Quando o medo toma conta do mundo
Dólar, preços e a Copa sob a sombra da guerra
O medo voltou a governar não apenas a geopolítica, mas também os mercados, os preços e a vida cotidiana. Mas ele não surgiu do nada. Ele tem origem política, decisão concreta e autoria.
A recente escalada no Oriente Médio — impulsionada por decisões unilaterais do governo de Donald Trump — rompeu equilíbrios já frágeis e lançou o mundo em um novo patamar de instabilidade. A frase que ecoou nos noticiários internacionais — “covardes, nós vamos nos lembrar” —, dirigida a aliados da OTAN que se recusaram a acompanhar a escalada militar no Estreito de Ormuz, é mais do que um desabafo: revela isolamento crescente e uma liderança que substitui coordenação por confronto.
Em 28 de fevereiro, o aiatolá Ali Khamenei foi assassinado em um ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã; nos dias que se seguiram, tudo mudou. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, foi fechado. Os preços do petróleo dispararam, ultrapassando os US$ 100 por barril de petróleo Brent. Em uma reviravolta significativa, os Estados Unidos de Trump recuaram e suspenderam as sanções ao petróleo russo. A demanda por fertilizantes russos disparou, enquanto o mundo sofria com as interrupções no abastecimento de alimentos.
Quando uma guerra atinge o coração da energia mundial, não é apenas o petróleo que entra em choque. Entram em choque moedas, alimentos, juros, transportes — e até aquilo que deveria estar protegido da lógica do conflito: a própria ideia de normalidade global.
As perguntas que começam a se impor são diretas: o que acontecerá com o dólar? Com os preços? Até onde essa crise pode ir? E, de forma cada vez menos impensável, o mundo conseguirá sustentar eventos globais como a Copa do Mundo?
Não há respostas simples. Mas há tendências claras.
Entre cenários e riscos crescentes
O debate internacional já não busca certezas, mas delimita cenários.
No cenário mais benigno, o conflito é contido e parte da oferta de energia se recompõe. Ainda assim, os danos permanecem: preços elevados e volatilidade persistente.
No cenário intermediário, a guerra se prolonga. A inflação se espalha, bancos centrais endurecem políticas monetárias, juros sobem e o crescimento desacelera. O risco de recessão retorna ao radar.
No cenário mais grave, o mundo enfrenta um choque energético prolongado. Nesse caso, emerge uma combinação particularmente desafiadora: inflação com baixo crescimento — a estagflação, fenômeno que marcou as crises do petróleo do século XX e volta ao centro do debate econômico.
O capital não foge — ele se reposiciona
O capital financeiro não entra em pânico no sentido comum. Ele se move — e rapidamente.
Em momentos de crise, há uma corrida para ativos seguros e líquidos. O dólar mantém posição privilegiada, atraindo fluxos para títulos do Tesouro dos Estados Unidos e fundos monetários. Capitais abandonam ativos de risco, e a moeda americana se fortalece.
Mas esse movimento tem limites. Se o choque energético persistir, pressionando simultaneamente inflação e crescimento, o cenário se torna mais ambíguo: força no curto prazo, instabilidade no médio prazo.
Ao mesmo tempo, há um redirecionamento para setores que se beneficiam da crise. Energia, defesa, segurança, logística e commodities passam a concentrar investimentos. A guerra reorganiza a rentabilidade.
Enquanto isso, economias mais frágeis enfrentam saída de capitais, pressão cambial e aumento do custo de financiamento. A crise não é neutra: ela redistribui riscos — e oportunidades.
Do petróleo à mesa
O petróleo não é apenas uma commodity. Ele estrutura toda a economia.
Está no transporte, nos fertilizantes, na produção industrial e na logística global. Um choque em seu preço se infiltra em toda a cadeia produtiva.
O resultado é direto: inflação mais alta, perda de renda real e maior instabilidade.
Os efeitos já são visíveis. Países dependentes de energia enfrentam pressões cambiais e inflacionárias. Governos intervêm. Bancos centrais operam sob dilemas difíceis.
O encarecimento da energia eleva custos de fertilizantes, transporte e armazenamento. O que começa no barril chega à mesa — e atinge de forma mais dura os mais vulneráveis.
A aviação encarece. O turismo recua. A guerra aumenta tarifas aéreas, afetando viagens. Isso já se torna realidade. Para os feriados da Páscoa, há registros de cancelamentos em massa e tarifas recordes.
O impacto deixa de ser setorial — torna-se sistêmico.
Quando até a Copa entra em risco
A Copa do Mundo de 2026, prevista para Estados Unidos, Canadá e México, foi concebida como uma celebração global.
Mas o mundo que emerge dessa crise é outro.
Custos de viagem mais altos, incerteza econômica e riscos de segurança começam a alterar as condições do evento. Relatos de ameaças terroristas e o reforço de medidas de segurança indicam que a lógica do risco já alcança até os espaços simbólicos da convivência global.
A pergunta se impõe: é possível celebrar em um mundo organizado pelo medo?
Um sistema mais instável — e mais político
O que está em curso não é apenas mais uma crise internacional. É uma mudança na forma como o mundo opera.
A escalada atual expõe a erosão dos mecanismos de coordenação global. Alianças se tensionam, decisões se tornam mais unilaterais e a previsibilidade se reduz. O sistema internacional passa a funcionar sob maior incerteza — e maior conflito.
Nesse ambiente, a economia deixa de ser apenas um campo técnico e se transforma em terreno de disputa política permanente. Preços, moeda, energia e segurança tornam-se instrumentos de poder.
É isso que conecta o petróleo ao preço dos alimentos, o dólar às decisões de investimento e a crise global às disputas internas dos países.
O mundo não está apenas mais instável. Está mais difícil de interpretar.
Brasil: economia pressionada, política em disputa
O Brasil não está fora desse processo.
Sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o país enfrenta o desafio de administrar um choque externo cujos efeitos recaem diretamente sobre o cotidiano da população. A dependência de diesel importado, os custos logísticos e o impacto dos fertilizantes tornam a economia vulnerável a um aumento prolongado da energia.
Em um país estruturado sobre o transporte rodoviário, o encarecimento do diesel se espalha rapidamente — do frete aos alimentos —, pressionando a inflação e corroendo o poder de compra.
Mas o impacto vai além da economia. Ele entra no centro da disputa política.
À medida que se aproximam as eleições de outubro de 2026, o governo enfrenta um cenário delicado: administrar uma crise global sem que seus efeitos sejam percebidos como falha doméstica. Historicamente, choques de preços têm alto custo político, independentemente de sua origem.
Esse é o terreno onde a disputa se intensifica.
A extrema direita tende a explorar esse contexto com uma narrativa conhecida: transformar instabilidade global em crítica interna, simplificando causas complexas e mobilizando o medo econômico.
Nesse cenário, a economia deixa de ser apenas um tema técnico e se torna instrumento central da disputa eleitoral.
O que está em jogo não é apenas a gestão da crise, mas a capacidade de interpretá-la — e de disputar seu significado perante a sociedade.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
