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Luís Humberto Carrijo

Jornalista e comunicador, com mestrado em Comunicação e Cultura na Universidade Autónoma de Barcelona, é CEO da Agência de Comunicação Rapport Comunica e administrador da conta @imprensa_sem_disfarce

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Programa "Desenrola Brasil": quando a grande imprensa critica, o governo sabe que acertou

"Na estratégia, a reação do adversário revela muito onde o golpe acertou"

Programa "Desenrola Brasil": quando a grande imprensa critica, o governo sabe que acertou

Na guerra e na política, a reação do adversário revela onde você acertou. Sun Tzu ensinava que o comportamento do adversário revela o campo de batalha que importa. Isso é muito verdade e cristalino quando a imprensa neoliberal abandona a neutralidade performática e entra em campanha. É sinal de que o conflito atingiu interesses reais.

Na estratégia, a reação do adversário revela muito onde o golpe acertou. O primeiro indicador de eficácia de uma medida é quando o inimigo abandona a calma e entra em agitação. É o que testemunhamos nos assuntos relacionados à economia. O fim da escala 6x1 e, mais recentemente, o programa "Desenrola" são casos palpáveis que exemplificam na prática a teoria do autor do livro "A arte da guerra".

O recente editorial d'O Globo contra o novo "Desenrola Brasil" do governo Lula 3.0 é bem didático. O jornal classificou o programa de renegociação de dívidas do governo Lula como "eleitoreiro" e "nocivo". O argumento central é velho conhecido: aliviar dívidas estimularia "irresponsabilidade", puniria "bons pagadores" e produziria distorções econômicas.

Curioso como esse moralismo seletivo só aparece quando o alívio chega à base da sociedade. Quando bilhões são drenados pelo sistema financeiro via juros estratosféricos, renúncias fiscais, refinanciamentos corporativos ou mecanismos de proteção ao mercado, raramente vemos o mesmo grau de indignação editorial. Não há manchetes diárias acusando bancos de "dependência estatal" ou rentistas de comportamento "irresponsável". A austeridade moral da imprensa econômica brasileira costuma ser proporcionalmente inversa ao patrimônio do beneficiado.

Isso acontece porque a grande mídia brasileira não advoga apenas os interesses do poder econômico. Ela integra esse ecossistema. Os grandes grupos de comunicação dependem estruturalmente do mercado publicitário, do sistema financeiro, do agronegócio, do acesso privilegiado às elites políticas e econômicas e da preservação de um ambiente ideológico compatível com seus interesses materiais. Não se trata de uma conspiração secreta em uma sala escura. Trata-se de alinhamento de classe, de visão de mundo e de posição objetiva dentro da estrutura econômica brasileira.

Existe uma regra prática que o brasileiro comum talvez ainda não tenha percebido, mas que ajuda bastante a interpretar editoriais econômicos da grande imprensa: quando os jornais ligados ao mercado entram em modo pânico diante de uma política pública e iniciam uma campanha de terrorismo psicológico, provavelmente alguém fora da Faria Lima passou a ser beneficiado.

Por isso, talvez a melhor forma de interpretar o posicionamento dos grandes conglomerados de mídia seja imaginá-los como uma bússola invertida. A bússola aponta para onde não devemos ir.

Quando a imprensa do mercado elogia privatizações, flexibilização trabalhista, cortes sociais e austeridade, ela não está defendendo neutralidade técnica. Está vocalizando interesses concretos de setores que lucram com concentração de renda, compressão salarial e enfraquecimento do Estado social.

E quando essa mesma imprensa ataca programas de distribuição de renda, renegociação de dívidas, fortalecimento de direitos ou ampliação do consumo popular, ela também está revelando algo: há interesses econômicos sendo contrariados.

O editorial d'O Globo talvez diga menos sobre o "Desenrola Brasil" e mais sobre o medo de que políticas públicas voltadas à população produzam algo que o mercado detesta: legitimidade popular fora do seu controle e resultado eleitoral favorável ao PT.

No fundo, a crítica ao programa é quase um reconhecimento involuntário de sua eficácia política, social e eleitoral. Afinal, ninguém entra em estado de alerta por causa de uma medida irrelevante.

Talvez esteja na hora de parte da sociedade começar a usar a grande imprensa exatamente como se usa uma biruta de aeroporto: não para confiar automaticamente na direção para a qual aponta, mas para entender quais interesses estão soprando o vento naquele momento.

Porque, muitas vezes, quando a imprensa do capital grita "perigo" em assuntos econômicos, o que ela realmente quer dizer é outra coisa: alguém lá embaixo começou a respirar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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