PT e Marina Silva: quem precisa de quem?
A saída de Marina da Rede Sustentabilidade, seu atual partido, é iminente. O novo destino segue incerto, porém parece ser questão de tempo o retorno ao PT
A Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima foi uma das lideranças fundadoras da Rede Sustentabilidade (2013), partido do qual é filiada desde então. Hoje, no entanto, existe um grande racha dentro do partido envolvendo Marina e Heloísa Helena, deputada federal da sigla. Ambas possuíam divergências internas quanto a tendências intrapartidárias, fato esse que se agravou na última eleição interna do partido que, por via da vitória de Paulo Lamac (2025) enquanto porta-voz nacional do partido, adepto da vertente de oposição a Marina, gerou um cenário inconciliável, vez que a ministra afirma que o processo foi fraudulento, enquanto o grupo vencedor classifica a postura como antidemocrática.
Embora a disputa narrativa seja interminável, o fato, já confirmado por lideranças nacionais da REDE, é de que Marina Silva está em tratativas para mudança de partido. Circula nas mídias digitais que partidos como PSOL, PDT e PSB, provável destino de outras duas lideranças partidárias da REDE, como nos casos da deputada federal Marina Helou e da deputada estadual Marina Bragante, fizeram convites para Marina e têm buscado viabilizar a sua chegada.
Hoje, o momento é bastante direcionado para a volta de Marina ao Partido dos Trabalhadores. Filiada de 1985 até 2009, foram quase 30 anos ocupando cargos de grande liderança no PT. Marina foi vereadora em Rio Branco-AC (1989–1991), deputada estadual (1991–1995) e senadora (1995–2003) pelo estado do Acre, além de ministra do Meio Ambiente (2003–2008). O resumo curricular dessa trajetória fala mais alto do que os ultrapassados motivos que levaram à sua saída do partido, vez que o alinhamento de pautas, de identidade e o respeito conquistado são aquilo que ainda restam de pé.
Este cenário vem sendo endossado, principalmente, pela militância petista. Diversas e cotidianas são as manifestações que clamam pelo retorno de Marina ao PT. Inclusive, recentemente foi criado um abaixo-assinado digital pedindo o retorno do quadro — marinasilvanopt.com.br. Claro, não é possível afirmar que existe consenso partidário quanto à vontade de sua volta, até porque isso seria impossível num cenário de estrutura partidária pautado por correntes; porém, o clima majoritário, pautado por mais de dois milhões de filiados, é de animação com a ideia.
E disso surge o questionamento central deste texto: quem precisa mais de quem nessa história? Ora, é claro que o protagonismo de um projeto coletivo sempre irá se sobrepor a qualquer pessoa ou pauta individual, ainda mais num partido calcado na classe operária; porém, acredito ser bastante razoável compreender que esse movimento se trata de uma vitória para ambos os lados.
A pauta ambiental ganha espaço central na atualidade, sendo fonte recorrente das pautas midiáticas e, ainda que de forma adjacente, debate interseccional para demais assuntos importantes da sociedade. O Brasil, como se sabe, ainda possui o agravante temático de ser um dos países de maior acaloramento do debate, seja por possuir a maior biodiversidade do planeta ou pela pungência cultural viva em nosso território. Nesse cenário, a vinda de uma das maiores lideranças ambientais do mundo, a qual foi ministra do Meio Ambiente por duas vezes, com toda certeza impacta decisivamente na evolução do PT na pauta.
Vale ainda frisar que esse ganho político, de acúmulo teórico interno, de mobilização da militância nas correntes socioambientais e na aproximação de militantes dedicados à área, caminha na contramão do presente status quo visto dentro do PT quando o assunto é meio ambiente. Existe, principalmente pela falta de atualização de antigos quadros e pelo inerte pensamento industrial que paira pelo partido, um grande afastamento de importantes lutas de preservação do meio ambiente. Não precisamos ir muito além, mas apenas cito o exemplo do pueril debate realizado na questão da exploração de petróleo na Margem Equatorial. Veja: o governo federal avançou de forma histórica em diversas facetas da luta socioambiental; porém, a presente crítica se direciona à falta de recorrência e preponderância dos debates internos direcionados à pauta.
Em contrapartida, o PT proporcionará a Marina um local permeado por militância aguerrida, mobilização popular, debates acadêmicos e entradas no aparato institucional. Gosto é algo particular e críticas são inevitáveis a todos; porém, fica difícil negar que os debates fundamentais da sociedade brasileira, pelo menos no meio político-partidário, encontram seu ápice de acaloramento e amadurecimento, encontram seu apogeu dentro do Partido dos Trabalhadores.
A ida de Marina para o PT é algo que me parece natural, uma mera questão de tempo. Marina precisa do partido, e o partido, humildemente, precisa dessa gigantesca liderança socioambiental.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
