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Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

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Psiquiatria explica as contradições de Donald Trump

Especialistas apontam traços narcisistas para explicar a incoerência e o comportamento errático do presidente dos Estados Unidos em meio a crises internacionais

Donald Trump (Foto: Molly Riley/Casa Branca)

O hábito patológico de Donald Trump de fazer afirmações peremptórias e contradizê-las pouco depois tem motivado avaliações psiquiátricas ao longo do tempo, haja vista que o presidente americano não é o primeiro nem será o último governante a agir dessa forma. Desconsiderem-se eventuais táticas ou estratégias, pois o descumprimento de ameaças, em face de erros grosseiros de interpretação da realidade, nada rendeu a Trump além da imagem de improvisador desequilibrado, alguém desprovido de condições mentais para liderar o que quer que seja.

O atual conflito no Oriente Médio, que desde a primeira semana ultrapassa os limites territoriais do Irã, nação atacada, é palco exemplar da patologia do vai-e-vem de Donald Trump. Os desditos são quase diários.

As “consequências militares nunca vistas” prometidas caíram no vazio logo que os iranianos fecharam o estreito de Ormuz. Como resultado, o americano teve de anunciar uma pausa de 10 dias nos ataques. Nem se fale da intempestiva afirmação de que os Estados Unidos poderiam agir sozinhos, seguida prontamente de pressões à Otan e a países da Europa em busca de apoio para desobstruir Ormuz.

Trump também disse que o fim da guerra estava próximo. No dia seguinte, admitiu a possibilidade de envio de tropas terrestres ao Irã.

O que é isso? Que doença mental acomete o presidente da maior força bélica do planeta? Quadros como o seu já foram bem caracterizados por psiquiatras de renome. O americano Jerrold Post, que trabalhou na CIA, escreveu que líderes com traços narcisistas sentem-se desobrigados de coerência, importando mais suas necessidades psicológicas imediatas. A contradição, para eles, não é vista como um problema e, portanto, o discurso muda conforme o momento.

Narcisistas como Donald Trump, segundo o psiquiatra Justin Frank, também americano, possuem mecanismos de defesa que lhes permitem dizer uma coisa hoje e outra amanhã sem sofrimento psíquico, num processo de negação e reconstrução da realidade. O discurso deve produzir efeito imediato, não demonstrar coerência.

Um dos principais teóricos do narcisismo, o psiquiatra austríaco Otto Kernberg, escreveu que as pessoas narcisistas convivem com contradições sem percebê-las ou sem se importar com elas. “Na patologia narcísica grave, há uma falta de integração do self, levando a comportamentos contraditórios sem consciência da inconsistência”, escreveu Kernberg. Para seu colega alemão, Erich Fromm, em estruturas autoritárias, como a que Trump tenta erigir nos Estados Unidos, o narcisista tende a distorcer a realidade conforme seu interesse de poder, sem compromisso com a consistência de suas declarações.

O destino, na falta de palavra melhor, foi cruel com a humanidade ao alçar uma pessoa como Donald Trump ao posto mais poderoso do mundo, sem desmerecimento de seu parceiro de atrocidades, Benjamin Netanyahu. O meganarcisista que ocupa a Casa Branca precisa, para satisfazer seu ego doentio, estar sempre certo, mesmo que isso implique mudar de versão sem pudor. Ele nega a realidade e a falseia como ferramenta momentânea. Almeja efeitos imediatos, não coerência. Despreza qualquer coisa que se interponha a seus objetivos, mesmo que sejam vidas humanas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.