Protesto contra campo de golfe olímpico é reprimido no Rio. E a mídia?

O pacífico movimento de crítica à construção de um campo de golfe olímpico sofreu com nova ação repressiva da Prefeitura do Rio de Janeiro, no sábado

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O pacífico movimento de crítica à construção de um campo de golfe olímpico sofreu com nova ação repressiva da Prefeitura do Rio de Janeiro, no sábado (20/12). A obra está sendo tocada pela iniciativa privada e ocorre em área de reserva ambiental, no bairro da Barra da Tijuca.

Autodesignado "Ocupa Golfe", o protesto há mais de duas semanas conta com a presença de ativistas em frente ao terreno em que está sendo realizada a obra destinada às Olimpíadas (leia mais). Arbitrariamente, os pertences dos ativistas já haviam sido recolhidos pela Guarda Municipal na madrugada de quinta-feira (18/12).

A ordem dada pela Prefeitura é de liberação total da calçada, em que se encontrava há dias a ocupação dos ativistas. Inicialmente estiveram instalados com barracas. A partir de uma sucessão de constrangimentos criados por ordens do alcaide carioca, os ativistas protegiam-se das intempéries com guarda-sóis. Nos últimos dias, nem isso têm conseguido fazer. No sábado a Prefeitura agiu com o claro intuito de terminar com o protesto, recolhendo à força objetos dos ativistas: faixas, mantimentos e pertences pessoais.

Já tive oportunidade de conversar pessoalmente com os ativistas no local e tenho acompanhado suas motivações e iniciativas. Devido ao saliente perfil pacífico do movimento, como também em função das fundamentadas questões colocadas pelos ativistas, é plausível argumentar que nem de longe se poderia esperar uma atitude tão extemporânea da Prefeitura. As ações dos ativistas não dão qualquer razão para isso. Somente a contumaz prepotência e a incapacidade de diálogo do prefeito Eduardo Paes (PMDB) explicam as ações da Prefeitura.

Contestado pela polêmica decisão de construir um campo de golfe para as Olimpíadas, Eduardo Paes tem sido questionado pelas seguintes razões:

a) Possibilidades de altos ganhos econômicos oferecidos a um empreendimento imobiliário privado (Fiori Empreendimentos), que realiza a construção do campo de golfe olímpico.

b) Futuras perdas de receita municipal, por conta da isenção de IPTU por 25 anos.

c) Já existem dois campos na cidade (o Gávea Golf Club e o Itanhangá Golf Club).

d) Sérios danos ambientais. A obra está sendo realizada em área de proteção ambiental permanente, afetando espécies da flora e da fauna que somente existem na região, além de outras espécies ameaçadas de extinção, como a coruja-buraqueira e o jacaré de papo amarelo.

No início da tarde de sábado a Guarda Municipal, com truculência, recolheu todos os pertences dos ativistas, com ordens para desocupar o logradouro público. Apoiou-se no decreto municipal no. 17.931. A norma pública trata, basicamente, de ações de repressão ao comércio ambulante e, por extensão, assegura autoridade à Guarda Municipal para o recolhimento de mercadorias. Este foi o instrumento jurídico em que se apoiou a iniciativa da Prefeitura. Diga-se, iniciativa somente esclarecida na delegacia, após conduzir um manifestante por "crime de resistência".

Segundo relato de um ativista, "a suposta resistência" do manifestante, "em verdade", derivou da "insistência para que a Guarda Municipal apresentasse o embasamento legal de sua conduta, o que foi sonegado pela equipe responsável pela missão". Conduzido à 16ª delegacia de polícia o ativista foi liberado mais tarde.

De acordo com o vereador Renato Cinco (PSOL), que esteve no local, foram mencionadas diversas "violações de direitos e abuso de autoridade por parte da Guarda Municipal contra os manifestantes". Para um ativista, a Prefeitura classificou "faixas, cartazes e placas como mercadorias, para justificar a ação. Um absurdo!".

Conforme informação oferecida por outro manifestante, o conjunto de pessoas envolvidas no protesto "Ocupa Golfe" pretende "acionar a Guarda Municipal perante a Justiça". Da mesma forma, afirma que "continuarão na localidade", fazendo suas denúncias sobre o "crime ambiental". Em nota na webpágina "Golfe para quem?", no Facebook, os ativistas frisam que "cabe aos agentes responsáveis o embargo da obra que agride um dos últimos sete biomas desse tipo de mata atlântica".

Mesmo com as dificuldades geradas pela truculenta ação da Guarda Municipal, nesse final de semana os ativistas receberam manifestações de solidariedade de pessoas que se encontram negativamente afetadas com as obras para sediar as Olimpíadas na cidade. Contaram com a presença de moradores de áreas populares do bairro de Jacarepaguá, como a Vila Autódromo e a Vila União de Curicica, ameaçados de remoção das suas casas.

Cumpre observar que, do prefeito Eduardo Paes, as respostas repressivas aos questionamentos do movimento social não se tratam de um padrão comportamental que venha necessariamente a surpreender. Os seus notórios pendores autoritários, assim como a sua concepção mercantil de cidade (uma "cidade-negócio"), dão suporte ao tratamento dispensado aos críticos da obra do campo de golfe para as Olimpíadas (leia aqui).

Do mesmo e infeliz modo, os conglomerados da mídia, em especial a televisão, têm revelado um solidário silêncio sobre o caso durante as últimas semanas. Não surpreende. A sintonia entre as suas respectivas visões de cidade com as políticas urbanas de Paes é sobremodo estreita.

Contudo, após longo e injustificado silêncio, os conglomerados deram alguma notícia. Particularmente, o jornal local da TV Band (Jornal do Rio) veiculou uma matéria. Note-se que, curiosa e coincidentemente, apenas após a ocorrência de eventos que tendem a suscitar no imaginário do telespectador os conceitos de "violência" e "confusão".

Um imaginário bastante influenciado pelos próprios ângulos habitualmente privilegiados pelos meios massivos de comunicação, que constroem atributos criminalizantes e desqualificatórios para os movimentos sociais. Nesse sentido, apresentar a truculência da Guarda Municipal não deixa de ser importante. Mas, e as questões que motivam o protesto?

Com efeito, já se esboça uma conhecida narrativa midiática: a causa dos ativistas é enquadrada na categoria da violência e são colocados de lado os aspectos propriamente políticos e ambientais que dão sentido à existência do protesto. Querendo pretensamente noticiar, são secundarizados os significados do movimento, que guardam grande interesse público. Para as atuais e as gerações vindouras.

Deixo, pois, uma sugestão, na hipótese de uma genuína, mas improvável, preocupação jornalística da parte da televisão: entrevistem os ativistas e veiculem as informações que o movimento "Ocupa Golfe" tem a oferecer ao público.

Optar pelo espetaculoso noticiário de tumultos – mesmo tendo os ativistas ocupado o papel de vítimas – tende a corresponder à lógica midiática da obtenção de audiência fácil, com notórios contornos despolitizantes. Em nada ajuda a esclarecer a população a respeito das graves questões em jogo.

Assista ao vídeo produzido pela Mídia Independente Coletiva e pelo Ocupa Golfe, com imagens sobre a ação da Guarda Municipal, no sábado 20: 

 
 

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