PT, 40 anos, na noite de Marisa: só não podem roubar a nossa alegria

"Na mesa ao ar livre colocada na entrada do Canto Madalena, o lendário reduto petista da Vila Madalena, cercado de bons amigos, fiquei observando o alto astral do ambiente, e um filme de 40 anos passou pela minha cabeça num instante", escreve Ricardo Kotscho, do Jornalistas pela Democracia. "A vida de Marisa se confunde com a do partido (PT)", acrescenta

(Foto: PT | Ricardo Stuckert)
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Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Fazia tempo que não pegava uma festa tão alegre e animada.

Na mesa ao ar livre colocada na entrada do Canto Madalena, o lendário reduto petista da Vila Madalena, cercado de bons amigos, fiquei observando o alto astral do ambiente, e um filme de 40 anos passou pela minha cabeça num instante.

Na agradável noite de quinta-feira, durante o lançamento da biografia “Marisa Letícia Lula da Silva”, de Camilo Vannuchi (Editora Alameda), que lotou todo o salão e a rua, alguma coisa boa aconteceu no reencontro de velhos petistas (chega a ser uma redundância…), às vésperas das comemorações dos 40 anos do partido que começam hoje no Rio.

Para não esquecer, anotei no livro o título desta coluna, li em voz alta, e uma amiga comentou ao meu lado, dando risada: “A alegria é subversiva…”.

Era Paula Alcântara, tia de Petra Costa, a cineasta amaldiçoada pelo governo que domingo pode ganhar o primeiro Oscar para o Brasil.

Paula é da mesma geração de Camilo Vanucchi, brilhante jornalista e escritor de muitos livros, filho de Paulo Vanucchi, veterano dos movimentos sociais, que foi ministro dos Direitos Humanos de Lula.

Em volta, estava boa parte da família Silva, menos o próprio, meninos que vi crescer, sob os cuidados de Marisa, nos intervalos das muitas viagens que fizemos durante as campanhas do ex-presidente.

Fiquei muito feliz de reencontrar Marlene, a mãe do pequeno Arthur, o neto de Lula que morreu quando o avô estava preso. Ela era a maior amiga de Marisa, companhia inseparável, não podia faltar.

Na misturança de tribos e gerações espalhada pelas mesas, sindicalistas dos tempos das primeiras lutas dos metalúrgicos no ABC, professores e jornalistas, artistas plásticos e estudantes, em que se destacava a imponente figura da quase centenária dama Margarida Genevois, eterna presidente da Comissão de Justiça e Paz, que foi o braço direito de D. Paulo nos tempos mais sombrios da ditadura.

Dei um tempo para ver se a fila de autógrafos diminuía, mas ela só fazia crescer com o tempo, quando perguntei se não havia uma prioritária para idosos.

“Como assim? Essa fila seria maior que a outra…”, brincou alguém, apontando para os cabelos brancos e as calvícies que predominavam no ambiente.

É verdade, nós e o partido envelhecemos, mas não foi uma sessão tipo baile da saudade.

Ao contrário, comemoramos o fato de ainda estarmos vivos, os “subversivos” aposentados, tomando uma cervejinha gelada.

Em vez de fazer um inventário das perdas e danos dos últimos tempos, pessoais e políticos, que se abalaram sobre nós, parece que a turma combinou de só contar casos engraçados desta longa trajetória, desde que Marisa costurou a primeira camisa do PT com a estrela vermelha.

As maiores vítimas, claro, eram os ausentes.

“Pode reparar nas fotos antigas, você não acha uma do Aloísio Mercadante sem ter aquele barbudo do lado. O Lula era o maior papagaio de pirata do Aloísio…”.

Entre os vários prefeitáveis petistas circulando pelo salão, destacava-se a gargalhada gostosa de Djalma Bom, que foi da primeira diretoria de Lula no sindicato.

“Estou sabendo que o Lula anda falando muito de mim, mas se eu começar a contar as histórias dele…”, brinca o ex-deputado, que se afastou da política e continua andando de ônibus.

Quando fui embora, já perto da meia noite, ainda tinha muita gente querendo lembrar mais alguma história das origens do partido, que sempre foi bom de festa.

Atento às conversas, o grandão Thiago, neto mais velho de Lula, juntava lembranças para poder continuar contando esta história que está completando 40 anos.

Num país onde os partidos mudam de nome para fugir do seu passado, o PT velho de guerra, depois de tantas vitórias e derrotas, continua vivo com as mesmas duas letras.

Para quem quiser conhecer mais capítulos desta longa trajetória, recomendo o livro de Camilo Vannuchi, pois a vida de Marisa se confunde com a do partido.

Bom fim de semana a todos.

Vida que segue.

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