Qual será o Brasil de Bolsonaro?

Jornalista Riabamar Fonseca alerta para o que o País pode esperar de um governo de Jair Bolsonaro; "O futuro do Brasil se tornou incerto, porque ninguém sabe exatamente o que o capitão fará, já que ele não apresentou nenhum programa de governo. Tudo o que se sabe resulta de declarações esdrúxulas e assustadoras", diz ele; "Só nos resta repetir o ex-deputado Eduardo Cunha que, consciente do desastre que estava provocando quando comandou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, disse: 'Deus tenha misericórdia do Brasil'"

Qual será o Brasil de Bolsonaro?
Qual será o Brasil de Bolsonaro? (Foto: REUTERS/Pilar Olivares)

Aconteceu o que muitos temiam: Jair Bolsonaro, o candidato da extrema direita, é o novo Presidente do Brasil. A maioria do povo, envenenado pelo ódio a Lula e ao PT estimulado pela mídia, em especial pela Globo, e enganado pelas fakenews disseminadas nas redes sociais, acreditou que o capitão reformado representava a mudança, ignorando as advertências sobre o seu fascínio pela ditadura e pela tortura e o seu preconceito contra as minorias. E o futuro do Brasil se tornou incerto, porque ninguém sabe exatamente o que o capitão fará, já que ele não apresentou nenhum programa de governo. Tudo o que se sabe resulta de declarações esdrúxulas e assustadoras como, por exemplo, a intenção de armar a população e dar carta branca à polícia para matar, além de acabar com as reservas de índios e quilombolas e fechar os sindicatos. Ele também pensa em fechar o Congresso, promovendo a fujimorização do nosso país, conforme entrevista dada ao jornal americano "The New York Times" em 1993. Diante disso, só nos resta repetir o ex-deputado Eduardo Cunha que, consciente do desastre que estava provocando quando comandou o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, disse: "Deus tenha misericórdia do Brasil".

O temor de que ele, contando com o apoio dos militares, instale uma nova ditadura no país é visível nas declarações dos ministros Dias Tóffoli e Ricardo Lewandowski, que advertiram para a necessidade de respeito à Constituição. Essa advertência seria desnecessária se houvesse a certeza de que a democracia será preservada. Na verdade, a recomendação dos dois ministros do Supremo Tribunal Federal soa estranha, já que a Justiça, que nos últimos tempos vem se revelando despótica e profundamente injusta, tem sido a primeira a rasgar a Carta Magna. Obviamente todos torcem para que a Constituição seja respeitada, com a manutenção das garantias individuais, mas causa apreensão a ameaça aos seus opositores e, inclusive, à imprensa que o critica. De qualquer modo, deve-se reconhecer que o capitão foi eleito legitimamente pelo voto popular – ao contrário de Temer, conduzido ao Palácio do Planalto mediante um golpe parlamentar-jurídico-midiático - e, portanto, o resultado das urnas deve ser respeitado, já que todo o poder emana do povo, conforme reza a Constituição em seu primeiro artigo. A questão é: o que vai acontecer com o Brasil no governo de Jair Bolsonaro?

Em primeiro lugar é preciso decifrar o fenômeno que levou o capitão ao Palácio do Planalto. Ele é fruto de duas ações conjugadas: a campanha sistemática da mídia, em especial da Globo, contra Lula e o PT que, em mais de cinco anos, criou um sentimento antipetista em parte da população, além de criminalizar a classe política; e o comportamento despótico do Judiciário, elitista e injusto, que participou, com decisões escandalosamente parciais, da ação coordenada destinada a banir o petismo do cenário político nacional. Bolsonaro, que sonhava com a Presidência da República há mais de vinte anos, surgiu no momento certo, aproveitando o terreno já adubado, como o homem, com raizes militares, capaz de acabar com a corrupção dos políticos e com os bandidos, matando-os, os temas mais sensíveis à população no momento. Mesmo contrariando a índole ordeira do povo, ele era aplaudido entusiasticamente todas as vezes em que falava em matar bandidos. Embora sem muita cultura, o que ficou evidente em seus pronunciamentos, ele se revelou muito esperto ao perceber que o povo queria alguém com mão de ferro para solucionar os principais problemas evidenciados pela mídia: a insegurança e a corrupção.

A percepção do capitão sobre o caminho a seguir, para chegar ao Planalto, aconteceu no inicio da década de 90 do século passado, quando defendeu, da tribuna da Câmara dos Deputados, a volta da ditadura e o fechamento do Congresso. Ele recebeu uma avalanche de telegramas e telefonemas de cumprimentos, o que evidenciou a aprovação da população, certamente já desencantada com o sistema político ou mesmo com a democracia. A partir daí passou a ampliar a estrada da sua candidatura, buscando inclusive apoios nos Estados Unidos, onde, em entrevista ao "The New York Times", revelou sua admiração por Fujimori, o presidente peruano que fechou o Parlamento e demitiu mais de 400 mil funcionários. Bolsonaro disse ao jornal americano que o fechamento do Congresso brasileiro, por tempo determinado, teria a aprovação da população, o que lhe permitiria governar por decreto. Quando lhe perguntaram sobre o que estava fazendo, ele respondeu: "Estou arando o campo". Não se pode garantir que ele, agora que se elegeu Presidente, fará o que disse ao periódico norte-americano, mas aparentemente recebeu um cheque em branco do eleitor para fazer o que falou na campanha, pois o povo acreditou que ele é o homem da mudança, mesmo que seja para pior.

Também não se pode classificar os seus eleitores de fascistas. Grande parte dos que votaram nele, especialmente no interior do país, é formada por gente humilde, inclusive pessoas beneficiadas pelos governos petistas, que se deixaram influenciar pela campanha de ódio da Globo e passaram até a se manifestar com evidente rancor contra Lula e os petistas. Muita gente que não viveu no período da ditadura militar – e não tem idéia do que aconteceu – está convencida de que com os militares no poder e sem a interferência dos políticos será mais fácil resolver os problemas nacionais, particularmente da corrupção e da segurança, e num primeiro momento isso pode encorajar Bolsonaro a "fujimorizar" o Brasil. Diante disso, a oposição deve ficar atenta, de modo a obrigá-lo a respeitar a Constituição, porque o povo que o elegeu não está preocupado com os meios, desde que os fins sejam alcançados. E os violentos que saíram do armário, animados pelo seu discurso de ódio, com a sua vitória e convencidos da impunidade, estão assanhados para fazer a festa da barbárie, cujas consequências são imprevisíveis. Ninguém estará a salvo. Será esse o Brasil que o povo desejou ao depositar o seu voto na urna?

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