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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Produção industrial em queda no Brasil

Queda em dezembro expõe estagnação da indústria, pressionada por juros altos, investimento fraco e desempenho inferior ao de economias emergentes concorrentes

Produção industrial em queda no Brasil (Foto: Freepik)

A indústria brasileira registrou uma queda forte em dezembro: recuo de 1,2% em relação a novembro, aprofundando a retração de 0,2% observada no mês anterior. Foi a maior queda para um mês de dezembro desde 2019. Esse resultado acende um sinal de alerta. Enquanto os dados de serviços (PMS) e de comércio varejista seguem relativamente bem, a produção industrial vem claramente patinando. O que antes era estagnação começa agora a se transformar em preocupação. Desde julho de 2024, quando a indústria havia caído 1,5%, os resultados mensais vêm sendo fracos, com quedas recorrentes.

Em dezembro, alguns setores tiveram desempenho particularmente negativo. A produção de veículos caiu de forma relevante, em parte explicada por férias coletivas. O setor petrolífero também registrou retração. O dado mais preocupante, no entanto, veio dos segmentos mais sensíveis ao custo do capital: bens de capital caíram 8,3% no mês e bens duráveis recuaram 4,4%. Com juros em torno de 15% ao ano, não há como esses setores reagirem. O custo do crédito simplesmente pesa demais.

No fechamento do ano, o quadro confirma a perda de dinamismo: a indústria cresceu apenas 0,6% em 2025, muito abaixo da alta de 3,1% registrada em 2024. Na prática, temos uma indústria estagnada em 2025. No primeiro semestre, ainda houve algum crescimento, de cerca de 1,2%, mas no segundo semestre o avanço foi praticamente zero, o que reforça o sinal de alerta.

Quando olhamos para uma perspectiva de mais longo prazo, o diagnóstico é ainda mais preocupante. A produção de bens de capital permanece cerca de 35% abaixo do pico histórico de 2013, e a produção industrial total segue aproximadamente 16% abaixo do recorde histórico. Mesmo com alguma melhora nos últimos quatro ou cinco anos — um platô que agora parece estabilizado —, o desempenho brasileiro é fraco quando comparado ao cenário internacional. Nesse mesmo período, a Índia duplicou sua produção industrial, a China triplicou, e o Vietnã apresentou avanços impressionantes. O Brasil, ao contrário, acumulou uma contração relevante ao longo da última década.

É verdade que houve avanços importantes na política industrial. A Nova Indústria Brasil (NIB), o maior protagonismo do BNDES, e um volume expressivo de financiamento — algo acima de R$ 500 bilhões para indústria, inovação e investimento produtivo — são passos corretos e necessários. Mas isso tem se mostrado insuficiente. Os empréstimos do BNDES são majoritariamente financiados à TLP, com juros reais em torno de 8%, o que resulta em juros nominais próximos de 15% ou mais. Ou seja, taxas muito próximas às de mercado.

O contraste com o setor agropecuário é evidente. O Plano Safra opera com juros fortemente subsidiados, abaixo de 10% ao ano, e movimenta volumes semelhantes, também superiores a R$ 500 bilhões. Enquanto o agro recebe crédito barato e subsidiado, a indústria acessa financiamento relevante, mas a taxas elevadas, o que limita fortemente seu impacto sobre o investimento e a produção.

Há, sem dúvida, uma boa notícia no horizonte: o Banco Central sinalizou o início do ciclo de corte de juros, possivelmente a partir de março. Resta saber se a taxa básica conseguirá cair para algo próximo de 12% ao ano até o fim do ano. Isso ajudaria, mas não resolve de imediato.

O fato é que o ímpeto de crescimento do setor industrial brasileiro ficou para trás. Um segundo semestre com crescimento praticamente nulo é motivo de grande preocupação, especialmente em um contexto de câmbio ainda relativamente desvalorizado, que em tese deveria favorecer a indústria. Na prática, o custo do capital segue sendo o principal obstáculo às decisões de investimento.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.