Quando a guerra sabota o clima
Escalada no Oriente Médio reativa a dependência global de combustíveis fósseis e aprofunda a contradição entre segurança energética e mudanças climáticas
Há algo de profundamente perverso no tempo histórico em que vivemos. Enquanto a ciência insiste, com crescente urgência, que a humanidade dispõe de uma janela cada vez mais estreita para conter o aquecimento global, as grandes potências seguem agindo como se a guerra pudesse ser separada da crise climática. Não pode. A devastação militar, a corrida armamentista, a destruição de infraestrutura, a revalorização geopolítica do petróleo e o colapso da cooperação internacional fazem da guerra um dos maiores sabotadores contemporâneos das metas climáticas.
É nesse sentido que a situação criada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu ultrapassa o terreno da geopolítica regional e entra diretamente no coração do problema climático mundial. A guerra contra o Irã, iniciada no fim de fevereiro e já no seu 17º dia em 16 de março de 2026, não apenas multiplica mortos, deslocados e destruição material. Ela também empurra o mundo de volta à lógica do combustível fóssil, da segurança energética militarizada e da emergência permanente — exatamente o oposto do que seria necessário para uma transição ecológica planejada.
O caso do Estreito de Ormuz é emblemático. Não se trata mais de uma hipótese longínqua evocada por analistas para assustar mercados. O estreito, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito transportados no mundo, já é uma rota sob grave interrupção, com Washington pressionando outros países a enviar forças navais para tentar mantê-lo aberto. Quando o fluxo energético global fica ameaçado nesse nível, o sistema internacional não reage com serenidade climática. Reage com pânico fóssil. Reage reforçando escoltas navais, ampliando a militarização da infraestrutura energética e recolocando o petróleo no centro da estratégia de sobrevivência econômica.
A escalada militar começa a produzir efeitos ainda mais perturbadores quando atinge os sistemas básicos de sobrevivência das populações. Notícias divulgadas neste sábado indicam que a guerra já ameaça inclusive o fornecimento de água em partes da região. Infraestruturas essenciais — usinas elétricas, sistemas de bombeamento, redes de distribuição e instalações de dessalinização — dependem de energia e estabilidade logística para funcionar. Quando essas estruturas entram em colapso ou operam sob risco constante, milhões de pessoas passam a enfrentar não apenas o medo das bombas, mas também a ameaça da sede. A guerra, nesse sentido, transforma-se em um multiplicador de crises: destrói cidades, interrompe cadeias energéticas e compromete até o acesso à água potável. Em uma região já marcada por estresse hídrico e temperaturas extremas agravadas pelas mudanças climáticas, o resultado pode ser devastador.
Eis a contradição central: há anos se repete, nas conferências do clima, que a transição energética exige previsibilidade, coordenação, financiamento, planejamento industrial e redução acelerada da dependência de carvão, petróleo e gás. Mas a guerra faz exatamente o contrário. Ela introduz ruptura de oferta, especulação, choques de preços, medo de desabastecimento e pressões para expandir a produção e o transporte de combustíveis fósseis. Em vez de acelerar o abandono do velho paradigma energético, o conflito o ressuscita sob a forma de urgência estratégica.
Isso não se limita ao petróleo que circula pelo Golfo. A própria máquina da guerra é intensiva em carbono. Operações militares, bombardeios, deslocamentos de tropas, reconstrução de cidades destruídas, produção de armamentos, logística de bases e sistemas de defesa elevam emissões direta e indiretamente.
Um estudo publicado na Nature Communications mostrou que guerras e aumentos persistentes de gastos militares elevam a intensidade de emissões de CO₂; e análises recentes do Conflict and Environment Observatory alertam que a escalada global do gasto militar compromete diretamente os objetivos da ação climática.
Em outras palavras: a guerra não é apenas um drama humanitário ou diplomático. Ela é também uma política climática regressiva, ainda que jamais se apresente assim. Cada míssil lançado, cada refinaria ameaçada, cada rota marítima militarizada, cada orçamento público deslocado da adaptação ecológica para a compra de armamentos contribui para aprofundar a distância entre o que os governos prometem nas cúpulas do clima e o que de fato fazem no mundo real.
É precisamente por isso que a ofensiva articulada por Trump e Netanyahu tem implicações muito mais amplas do que as justificativas apresentadas em nome de “segurança” ou “dissuasão”. Ao incendiar uma região central para o mercado global de energia, ambos ajudam a reorganizar prioridades do sistema internacional em torno da guerra, não da descarbonização. E isso acontece quando a agenda climática já vinha enfrentando enormes dificuldades.
Na COP30, uma nova análise da Organização das Nações Unidas (ONU) estimou que, mesmo com avanços recentes, os planos nacionais levariam a uma queda de apenas 12% nas emissões globais até 2035 em relação a 2019 — progresso insuficiente diante da escala do desafio. O espaço para atrasos já era mínimo; sob uma guerra prolongada, ele se torna ainda menor.
Existe ainda uma dimensão política menos visível, mas igualmente grave. A crise climática depende de cooperação internacional em larga escala. Exige confiança mínima entre Estados, instituições multilaterais capazes de coordenar metas, regras de financiamento e compartilhamento tecnológico. A guerra destrói exatamente esse ambiente. Ela substitui a linguagem da cooperação pela da coerção; a diplomacia climática pela diplomacia da intimidação; os fundos para a transição por orçamentos de defesa; os pactos multilaterais por alianças militares ad hoc. Quando a política internacional entra em estado de beligerância permanente, a governança do clima se torna refém da lógica do inimigo.
Nesse cenário sombrio, a China aparece como uma contradição importante. Segue sendo grande consumidora de carvão, e isso não deve ser minimizado, mas, ao mesmo tempo, foi justamente a expansão acelerada das energias renováveis que permitiu ao país registrar, em 2025, a primeira queda anual da geração termelétrica em uma década. A Reuters também destacou, no começo de 2026, que a China continua ampliando fortemente sua capacidade em solar, eólica e armazenamento, consolidando-se como o principal polo mundial da infraestrutura de energia limpa. Ou seja, enquanto parte do Ocidente reacende a geopolítica do petróleo sob escolta militar, a China oferece um vetor oposto: o de uma transformação produtiva em que a segurança energética tende a se apoiar mais em capacidade industrial limpa do que em guerras por controle de rotas e regiões estratégicas.
Isso não significa idealizar Pequim, mas reconhecer a natureza da bifurcação histórica em curso. De um lado, a segurança definida em termos militares, dependente de frotas, bases, petróleo e imposição de força. De outro, a segurança definida em termos de investimento produtivo, tecnologia energética e reestruturação de longo prazo. A primeira amplia o risco climático. A segunda, ainda que incompleta e contraditória, aponta para uma saída mais racional.
Trump e Netanyahu operam no sentido inverso, reforçando a ideia de que a ordem internacional pode continuar baseada em supremacia militar e em controle coercitivo de regiões-chave. Essa visão não apenas é moralmente devastadora; ela é climaticamente suicida. Não se pode pretender defender o planeta mantendo intacta a centralidade estratégica do petróleo. Não se pode falar em transição ecológica enquanto se normaliza a explosão de guerras em áreas decisivas para a energia global. Não se pode pedir sacrifícios à população civil em nome do clima enquanto trilhões são canalizados para destruição, rearmamento e confrontação geopolítica.
O ponto mais grave é que a guerra não adia apenas metas abstratas para 2030 ou 2050. Ela reorganiza o presente. Ela muda preços relativos, prioridades fiscais, discursos políticos e hierarquias estratégicas. Ao fazer isso, cria inércia institucional e econômica contrária à transição. O resultado é simples: cada mês de guerra torna mais difícil, mais cara e mais politicamente improvável a transformação ecológica de que o mundo necessita.
A tragédia, portanto, é dupla. Morrem pessoas sob bombas e morre, um pouco mais, a já frágil possibilidade de coordenação global contra o aquecimento do planeta. O mesmo sistema internacional que se mostra incapaz de proteger civis também se mostra incapaz de proteger as condições mínimas de habitabilidade da Terra. E isso não é coincidência. É expressão de uma ordem que continua tratando o poder militar como solução, quando ele é parte decisiva do problema.
Se o mundo quiser realmente enfrentar a emergência climática, terá de romper não apenas com os combustíveis fósseis, mas também com a lógica política que os sustenta. Terá de reconhecer que militarização, guerra e transição ecológica são situações cada vez mais incompatíveis. E terá de dizer com clareza o que muitos preferem calar: as guerras de Trump e Netanyahu não apenas incendeiam o Oriente Médio. Elas ajudam a incendiar o próprio futuro climático da humanidade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
