Quando liberticidas se fantasiam de libertários
'A liberdade está assegurada a patrões e ao imperialismo', escreve o colunista Paulo Moreira Leite sobre o presidenciável argentino Javier Milei
A ascensão do fascista Javier Milei nas eleições presidenciais da Argentina obriga a uma discussão sobre a palavra "libertário". É assim que o próprio candidato se define, num recurso enganoso para tentar arrebanhar eleitores em confusão ideológica.
Como aprendemos nos livros de História, o conceito de "libertário" está associado a outro momento da luta social e tem fundamentos no pensamento anarquista. Trata-se de uma tradicional corrente do movimento anti-capitalista, que prega a extinção do aparelho de Estado como fase final da extinção do regime de propriedade privada.
Períodos de crise social e política são estímulos à confusão, à mentira e à troca de papéis -- como se viu inclusive na Alemanha de Hitler, quando eleitores socialistas e comunistas chegaram a dar votos para o nazismo.
"Confundir a extrema direita com anarquismo é divulgar mentira interessada", afirma Maria Luiza Franco Busse, jornalista e professora universitária. Com uma graduação em História, pós e doutorado em Semiologia, Maria Luiza foi militante secundarista na década de 60, tornando-se discípula Apolonio de Carvalho, o dirigente que chegou às Brigadas Internacionais que combateram o fascismo na Guerra Civil Espanhola e foi um dos líderes da fundação do PT.
Como jornalista, Maria Luiz participou da equipe de repórteres da TV Bandeirantes que cobriu o atentado terrorista na sede da OAB no Rio de Janeiro, em 1980, quando integrantes do porão militar explodiram a bomba que matou Lyda Monteiro, secretária da entidade.
No Brasil e no mundo do século XXI, que assiste a presença de movimentos de extrema direita em várias latitudes, estes esclarecimentos são oportunos. O primeiro aspecto é esclarecer que nem Milei, nem Trump -- e nem Bolsonaro -- têm qualquer relação legítima com ideias libertárias. Muito pelo contrário.
Como movimento histórico, as ideias libertárias nascem nas vizinhanças do anarquismo, como uma versão radical da luta contra o capitalismo, quando se imagina que o fim da propriedade privada torna possível criar um sistema de abundância econômica, permitindo distribuição igualitária da renda e direitos sociais. Ao longo deste processo, o Estado se tornaria cada vez menos necessário, permitindo que fosse abolido -- depois que a própria burguesia tivesse sido extinta como classe dominante.
O "libertarismo" fajuto de Milei & Cia não tem nada a ver com isso e seu horizonte é o retrocesso social. Conduz à eliminação dos direitos da maioria da população, em particular dos trabalhadores e assalariados em geral, num pesadelo social cujo único horizonte realista aponta para novas formas da velha escravidão, abolida no século XIX na maior parte do mundo.
Aqui, a liberdade está assegurada exclusivamente para os patrões -- que são dispensados de honrar direitos históricos dos operários -- e ao imperialismo, em busca de mão de obra cada vez mais barata pelo mundo.
Não se trata de um movimento libertário, sequer liberal, mas liberticida.
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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

