Psicoterapia corporal em grupo (IV)

Fazer terapia é se engajar em um movimento de vida que possibilite adquirir consciência a seu respeito



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Dando prosseguimento ao texto que vem sendo publicado, refletiremos hoje sobre o que deveria ser o tema central de todo esse processo: afinal por que fazer psicoterapia?

III) Fazer Terapia?

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"Portanto, as doenças nada mais são que os efeitos de simples mudanças de intensidade na ação dos estimulantes indispensáveis à conservação da saúde."([1])

Fazer terapia, para mim, é se engajar em um movimento de vida que possibilite adquirir consciência a seu respeito, de tal maneira que se possa fazer as escolhas necessárias na vida respeitando o desejo, objetivando o prazer e reconhecendo a realidade.

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Acredito que o parâmetro de saúde é a capacidade de vivenciar a liberdade de tomar decisões a partir de sua própria identidade.

É possível fazer terapia de várias formas e até mesmo sozinho. Os grandes exemplos seriam as pessoas que percorrem esse caminho através da meditação ou do esporte ou ...

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A diferença entre fazer terapia e psicoterapia seria que na psicoterapia se tem como intenção refletir sobre a vida a partir da tomada de consciência do material inconsciente (recalcado) com o auxílio de outra pessoa, o psicoterapeuta.

De acordo com minha forma de pensar, cabe ao paciente conduzir o processo. O terapeuta é que tem que se colocar a disposição de seu cliente (vide citação anterior sobre os gregos).

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Entendo que se um chinês me procurasse para fazer terapia comigo, caberia a mim aprender chinês e não a ele aprender português. Quero dizer com isso que as dificuldades da relação do terapeuta com seus pacientes são de responsabilidade do terapeuta e os sucessos são de nossa responsabilidade.

Muitos terapeutas contra-argumentam que a relação se torna unilateral. Minha resposta é que ela é unilateral mesmo. Quando uma pessoa procura um psicoterapeuta, antes de mais nada está dizendo:

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· quero refletir sobre minha vida e não quero fazê-lo sozinha;

· o que a sociedade lhe ofereceu o levou onde ele está, e ele quer algo diferente;

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Quando um psicoterapeuta concorda em atender ao paciente ele está respondendo:

· concordo em te ajudar a refletir sobre sua vida, em troca me pague x por hora do meu trabalho.

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· concordo em lhe proporcionar algo de diferente do que a sociedade lhe ofereceu. A diferença é: você aqui é livre para pensar, falar e agir, desde que não cause nenhum dano, nem a você nem a nada que te rodeia. Você aqui não estará sujeito a julgamentos de nenhuma espécie. E caso apareça algo que você se julgue incapaz de lidar, estou pronto para lhe ajudar. Portanto, você pode até mesmo experimentar a loucura, que te acolho mesmo assim. Seu único compromisso aqui é com você.

Existem dois termos correntemente utilizados, resistência e fuga, que os interpretava de uma maneira bastante particular.

Falar que alguém está resistindo ou fugindo da relação, é responsabilizar o paciente, o que é, no mínimo, uma covardia do psicoterapeuta. Conforme expus por reiterada vezes anteriormente, a responsabilidade de construção da relação é do psicoterapeuta. Portanto, se culpado existir (!?) pelo fracasso da relação, para mim, ele só pode ser o profissional e não o paciente. Imagina se alguém contrata um arquiteto para construir uma casa, e, depois que ela está pronta, desmorona. A queda da casa seria de quem, do contratante!!!!

Não entendo a utilização da palavra fuga da forma com que é utilizada freqüentemente. Penso que para se fugir de algo é necessário ir-se de encontro a outra coisa qualquer. Se uma pessoa se suicida, ela pode estar fugindo da vida, mas com certeza está indo de encontro a morte. É uma questão de opção. A questão é em qual opção se vai ter mais prazer, não só momentaneamente, como também no futuro, para que a felicidade não se torne efêmera. E depois, se alguém está "fugindo" é porque a relação não está tendo atrativos suficientes para mantê-la.

Quanto a resistência, todo processo de transformação passa por medos, inseguranças, etc. Se ficar paralisado nestes sentimentos, nada será feito e aí sim estará havendo resistência, mas não ao psicoterapeuta ou a terapia, mas sim, ao processo de transformação que se foi buscar. É necessário arriscar-se por "mares nunca dantes navegados", o que na terapia, representa participar de atividades, que têm como intenção, denunciar as resistências internas, as quais se opõe as transformações "desejadas". Para que seja possível descobrir e remover essas resistências internas é que estamos ali fazendo terapia!

Mas cabe ao psicoterapeuta ter recursos suficientes para poder ajudar ao paciente vencer tais resistências. Se o paciente apresenta resistências ao caminho que está sendo sugerido pelo psicoterapeuta, é porque ou o caminho está errado, ou o cliente não está pronto para segui-lo. Em qualquer das duas opções, entendo que o mais importe é o psicoterapeuta perceber que sua atuação não está adequada ao paciente naquela situação.

Quando vejo um terapeuta dizendo que um paciente seu está fugindo ou resistindo, para mim, é o terapeuta que está resistindo ou fugindo de reconhecer o seu insucesso, que pode ser inclusive temporário, na relação. É uma pena esse tipo de atitude, pois o psicoterapeuta estará jogando fora uma enorme e especial oportunidade para aprender.

Um caso interessantíssimo que exemplifica bem esse percurso é o que relato a seguir.

Certa ocasião recebi uma paciente que sua principal queixa era que seu casamento estava acabando. Não tinha motivação para fazer mais nada na vida. Sempre se achou feia, burra e sem criatividade. A única coisa que dava valor era ao seu corpo, o que após o nascimento de seu filho havia se modificado muito e passado a ficar horrível, segundo ela. Em suma, se colocava totalmente impotente perante a vida.

Durante algum tempo, tentei trabalhar com ela em sessões individuais uma vez por semana. Nada adiantava. Tudo que era proposto lhe desagradava.

Seu casamento ia de mau a pior e ela se desesperava cada vez mais. Era comum haver sessões em que entrava chorando e saia chorando, sem parar um único minuto.

Um dia, lhe sugeri que ela e seu marido fizessem uma psicoterapia de casal. De imediato topou, mas falou que duvidava que seu marido viesse a topar.

Pouca coisa sabia a seu respeito. Na realidade tinha uma vaga noção de seu trabalho, onde ocupava um alto cargo, de sua rotina de vida, que era a mesma há anos e, a única pessoa que trazia para dentro da psicoterapia, além de seu marido, era seu filho, de quem falava com muito carinho.

Qual não foi minha surpresa, quando na sessão seguinte, encontro a paciente e seu marido na sala de espera de meu consultório, na hora de sua sessão. Quando convidei minha paciente para entrar, o marido também entrou, se instalando confortavelmente no interior de meu consultório.

Sem entender nada, iniciei a sessão perguntando a que devia a presença dos dois. Prontamente o marido me disse que estava ali porque ela havia dito eu o tinha convidado, uma vez que eu estava muito preocupado com ela. Aí é que não entendi nada mesmo. Sem dizer que sim nem que não, perguntei para minha paciente como estava se sentindo, com o seu psicoterapeuta e o seu marido reunidos em seu espaço terapêutico. Me respondeu que estava se sentindo muito bem, com uma expressão digna de uma criança que foi pega fazendo arte.

A partir daí, decidi pagar para ver. Calei-me e não disse mais nada.

O marido acendeu um cigarro, e com aquele ar de autoridade, começou a dizer que também estava muito preocupado com a paciente e pôs-se a falar.

Calado estava, calado permaneci.

Durante a sessão me vinha a dúvida se eu não tinha sido suficientemente claro ao sugerir que minha paciente fizesse psicoterapia de casal com seu marido. Minha intenção tinha sido falar de uma forma genérica, muito mais como uma averiguação do que qualquer outra coisa e, principalmente, jamais tinha passado por minha cabeça que esse processo fosse feito comigo. Mas, estava curioso com tudo aquilo.

Quando o tempo da sessão acabou, avisei-os e terminamos nos despedindo sem nenhuma referência ao que aconteceria na próxima sessão. Ninguém me perguntou nada, portanto, não tinha o que responder.

Na sessão seguinte de novo apareceu o casal e repetiu-se basicamente a mesma rotina da vez anterior. Essa rotina foi se repetindo e minha postura era sempre a mesma. Pouco falava e muito escutava. Praticamente só quem falava era o marido, narrando a vida dos dois desde o tempo de namorados. Narrava tudo com excessivos detalhes, a ponto de as vezes chegar a me dar sono.

Um dia, a paciente me pediu uma sessão extra, somente eu e ela. Eu lhe disse que não poderia atendê-la sozinha enquanto o seu marido viesse a psicoterapia. Ela me perguntou por que e lhe respondi que aquele era o seu horário e ela é quem tinha decidido dividi-lo com seu marido. No dia que ela quisesse ter uma sessão a dois comigo, era só combinar com o seu marido para ele não ir. Sua primeira reação foi a de ficar perplexa, para em seguida explodir de raiva em direção a mim. Lá pelas tantas, o marido não se conteve e começou a cobrar dela o que ela queria falar comigo que ele não poderia escutar e, afinal de contas, quem o tinha convidado para estar ali.

No meio dessa discussão, que me limitava a escutar, acabou o tempo da sessão e fiz questão de interrompê-la sem fazer nenhum comentário.

Na sessão seguinte, apareceu a minha paciente sozinha, dizendo que seu marido havia ficado com muita raiva ao saber de toda a verdade a respeito do meu suposto convite e não queria voltar. Ao terminar de narrar, caiu em prantos, o que se estendeu até o final da sessão sem dizer nenhuma palavra a mais.

No encontro seguinte, começamos a trabalhar os motivos que a tinham feito levar seu marido até o meu consultório daquela forma. Ela pode perceber que sua intenção era que eu resolvesse o seu casamento por ela. Peguei essa vertente de trabalho e remontamos sua estória a partir daí.

Ao vasculharmos sua vida, pudemos perceber que até a morte de seu pai, o que se deu quando ela entrava na adolescência, ela era o seu xodó e sempre que aparecia alguma dificuldade, ele a resolvia por ela. Depois da morte de seu pai, sua família teve uma grande queda em seu nível social. Ela teve que ir viver uma vida que desconhecia totalmente. Já aos dezoito anos trabalhava para pagar seus estudos. Se formou, foi trabalhar, até que conheceu seu marido, por quem se apaixonou de imediato. Por várias vezes ao falar de seu marido o chamava de pai ou ao falar de seu pai, se referia a ele pelo nome de seu marido, embora foneticamente fossem bem diferentes. A partir daí, ficou fácil percebermos, tanto eu quanto a paciente, que ela havia feito uma substituição de seu pai pelo seu marido. Mas, não estava ainda claro para mim, o porquê ela tinha voltado a ser a menininha do papai pouco tempo depois de casada, totalmente impotente, sem tesão para a vida. A substituição do pai pelo marido esclarecia parte da questão, mas algo me dizia que o preço que ela estava pagando era alto demais. Eu desconfiava que existia alguma coisa a mais, que não sabia bem o que era.

Fomos trabalhando essa questão da substituição do pai pelo marido. Um dia, quando vínhamos há algumas sessões repetidamente trabalhando essa questão e ela estava bem relaxada, lhe perguntei de supetão:

- E qual o proveito que você tem em ter se transformado na filhinha burrinha, incompetente e indefesa do papai, a ponto de colocar em risco seu casamento?

- Ora, proveito nenhum, só sofrimento?

- Mas e se houvesse algum qual seria?

- Se tem algum proveito desconheço?

- Mas e se você soubesse, qual seria?

- Já disse que não sei, e acho melhor mudarmos de assunto, pois estou ficando irritada?

- Mas e se você soubesse, qual seria?

- Não enche o saco, Paulo! Vamos mudar de assunto!

- Mas e se você soubesse, qual seria?

- Vai para pqp, pô. Não enche o saco! Já falei. Você está querendo que eu perca o controle?

- E se você perder o controle, o que pode acontecer comigo?

- Não sei, mas fico com medo até de te matar!

- Como você fez com seu pai?

Silêncio e subitamente como numa explosão:

- Meu pai não está morto, ele está vivo! Nunca vou deixar ele morrer, entendeu! Nem que para isso eu tenha que morrer!

Após esse desabafo, caiu em prantos.

Com passar do tempo pudemos perceber que o ganho que ela tinha em se manter "criancinha" era manter seu pai "vivo".

No decorrer do processo, ela se lembrou que várias vezes quando seu pai começava com brincadeiras mais íntimas com ela, seja lhe colocando no colo, lhe chamando para tomar banho com ele, para dormirem juntos e etc, desejou que ele morresse. Era a sua única saída. Se recusasse a fazer o que ele lhe sugeria, seu pai e sua mãe se uniam para a ridicularizarem com brincadeiras do tipo "Ih, ela tá com vergonha!", etc. Fazer o que ele pedia, era impossível, a ponto de um dia, já com nove anos, desmaiou quando tomava banho com o pai.

Após limparmos toda essa história, sugeri que ela ingressasse num grupo. De início relutou um pouco, mas depois topou. Nesse grupo ela pode ir se recompondo, até poder reorganizar sua vida, inclusive seu casamento.

[1]Canguilhem, Georges; O Normal e o Patológico; ed. Fu

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