristina Kirchner, além de levar uma campanha intensa articulando governadores peronistas e forças políticas da pequena e média indústria, desenvolve uma destemida campanha, peitando e calando com peculiar serenidade e argumentos contundentes a entrevistadores da mídia hegemônica. Anunciou no programa do jornalista independente Roberto Navarro, El Destape, as linhas mestres do seu projeto de governo e as medidas mais urgentes a serem acionadas a partir do dia 10 de dezembro, numa eventual e possível vitória. Este é o conjunto de medidas mais urgentes que a Frente de Todos se propõe aplicar no seu governo: 

Habitação: Criaremos um Ministério de Habitação e moradias para atendera situação dos sem tetos e da classe média. Tarifas: Desdolarizaremos as tarifas de energia. As tarifas acompanharão o ritmo do salario e das entradas dos argentinos. Dólar: Teremos um dólar competitivo para produzir e exportar. Impostos: Um sistema tributário para por em andamento a economia. Mais incentivos para a inversão, a produção e o emprego. Recomposição dos salários: O conflito salarial e o das condições de trabalho se resolverão nos acordos coletivos. Emprego: Faremos um acordo para os primeiros 100 días entre empresários, sindicatos e Estado que fixe as novas regras. Estatística: O INDEC é um termômetro. Vamos ter um organismo que funcione bem. PYMES (Pequenas e Médias empresas): Haverá políticas ativas que favoreçam o crédito para as PYMES 

Um dos pontos impactantes que define o compromisso social de Alberto Fernández, é um aumento imediato de 20% aos aposentados, e a volta dos seus remédios gratuitos aos mesmos, retirados por Macri. Outro, é a recomposição salarial que não acompanhou a inflação, limitada pela ausência de negociações coletivas paritárias livres (em 12 meses as remunerações subiram até 38%, mas os preços 57%). Fala-se também na desdolarização das tarifas energéticas e o seu congelamento imediato. Alberto defendeu algo que criou a reação midiática do grande capital financeiro: o governo interferirá no sistema atual da bárbara taxa de juros das Lelics (letras do tesouro nacional a juros de 70% anual, com vencimentos semanais) que tem favorecido exclusivamente os Bancos, maiores compradores de Lelics, e esvaziado as reservas do Banco Central e favorecido a fuga de capitais; 40 bilhões de dólares foram rifados pelo atual diretor do Banco Central. Leia Página12 sobre estes mecanismos que escoam a riqueza do Estado, que não deveria servir ao setor financeiro, mas sim, aos fundos sociais, benefícios e remédios dos aposentados, cortados sem piedade pelo modelo de Macri. Frente de Todos se centra nos investimentos produtivos e na reativação da indústria nacional e recuperação do Estado. 

Alberto Fernández e Cristina Kirchner têm se dedicado a conversar e reunir a cidadania. Ontem, na Aula Magna da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires, Alberto Fernández debateu com centenas de cientistas e acadêmicos que lhe entregaram um documento de adesão de 8.700 assinaturas de todo o país e de muitos que emigraram após os cortes de Macri aos projetos científicos do Conicet . Uma das suas promessas é reativar o Ministério da Ciência e Tecnologia, um baluarte da  tecnologia nacional, criada no governo kirchnerista e hoje reduzido por Macri a uma simples Secretaria. Axel Kiciloff, ex-ministro da economia e candidato da Frente de Todos a governador da província de Buenos Aires, disse hoje, numa reunião na Universidade Nacional Arturo Jauretche, que recriarão o Ministério da Saúde e do Trabalho, também desativados por Macri, e que os mesmos voltarão a ter o orçamento do governo anterior.

Enquanto isso, Cristina Kirchner gira por todo o país, movendo multidões com o lançamento do seu livro “Sinceramente” como plataforma para impulsionar a Frente de Todos, mas tratando de ser discreta como líder de massas e não tirar o protagonismo presidencial de Alberto Fernández. Uma ótima combinação de capacidades dirigentes que têm por trás o potencial de milhões de oprimidos. Há 2 dias, junto ao dirigente sindical bancário, Sérgio Palazzo, Cristina reuniu-se com uma multidão de trabalhadoras bancárias do país (veja), reivindicando o papel da juventude e das mulheres, e a necessidade de unir a capacidade política à sensibilidade humana; e criticou a decisão do governo de retirar a figura de San Martin, do dinheiro impresso (como já eliminou a imagem de Eva Perón), como ato de desrespeito à pátria e à história, característica principal deste governo.

Os riscos do fraude eleitoral nas urnas

Diante deste quadro socialmente favorável à vitória de Frente de Todos, técnicos informáticos da mesma, como o engenheiro Ariel Garbarzt, com a adesão das outras chapas opositoras, denunciam a alta probabilidade de fraude nas urnas das PASOs, com o novo sistema digital (Smartmatic criado nos EUA) de transmissão de dados dos centros de votação à central de contagem dos votos no Correio Central, tradicionalmente feita via telegrama. A oposição exige a entrega do tal software e a possibilidade de controle da transmissão de dados em tempo real, por parte de todas as chapas eleitorais. O sistema, falhou na simulação prévia dias atrás, sem explicações à Justiça eleitoral e à oposição; não há garantias de que não haja fraude. Razão pela qual a Frente de Todos tem convocado a sua militância a uma ampla mobilização para a fiscalização total da votação e contagem, neste próximo dia 11 de agosto, durante as PASO. O chamado é à presença física dos fiscais e à fiscalização informática. Ao mesmo tempo, a campanha do corpo a corpo tem sido convocada nestas eleições, para sair-se da campanha das redes sociais, ir às ruas sem depender da guerra midiática e da invasão cibernética.

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