Quando a igreja vira comitê da extrema direita, Jesus Cristo deixa de ser Deus para ser cabo eleitoral
“Fazer de Deus um eleitor e de Jesus Cristo um cabo eleitoral não é apenas um erro teológico. É uma aberração religiosa”
O problema já não pode mais ser tratado como desvio individual de um ou outro político. Quando lideranças como Donald Trump ou Jair Bolsonaro se colocam, direta ou indiretamente, em paralelo com Jesus Cristo, não estamos diante apenas de um excesso retórico ou de uma provocação calculada.
Estamos diante de um fenômeno mais profundo, que só se sustenta porque encontra respaldo ativo — ou omisso — dentro de espaços religiosos.
É preciso dizer com todas as letras: há uma responsabilidade direta de dirigentes e líderes religiosos que, ao invés de conter esse tipo de distorção, a alimentam.
Os interesses variam, seja por conveniência política, por alinhamento ideológico ou por cálculo financeiro de acesso ao poder, transformaram igrejas em espaços de propaganda, púlpitos em palanques e comunidades de fé em bases eleitorais organizadas.
Esse processo não é neutro. Ele corrói, por dentro, o sentido mais profundo da experiência religiosa.
Quando um líder político é apresentado como "escolhido por Deus", quando críticas a ele são tratadas como perseguição ao bem, quando sua trajetória é comparada ao sofrimento de Cristo, o que está em jogo não é apenas uma leitura equivocada da realidade. É a instrumentalização da fé para fins de poder.
E essa instrumentalização não acontece no vazio. Ela é construída, repetida e legitimada dentro de templos, cultos, missas e espaços comunitários.
Não raramente, com o silêncio cúmplice ou pela covardia de não dizer o que está no coração, ao ver a coisa errada acontecendo em sua frente, de quem deveria, por vocação, zelar pela integridade do anúncio religioso.
Em outros casos, com participação ativa, quando lideranças religiosas assumem explicitamente o papel de cabos eleitorais, orientando votos, demonizando adversários e transformando a fé em critério de alinhamento político.
Fazer de Deus um eleitor e de Jesus Cristo um cabo eleitoral não é apenas um erro teológico. É uma aberração religiosa. É a negação do próprio fundamento da fé que se afirma professar.
O Deus da tradição bíblica não se submete a projetos de poder, não se confunde com governos e não legitima estruturas de dominação. Basta ver qualquer livro do Antigo Testamento onde qualquer um destes profetas e profetisas falam ao povo: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, Samuel, Natã, Elias, Eliseu ou as profetisas Miriã, Débora, Hulda ou Maria, a mãe de Jesus, em seu Magníficat!
Procure qualquer um destes que tenham alinhamento com a defesa da morte, do poder sem limites, da violência contra os pobres! Ao contrário, a Bíblia constantemente apresenta nosso Deus como aquele que desinstala os poderosos e se coloca ao lado dos pobres, dos injustiçados e dos excluídos.
Jesus Cristo, por sua vez, não construiu sua missão a partir da busca de poder político, nem organizou seguidores para disputar controle institucional.
Sua prática foi marcada pelo serviço, pela denúncia das hipocrisias religiosas e pela recusa em se deixar capturar por projetos de dominação.
Transformá-lo em símbolo de legitimação de lideranças autoritárias ou excludentes é uma inversão radical de seu testemunho.
O mais grave é que essa distorção produz efeitos concretos. Ao sacralizar lideranças políticas, deslegitima o debate democrático.
Ao transformar adversários em inimigos morais, aprofunda divisões sociais. Ao mobilizar a fé como instrumento de convencimento político, enfraquece a própria credibilidade das instituições religiosas.
E, no limite, contribui para naturalizar práticas autoritárias sob o manto de uma suposta missão divina.
Não se trata de defender uma fé afastada da realidade social ou indiferente à política. Pelo contrário.
A tradição cristã, especialmente na América Latina, sempre afirmou a inseparabilidade entre fé e compromisso com a justiça. Mas há uma diferença profunda entre uma fé que ilumina a consciência crítica e uma fé que é capturada para justificar projetos de poder.
Por isso, o silêncio já não é mais uma opção. Lideranças religiosas que se comprometem com o Evangelho precisam romper com essa lógica, denunciar a manipulação da fé e reafirmar, com clareza, que Deus não é propriedade de nenhum projeto político.
A Igreja — em suas diversas expressões — não pode ser reduzida a um comitê eleitoral da extrema direita. E antes que alguém pergunte se a regra vale para a extrema esquerda, eu respondo: me mostre uma igreja cujo pastor ou padre defenda um líder de esquerda como sendo Jesus Cristo. Não vai conseguir.
A fé que nasce do Evangelho não serve para eleger líderes. Serve para libertar pessoas e almas. E toda vez que ela é usada para o contrário, não estamos diante de uma expressão legítima de religiosidade, mas de sua deformação.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



