Quando o crime organizado se infiltra na política e no poder público
O crime organizado, unido a políticos inescrupulosos bolsonaristas, fizeram de tudo para tentar impedir a posse em janeiro de 2023
Conforme apontado pelas investigações policiais, o caso do Banco Master revela a cada dia de que modo uma organização criminosa (que emprega atos de violência e grave ameaça) se espalhou pela política e se infiltrou nas estruturas do poder público brasileiro, tendo à frente, como testa de ferro, um playboy bem arrumadinho e com muito dinheiro para investir em networking.
Foi o que demonstrou a direção do Banco Central, ao decretar a intervenção e a liquidação extrajudicial do Banco Master e impedir a venda da sua carteira para o Banco de Brasília. Em depoimento prestado na sede do Supremo Tribunal Federal, em 30 de dezembro de 2025, o diretor de fiscalização do Bacen afirmou que os gestores do BRB não tiveram a menor acuidade em verificar nem a origem nem as condições daquilo que o banco de Vorcaro pretendia lhes transferir.
Não por acaso, nessa mesma tomada de depoimento à Polícia Federal, o próprio Vorcaro, ao ser inquirido, afirmou que mantinha relações com muitas autoridades na República e que esteve na casa do ex-governador de Brasília e este na sua residência.
Pouco tempo depois, a Polícia Federal apurou que o ex-presidente do BRB recebia vantagens financeiras e diversos favores do CEO do Banco Master, tendo sido revelado, inclusive, que o ex-dirigente do Banco de Brasília receberia apartamento avaliado em mais de 60 milhões de reais em comissão pelo serviço prestado. Ou seja, no processo de aquisição da carteira fraudulenta de um banco quebrado, fechavam-se os olhos da auditoria em troca de favores patrimoniais.
No início de maio de 2026, quando Daniel Vorcaro apresentou sua proposta de colaboração premiada, a Polícia Federal demonstrou “pari passu" que o senador Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista e “vice-presidente ideal” para a chapa de Flávio Bolsonaro, prestava serviço legislativo ao Banco Master, em troca de remuneração mensal (“mesada”) e aquisição de imóveis luxuosos em São Paulo.
Com isto, a Polícia Federal implodiu a delação de Vorcaro (que omitiu o nome de Ciro Nogueira) e tornou pública a falta de credibilidade do ex-banqueiro para colaboração séria a ser prestada às autoridades, em troca de qualquer benefício; até porque, até o momento, a polícia já tem bastante informações, apuradas de apenas um aparelho telefônico.
Ao longo deste mês de maio (que vai chegando ao final com a confirmação do envolvimento de muitos políticos da extrema-direita com o crime organizado e as fraudes do Banco Master,) a Polícia Federal revelou o que se especulava desde o final de 2025, ou seja, o envolvimento do governador Bolsonarista do Rio de Janeiro com o Banco Master.
A polícia apontou um desvio de bilhões de reais do caixa do Rioprevidência (autarquia responsável pela administração das contribuições previdenciárias e pagamento de benefícios e pensões dos servidores do Estado do Rio de Janeiro), dinheiro que foi investido no Banco Master sem quaisquer condições de garantia de retorno do montante aplicado.
Como constou na decisão da PET 15.676/DF, do STF: “A tese investigativa sustenta que a motivação central dessas decisões (de investir recursos do Rioprevidência no Master) não residiria em critérios técnicos regulares de investimento, mas em relação pessoal e indevida entre o controlador do Banco Master e autoridades com poder de mando sobre o RPPS (Regime de Previdência Público dos Servidores do Estado do Rio). Dentro dessa linha investigativa, a PF aponta conversas indicando que determinados aportes dependeriam de ‘alinhamento político’ com o ex-Governador do Estado.”
É importante destacar que, em outra parte da decisão, concluiu-se que “... as aplicações teriam sido procedidas ou acompanhadas de aproximação política, encontros pessoais e rearranjos administrativos no âmbito da autarquia previdenciária estadual."
Ou seja, Vorcaro passou a controlar o ex-governador do Rio, que fazia o que o ex-banqueiro queria. E, para facilitar inteiramente as operações, o governador nomeou pessoas de total confiança do ex-banqueiro (que foram infiltradas no poder público) para controlar o fundo de previdência, conforme assim exposto na decisão judicial:
“... a atuação do ex-Governador não se limitou a contatos institucionais, mas envolveu vínculo pessoal estreito com o controlador do Banco Master, caracterizado por encontros frequentes, inclusive em ambientes privados e no exterior, custeados pelo banqueiro, com elevada coincidência temporal em relação aos aportes bilionários do RioPrevidência. Esse relacionamento teria viabilizado o alinhamento político necessário para a liberação de investimento, bem como a nomeação estratégica de dirigentes do RioPrevidência em cargos chave (Presidência, Diretoria de Investimentos e Gerência de Investimento), assegurando que as decisões de credenciamento e de aplicação de recursos previdenciários fossem conduzidas em desconformidade com a política de investimentos e com as normas regulatórias, mas em consonância com os interesses do Banco Master.”
Pelo encadeamento desses fatos, constata-se que, desde 2019, quando teve início o governo Bolsonaro, Daniel Vorcaro e sua organização criminosa se infiltraram em diversas instâncias da política e na estrutura do poder público com o objetivo de fraudar instituições e desviar muito dinheiro para suas contas pessoais, controlando no processo figuras políticas que atendessem a seus interesses pessoais ou os de quem ele está a serviço (sendo esta uma grande interrogação, que, esperamos, as investigações consigam esclarecer, tornando públicos os reais interesses e maiores beneficiados de todo o esquema).
Resta clara a motivação do ex-banqueiro “irmãozão” ao financiar os Bolsonaros, desde a eleição de 2022 e sua candidatura presidencial de 2026, pois, deste modo, poderia ampliar o controle sobre o poder público para alcançar seus interesses mafiosos, em detrimento e prejuízo de milhões de brasileiros. Por isso, o crime organizado, unido a políticos inescrupulosos bolsonaristas, fizeram de tudo para tentar impedir a posse em janeiro de 2023, inviabilizar o governo e, agora, tentar atrapalhar a reeleição do presidente Luís Inácio Lula da Silva.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

