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James Görgen

James Görgen é servidor público federal da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Foi assessor de ministros das Comunicações de 2011 a 2016. Seus textos podem ser lidos aqui: https://florestadigital.tec.br

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Putin e Xi selam aliança tecnológica

O que muda no tabuleiro global da IA, dos satélites e da governança da internet com acordos estratégicos entre China e Rússia

Presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping (Foto: 黄敬文 Xinhua)
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Em 20 de maio de 2026, o presidente russo Vladimir Putin e o líder chinês Xi Jinping assinaram em Pequim uma extensa declaração conjunta que aprofunda o que ambos chamam de “parceria abrangente e interação estratégica em nova era”. O documento, divulgado pelo Kremlin e repercutido pela imprensa especializada em cibersegurança, é o mais ambicioso plano tecnológico já formalizado pelos dois países e mira o que ambos consideram um excesso de poder ocidental sobre infraestrutura digital, satélites e inteligência artificial.

A cúpula marcou o 30º aniversário da parceria estratégica China-Rússia e o 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação entre os dois países. Ao todo, foram assinados 20 documentos na cerimônia oficial, parte de um pacote total de cerca de 40 acordos intergovernamentais, interagências e corporativos em áreas como economia, tecnologia, energia e defesa.

Mais do que um gesto político, trata-se de um roteiro pragmático para construir, ao longo dos próximos anos, uma cadeia de tecnologia paralela à dos Estados Unidos e da Europa. E pode servir de bússola para os demais países sobre os rumos da soberania digital em seu próprio território.

Os principais acordos tecnológicos

Satélites

O capítulo espacial é um dos mais concretos. Rússia e China oficializaram um Roteiro de Cooperação em Navegação Satelital 2026–2030, que prevê a interoperabilidade plena entre os sistemas GLONASS (russo) e BeiDou (chinês) para usuários no mundo todo. Na prática, dispositivos civis e militares passarão a operar de forma intercambiável entre as duas constelações, reduzindo a dependência global do GPS estadunidense.

Além disso, os dois países pactuaram coordenação sobre radiofrequências, órbitas e tecnologias de internet via satélite — segmento dominado hoje pela Starlink, de Elon Musk. O documento menciona também cooperação em Internet das Coisas e a continuidade da Estação Científica Lunar Internacional, projeto conjunto que rivaliza diretamente com o programa Artemis.

No plano estratégico, a declaração condena o projeto antimíssil dos Estados Unidos “Golden Dome”, classificando-o como gatilho para a militarização do espaço.

Governança da internet

O texto consagra uma doutrina que vinha sendo construída há anos: a soberania do espaço informacional. Moscou e Pequim defendem que cada Estado tenha autoridade ampla sobre seu ambiente digital doméstico e propõem normas internacionais juridicamente vinculantes sob a guarida da ONU para segurança de dados, comportamento responsável dos Estados na internet e estabilidade de cadeias de suprimento tecnológico.

A Rússia, que vem testando mecanismos de “internet soberana” e lançou um aplicativo de mensagens estatal chamado Max — claramente inspirado no WeChat —, ganha um parceiro de peso para legitimar esse modelo em fóruns multilaterais.

A leitura comum é que a internet aberta, descentralizada e regida por padrões técnicos globais definidos por empresas e o governo dos Estados Unidos perde espaço para um arranjo no qual governos definem o que circula em suas fronteiras digitais.

Segurança da informação

Diante das sanções ocidentais, Rússia e China decidiram criar um mecanismo conjunto de desenvolvimento de software e expandir a cooperação em código aberto. O objetivo é construir infraestrutura digital compartilhada e reduzir a exposição a controles de exportação americanos e europeus.

Há também o compromisso de “diálogo estratégico de alto nível” sobre segurança da informação, com resposta coordenada a ameaças cibernéticas e troca de experiências em regulação da internet.

Inteligência Artificial

Talvez o ponto mais simbólico seja a IA. A Rússia apoiou formalmente a proposta chinesa de criar uma Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, que Pequim quer sediar em Xangai.

Ambos os países declararam oposição ao uso da IA “como instrumento geopolítico” por nações que buscam preservar dominância tecnológica — leia-se, Estados Unidos. Discretamente, porém, a declaração registra o compromisso de cooperação no uso militar de IA, inclusive em fóruns sobre Sistemas de Armas Autônomas Letais (LAWS) da ONU.

Ao mesmo tempo, é uma resposta do líder chinês à proposta de Donald Trump para a cooperação conjunta em termos de salvaguardas em relação ao desenvolvimento e uso da nova tecnologia.

O não aos Estados Unidos

A cúpula sino-russa aconteceu menos de uma semana depois da reunião entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim. Naquele encontro, o presidente norte-americano, que foi à China rodeado por bilionários do Vale do Silício, disse à imprensa ter discutido “salvaguardas padrão” em IA com o líder chinês, e o secretário do Tesouro Scott Bessent afirmou à CNBC que Washington e Pequim estabeleceriam um protocolo de segurança em IA porque “os Estados Unidos estão na liderança”.

A proposta orbitava em torno de impedir que atores não estatais obtivessem acesso a modelos de fronteira e, em alguns círculos, da ideia de “chips por segurança” — flexibilizar controles de exportação de semicondutores em troca de compromissos chineses com segurança em IA.

A resposta efetiva de Xi foi, no melhor estilo diplomático chinês, ambígua e estratégica. Ele afirmou que China e EUA têm “boas perspectivas de cooperação” em IA, mas não se comprometeu com nenhum mecanismo concreto.

Veículos como a TIME e o Center for Strategic and International Studies classificaram a IA como o “elefante na sala” do encontro: muito conversada, pouco acordada. O Council on Foreign Relations foi mais incisivo, avaliando que Pequim não negociaria de boa-fé qualquer arranjo que limitasse o desenvolvimento chinês de IA.

Seis dias depois, ao receber Putin, Xi deu a resposta material que faltou a Trump. Em vez de aderir a um marco bilateral capitaneado por Washington, propôs uma arquitetura multilateral própria — a futura Organização Mundial de IA — endossada pela Rússia. É o equivalente diplomático a dizer que, se houver regras globais, elas não serão escritas por Washington.

Reordenamento e oportunidades

A cooperação já nasce histórica por sua abrangência temática, investimento em mecanismos multilaterais e estratégia soberana de posicionamento geopolítico por meio da tecnologia. É uma tentativa concreta de alinhamento entre agendas que vinham se desenvolvendo de forma descoordenada e uma resposta inequívoca de que a governança digital não deve ser conduzida apenas pelos Estados Unidos e seus conglomerados.

Como pano de fundo, o esforço dos dois países vai em um sentido duplo. De um lado, contrabalançar sanções econômicas ocidentais e isolamento diplomático a fim de reduzir a dependência tecnológica que definiu por muito tempo a dominância ocidental. Por outro, construir um bloco tecnológico eurasiano que combina expertise de defesa russa com capacidade industrial chinesa com a finalidade de projetar poder na região através de infraestrutura crítica compartilhada.

Para o BRICS e o Sul Global como um todo, a aliança técnica sino-russa abre uma janela inédita. O bloco passa a contar com dois de seus membros mais poderosos oferecendo pacotes de tecnologia incluindo navegação satelital alternativa ao GPS, sistemas de pagamento em moedas nacionais, software aberto compartilhado e uma proposta de governança global da IA.

Em termos práticos, significa que o BRICS pode passar do discurso da “multipolaridade” para a oferta de bens públicos digitais concretos a seus membros e ao Sul Global.

O Brasil chega a esse cenário com ativos relevantes — Marco Civil da Internet, LGPD, Pix, gov.br, infraestrutura nacional de dados, nuvem soberana e uma indústria de software vibrante — mas também com dependências críticas em nuvem, semicondutores e modelos de IA.

Há ao menos cinco frentes em que a parceria sino-russa pode ser explorada sem que o país abdique de sua tradicional posição de não alinhamento ativo:

• Navegação satelital diversificada: integrar receptores brasileiros ao GLONASS e ao BeiDou — em complemento ao GPS — em setores estratégicos como agronegócio, defesa, aviação e logística, reduzindo o risco de single point of failure geopolítico.

• Internet via satélite alternativa: concretizar parceria da Telebrás com constelações chinesas de baixa órbita para zonas rurais, Amazônia e fronteiras, oferecendo opção concreta ao oligopólio atual de provedores ocidentais.

• Software livre e infraestrutura crítica: aproximar-se das iniciativas conjuntas de código aberto, fortalecendo a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), o Serpro, a Telebrás e a Dataprev, impulsionando uma pilha soberana para serviços públicos digitais.

• Governança internacional da IA: ocupar protagonismo na proposta da Organização Mundial de IA, mas também na OCDE, no G20 e na ONU, defendendo um modelo que combine inovação, direitos humanos, transparência algorítmica e capacitação dos países do Sul Global — algo que nem o modelo americano nem o sino-russo entregam plenamente.

• Sistema de pagamentos do BRICS: transferir tecnologia do Pix para os bancos centrais de países do Sul Global, fundindo com a proposta chinesa e russa de circulação de moedas nacionais entre os países-membros.

• Capacitação e P&D: negociar acordos de transferência tecnológica e formação de cientistas em IA, computação de alto desempenho e cibersegurança, aproveitando o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) e o Banco de Desenvolvimento do BRICS.

Como sempre tenho sustentado, a oportunidade brasileira não é alinhar-se cegamente ao eixo sino-russo, mas usar a competição entre o bloco ocidental e o eurasiano para obter o que o país historicamente raramente conseguiu sozinho.

Trata-se do acesso a tecnologias de fronteira, autonomia em infraestrutura crítica e voz nas regras que organizarão o próximo ciclo da economia digital.

Obviamente, se isso for aprofundado, em algum momento o Brasil terá que fazer uma opção. Por enquanto, a janela está aberta — e fechá-la dependerá menos de Pequim ou Moscou e mais de uma estratégia digital nacional clara, com instituições fortes e investimento sustentado dentro de nossas fronteiras.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.