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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Quando a terapia estagna e a inteligência artificial entra na conversa

Estagnação terapêutica, filas intermináveis e ansiedade global empurram pacientes para novas formas de conversa emocional

Quando a terapia estagna e a inteligência artificial entra na conversa (Foto: Freepik )

Durante décadas, a terapia ocupou um lugar silencioso e respeitado no cotidiano de milhões de pessoas. Sessões semanais, conversas longas, silêncio estratégico, anotações em cadernos discretos. Era um espaço protegido, quase ritualístico. Mas algo começou a mudar — e mudou rápido. A mesma tecnologia que reorganizou o trabalho, o consumo de informação e as relações sociais começa agora a atravessar um território historicamente reservado à escuta humana: a saúde mental.

A história de Valeria Bittencourt — nome fictício para um caso real — ajuda a entender essa transição silenciosa. Hoje com 29 anos, ela iniciou acompanhamento psicológico ainda na infância, após professores perceberem que o autismo afetava sua capacidade de organizar tarefas, tomar decisões e interagir socialmente. Durante muitos anos, as sessões produziram avanços concretos: maior autonomia, estratégias de convivência, compreensão emocional.

Mas a vida não permanece no mesmo ponto. E terapias também podem perder tração.

Quando chegou à universidade, Valeria começou a sentir algo desconfortável. As sessões deixaram de produzir movimento. “Saía da terapia mais cansada do que quando entrei. Às vezes parecia que estávamos repetindo as mesmas conversas indefinidamente”, contou.

O fenômeno tem nome entre psicólogos: estagnação terapêutica. Não significa fracasso da terapia, mas um momento em que o processo deixa de gerar aprendizado novo. A relação profissional pode entrar em modo automático, repetindo diagnósticos conhecidos sem abrir novos caminhos.A psicóloga norte-americana Jameca Woody Cooper, presidente da Missouri Psychological Association, explica que alguns sinais são claros: irritação crescente durante as sessões, sensação de incompreensão e, em certos casos, o impulso de evitar ou cancelar consultas.

Há várias razões para isso acontecer. O paciente pode ter alcançado tudo o que aquela abordagem era capaz de oferecer naquele momento. Pode ser necessário um novo objetivo terapêutico. Ou simplesmente outro profissional, com método diferente.

A situação se torna mais complexa quando se observa o cenário global da saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 970 milhões de pessoas convivem atualmente com transtornos mentais ou comportamentais. Ao mesmo tempo, a própria OMS estima que muitos países possuem menos de um psicólogo para cada 100 mil habitantes, criando um enorme vazio entre demanda e acesso.

É nesse espaço que uma nova presença começa a surgir: a inteligência artificial.

Nos últimos dois anos, milhões de pessoas passaram a conversar com sistemas como ChatGPT, DeepSeek e outras plataformas conversacionais em busca de apoio emocional. Ansiedade, medo, solidão, insegurança e crises pessoais aparecem com frequência nessas interações.

Não se trata de substituir psicólogos. Nenhum modelo de linguagem possui empatia humana ou capacidade clínica. Mas a tecnologia oferece algo raro no sistema tradicional: disponibilidade permanente e ausência de julgamento.

O psiquiatra e pesquisador de Stanford Dr. Elias Aboujaoude, que estuda o impacto psicológico da tecnologia, observa que “muitos pacientes utilizam assistentes digitais como um primeiro espaço de organização emocional antes de procurar ajuda profissional”.Outro pesquisador influente no tema, o psicólogo digital Dr. John Torous, diretor do Digital Psychiatry Division da Harvard Medical School, acrescenta: “Ferramentas baseadas em inteligência artificial podem ampliar o acesso inicial ao cuidado mental, desde que usadas como complemento — nunca como substituição — do acompanhamento clínico”.

Para alguns usuários, conversar com IA funciona como um diário estruturado. Para outros, como um espaço de reflexão que ajuda a formular perguntas que antes pareciam difusas.

Isso não elimina a importância da terapia tradicional. Ao contrário. A professora de psicologia Alayna Park, da Universidade do Oregon, lembra que sessões improdutivas podem ocorrer ocasionalmente. O alerta aparece quando três ou quatro encontros consecutivos não produzem novas ferramentas de enfrentamento ou compreensão do problema.

Nesse momento, o caminho mais saudável costuma ser a conversa direta com o terapeuta.

Caso nada mude, uma pausa pode ser necessária.

Foi exatamente o que Valeria decidiu fazer. Após meses percebendo que as sessões não avançavam, interrompeu temporariamente o tratamento e buscou outro profissional. O processo levou meses, mas encontrou uma terapeuta com abordagem diferente e mais alinhada ao seu momento de vida.

Hoje, descreve as sessões de forma simples: “Saio cansada às vezes, emocionada muitas vezes — mas nunca vazia”.

Talvez essa seja a verdadeira transformação em curso.

Entre consultórios tradicionais e algoritmos conversacionais, entre escuta humana e sistemas inteligentes, a saúde mental começa a construir um modelo híbrido. Não perfeito, não definitivo — mas mais amplo.

Porque, no fundo, o que as pessoas procuram não é apenas terapia.

É serem ouvidas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.