Quando o herdeiro avança: os sinais antecipados da eleição de 2026
Pesquisa indica redução da vantagem de Lula e sugere reorganização precoce da direita para 2026, com impacto que vai além da conjuntura econômica
A eleição presidencial de 2026 ainda não começou — mas alguns de seus sinais já são visíveis.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana trouxe um dado que recomenda atenção serena: em um eventual segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 43% das intenções de voto contra 38% de Flávio Bolsonaro. O presidente permanece à frente, mas a distância diminuiu.
No primeiro turno, o quadro se repete: Lula lidera em todos os cenários testados; porém, Flávio avançou além da margem de erro nas simulações — um movimento que começa a alterar o clima antecipado da disputa.
O dado mais interessante, contudo, talvez não seja numérico.
O principal adversário do presidente é o filho — e herdeiro político — de um ex-mandatário condenado a mais de duas décadas de prisão por participação em uma tentativa de ruptura institucional.
Esse detalhe muda o enquadramento da análise. Não estamos apenas diante do crescimento de um candidato. Estamos diante da capacidade de reorganização de um campo político após a queda de sua principal liderança.
A resiliência de um movimento
Movimentos fortemente associados a uma figura costumam perder coesão quando ela deixa o cenário. A experiência comparada oferece inúmeros exemplos dessa dinâmica.
O caso brasileiro pode estar seguindo um caminho menos previsível.
Ao apoiar publicamente o filho como candidato, Jair Bolsonaro sinalizou a tentativa de transferir capital político e preservar uma identidade construída ao longo dos últimos anos — um gesto que aponta para continuidade estratégica e não apenas sucessão familiar.
Se essa transferência se mostrar eficaz — ainda que parcialmente — estaremos diante de um fenômeno politicamente relevante: um movimento que demonstra capacidade de sobrevivência para além de seu fundador.
Isso raramente ocorre quando a adesão é apenas circunstancial.
Mais do que oposição
Seria simplificador interpretar o avanço de Flávio apenas como reação ao governo. O que parece emergir é um eleitorado relativamente estável, organizado por valores e percepções de ordem social.
Quando esse tipo de alinhamento se forma, oscilações econômicas tendem a exercer influência menor sobre o comportamento político.
A economia continua importante — mas deixa de ser soberana.
O contraste para o governo
O dado se torna ainda mais interessante quando observado à luz da conjuntura econômica. O país não atravessa uma crise aberta; o mercado de trabalho mostra resiliência; a inflação está sob controle; políticas sociais foram recompostas.
Ainda assim, o principal adversário cresce.
Essa combinação sugere que a disputa eleitoral pode não ser explicada apenas por variáveis econômicas. Talvez o limite enfrentado pelo governo não seja estritamente material. Pode ser social.
O paradoxo das políticas inclusivas
Políticas redistributivas tendem a produzir apoio intenso nas camadas que delas se beneficiam diretamente. Seu efeito sobre os estratos intermediários, porém, costuma ser mais ambivalente — especialmente quando a percepção dominante não é de mobilidade clara, mas de esforço contínuo para preservar posição.
Esse tipo de tensão não implica antagonismo aberto nem deve ser tratado em termos morais. Trata-se de um mecanismo recorrente em sociedades marcadas por desigualdades persistentes.
Projetos de inclusão reorganizam expectativas.
E toda reorganização gera algum grau de desconforto.
Um sinal que recomenda atenção — não alarme
Nada indica, neste momento, que a liderança eleitoral de Lula tenha se dissipado. Antecipar conclusões seria precipitado.
Mas a consolidação de um adversário competitivo sugere que a eleição tende a ser menos dependente de humores conjunturais e mais atravessada por percepções duradouras sobre o rumo do país.
Não será apenas uma disputa de desempenho.
Será, em alguma medida, uma disputa de imaginação social.
O desafio silencioso
Governos ampliam apoio quando conseguem transformar melhora gradual em horizonte coletivo — quando a sociedade não apenas reconhece avanços, mas acredita estar caminhando na mesma direção.
Quando essa convergência não se forma plenamente, abre-se espaço para narrativas alternativas, mesmo na ausência de deterioração econômica.
Narrativas moldam expectativas.
E expectativas, como sabemos, movem eleições.
A economia continua sendo o chão da política. Sem ela, nenhuma coalizão se sustenta. Mas eleições raramente se decidem apenas no terreno material. Elas também respondem a percepções de pertencimento e futuro.
A ascensão de Flávio Bolsonaro talvez não anuncie uma virada inevitável — mas indica que a direita brasileira demonstra capacidade de reorganização mais rápida do que muitos previram. Ignorar esse movimento seria um erro analítico.
Disputas políticas relevantes quase nunca começam com as campanhas. Elas começam quando os sinais ainda parecem pequenos e só mais tarde percebemos que já anunciavam a mudança do tempo político.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
