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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Quando o poder masculino sabotou o destino humano

Ao escrevermos a história contra as mulheres, escrevemos também contra nós mesmos; hoje colhemos guerras, desigualdades e violência estrutural

O estado da Bahia registra 15.751 casos de violência contra a mulher, desde o início do ano até meados de maio. O balanço inclui crimes como homicídio, tentativa de homicídio, feminicídio, estupro, lesão corporal e ameaça; os dados foram divulgados nesta sexta-feira pela Secretaria de Segurança Pública, que considerou, para o levantamento, somente as vítimas maiores de 18 anos; do total, 125 mulheres foram assassinadas, e apesar do número de homicídios, somente 14 deles foram considerados feminicídio, qualificadora da pena que considera o gênero como motivação para o crime (Foto: Romulo Faro)

A história da humanidade é, em larga medida, a história de um erro masculino reiterado. Durante séculos, nós homens erguemos sistemas jurídicos, religiosos, filosóficos e políticos que reduziram deliberadamente a mulher a papel secundário. Não foi descuido cultural; foi arquitetura consciente de poder. Ao negar às mulheres educação, cidadania, autonomia econômica e voz pública, atrasamos a própria espécie. 

Cada vez que impedimos que ocupassem o lugar que lhes pertence por direito natural, amputamos metade da inteligência, da sensibilidade e da capacidade criativa do mundo. O preço dessa mutilação histórica não foi pago apenas por elas — foi pago pela humanidade inteira, que caminhou mancando enquanto celebrava sua própria superioridade ilusória.

Os preconceitos contra as mulheres vêm de muito longe. Estão nos provérbios — “fevereiro tem 28 dias. É o mês em que as mulheres falam menos.” — e nas canções populares — “Paraíba masculina, mulher macho sim senhor.” Espalham-se nos conselhos dos mais velhos, nos sermões religiosos, nos tratados filosóficos, nos textos literários e nos discursos políticos. 

Seja na religião, na literatura, na vida social ou na arena pública, não é difícil mapear, cronologicamente, focos persistentes desse preconceito. Ele atravessou séculos como herança cultural naturalizada, ensinada como prudência moral e reproduzida como tradição inquestionável.

A Organização das Nações Unidas designou 1975 como o Ano Internacional da Mulher e instituiu o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher. A data remete a 8 de março de 1857, quando 159 operárias de uma indústria têxtil em Nova York foram queimadas vivas durante um incêndio criminoso, no contexto de uma greve por igualdade salarial e redução da jornada de trabalho. O episódio tornou-se símbolo de uma luta árdua por direitos elementares. 

Não foi um acidente isolado; foi expressão de um sistema que considerava descartável a vida feminina quando esta ousava reivindicar dignidade.

No campo religioso, a matriz simbólica consolidou hierarquias.

O Gênese (2:22) apresenta a mulher formada a partir da costela do homem: “E a costela que o Senhor Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher e lha trouxe.” A metáfora da derivação converteu-se, ao longo dos séculos, em argumento de subordinação. A leitura literal sustentou a ideia de que a mulher era ontologicamente secundária. Essa interpretação moldou estruturas familiares, códigos civis e práticas pastorais que ainda ecoam em 2026, quando debates sobre papéis de gênero continuam ancorados em leituras antigas.

Santo Tomás de Aquino (1225–1274) escreveu que a mulher é “mas occasionatus”, um macho imperfeito, um ser “ocasional” e “acidental”. Ao afirmar isso, não produziu apenas especulação teológica; ofereceu legitimidade filosófica à desigualdade. Seu pensamento estruturou currículos universitários e formação clerical por séculos. Quando Aquino naturaliza a inferioridade feminina, ele fornece à cristandade medieval — e às mentalidades posteriores — uma gramática moral que associa hierarquia a ordem divina. Ainda hoje, argumentos teológicos contra igualdade recorrem, consciente ou inconscientemente, a essa herança, demonstrando como uma formulação medieval pode atravessar séculos como verdade aparentemente intocável.

No Livro de Provérbios (11:22), lê-se: “A mulher virtuosa é a coroa de seu marido.” E em 31:10: “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor excede em muito o de finas joias.” A linguagem é reveladora: a virtude feminina é medida por sua utilidade ao homem; seu “valor” é comparado a mercadoria preciosa. A metáfora econômica traduz o feminino em objeto valioso, mas ainda objeto. Essa lógica atravessou códigos matrimoniais e justificou séculos de tutela legal. A ideia de que a mulher “vale” muito quando virtuosa, mas deve ser encontrada, possuída e administrada, estrutura mentalidades que ainda operam sob verniz contemporâneo.

Eurípedes (485–406 a.C.) escreveu, em Hipólito, que “a mulher é um flagelo desmedido que posso provar; o pai que a gera estabelece um dote a quem a leve, a quem o livre de tamanha praga.” Em Medéia, colocou na boca da protagonista: “Se a natureza fez-nos incapazes para as boas ações, não há para a maldade artífices mais competentes do que nós.” Essas frases não são simples exageros dramáticos; elas expressam o medo masculino diante da autonomia feminina na Atenas clássica. Ao retratar a mulher como ameaça moral, Eurípedes contribuiu para consolidar um imaginário que justificava sua exclusão da cidadania numa sociedade que celebrava a democracia apenas para homens livres.

Virgílio (70–19 a.C.) definiu a mulher como “varium et mutabile semper femina” — “coisa sempre variável e mutável.” A frase, repetida por séculos em tratados morais e sermões, cristalizou a associação entre feminino e instabilidade. Ao transformar a inconstância em essência feminina, a literatura latina ajudou a justificar a desconfiança jurídica e política que impedia mulheres de administrar bens ou participar da vida pública. O impacto cultural dessa sentença atravessou a Idade Média e foi citada em compêndios morais até o século XIX.

Publílio Siro (século I a.C.) declarou em suas Sentenças: “A mulher ou ama ou odeia; não há outra alternativa.” A simplificação emocional reforçou a caricatura da irracionalidade feminina. Se a mulher é governada por extremos afetivos, conclui-se que não deve governar cidades nem decisões estratégicas. Essa visão ecoa ainda hoje em discursos que questionam liderança feminina sob o pretexto de “instabilidade emocional”, demonstrando como um aforismo antigo pode alimentar preconceitos contemporâneos.

Petrônio (27–66) escreveu: “Confia teu barco aos ventos, mas às meninas não confies tua alma.” A ironia elegante do autor romano converteu-se em ensinamento cultural transmitido como prudência masculina. Ao sugerir que a fidelidade feminina é menos confiável que o mar, Petrônio reforça a suspeita permanente sobre a moral feminina. Essa suspeita alimentou narrativas literárias e códigos de honra que, por séculos, controlaram a sexualidade feminina com severidade desproporcional.

Montaigne (1533–1592) afirmou: “A ciência e ocupação mais útil e honrosa para uma mulher é o governo da casa.” E ainda que seu papel seria “sofrer, obedecer, consentir.” Em pleno florescimento do humanismo renascentista, quando a dignidade do homem era celebrada como centro do universo, o universalismo não incluía plenamente as mulheres. O pensamento de Montaigne influenciou gerações ao naturalizar a divisão entre esfera pública masculina e esfera doméstica feminina, ajudando a consolidar a exclusão feminina dos espaços de decisão.

Shakespeare (1564–1616) colocou em Hamlet: “Frailty, thy name is woman” — “Leviandade, teu nome é mulher.” A força poética da frase eternizou a associação entre fragilidade moral e feminino. A dramaturgia shakespeariana, ensinada em escolas e universidades do mundo inteiro, perpetuou um arquétipo que ainda permeia imaginários culturais. A literatura não apenas reflete mentalidades; ela as forma.

Montesquieu (1689–1755) escreveu que “nas mulheres jovens, a beleza supre o espírito; nas velhas, o espírito supre a beleza.” A frase sugere que inteligência feminina é compensação estética, não atributo autônomo. Em época de formulação das bases da separação de poderes e do constitucionalismo moderno, Montesquieu contribuiu, ainda que de modo aparentemente leve, para relativizar a capacidade intelectual feminina num período crucial de organização política do Ocidente.

Voltaire (1694–1778) alegou que “o sangue delas é mais aquoso.” O argumento pseudobiológico buscava fundamentar a inferioridade feminina em diferenças naturais. Ao recorrer à biologia para justificar desigualdade, Voltaire antecipou discursos científicos posteriores que legitimariam hierarquias raciais e de gênero. A autoridade iluminista deu peso racional a preconceitos antigos.

Rousseau (1712–1778) escreveu que cabia às mulheres “agradar aos homens, servi-los, fazerem-se amar por eles.” Em Emílio, defendeu educação distinta para meninas, voltada à docilidade. A pedagogia rousseauniana influenciou sistemas educacionais europeus, consolidando currículos que limitavam horizontes femininos. Ao estruturar papéis de gênero como naturais, Rousseau ajudou a perpetuar a desigualdade sob aparência de ordem social.

Napoleão Bonaparte (1769–1821) declarou: “A mulher é nossa propriedade.” Seu Código Civil restringiu direitos patrimoniais e consolidou tutela masculina sobre esposas. A influência napoleônica espalhou-se pela Europa e pelas Américas, institucionalizando desigualdade legal. Não era opinião isolada; era norma jurídica exportada.

Nietzsche (1844–1900) escreveu em Assim Falou Zaratustra: “Vais ver mulheres? Não esqueças o chicote.” A frase, muitas vezes relativizada como metáfora provocativa, carrega violência simbólica explícita. Nietzsche criticava moralidades estabelecidas e denunciava a hipocrisia da cultura europeia, mas não rompeu com a tradição de desconfiança em relação à emancipação feminina. Sua obra, amplamente estudada até hoje, continua a influenciar debates contemporâneos. Contextualizar essa frase é fundamental para evitar que genialidade filosófica sirva de escudo para preconceito estrutural.

Essa genealogia de frases não é inventário anedótico; é linha de transmissão cultural. Quando autores canônicos descrevem mulheres como frágeis, inconstantes ou propriedades, suas palavras ecoam em instituições, legislações e mentalidades.

No Brasil, temos mulheres realmente extraordinárias, no melhor significado da palavra. Destacarei apenas algumas dessas luminárias, uma vez que entendo que cada nome representa fissura irreversível na muralha patriarcal.

Tereza de Benguela (c.1730–1770), conhecida como “Rainha Tereza”, governou o Quilombo do Quariterê por cerca de duas décadas no Mato Grosso. Organizou sistema de defesa, comércio e administração coletiva. Documentos coloniais registram sua liderança com temor. Sua atuação prova que mulheres negras não foram apenas vítimas da escravidão; foram arquitetas de resistência organizada.

Bárbara de Alencar (1760–1832) participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Presa aos 57 anos, tornou-se a primeira presa política do Brasil. Sua firmeza inspirou gerações. Ao enfrentar cárcere e perseguição, demonstrou que o ideal de independência nacional também teve rosto feminino.

Luiza Mahin (1812–?), segundo registros de historiadores como João José Reis, teria articulado bilhetes e estratégias na Revolta dos Malês de 1835, em Salvador. Mulher negra, possivelmente alforriada, atuou na retaguarda de um levante que aterrorizou as elites escravocratas. Sua imagem foi silenciada por décadas, reaparecendo como símbolo da mulher negra insurgente. Ao ser presa e deportada, sua história revelou que resistência feminina negra sempre foi dupla: contra o racismo e contra o patriarcado.

Bertha Lutz (1894–1976), bióloga e diplomata, afirmou em discurso: “Não pedimos favores, pedimos direitos.” Fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, articulou a campanha pelo voto feminino, conquistado em 1932. Sua atuação na Assembleia Constituinte de 1934 consolidou direitos trabalhistas e civis para mulheres. Lutz compreendeu que igualdade formal precisava transformar-se em legislação concreta.

Olhando no retrovisor da história as quatro mulheres acima percebe-se que a luta feminina no Brasil não foi episódica, mas contínua, atravessando escravidão, Império, República e ditaduras. Cada uma dessas mulheres inscreveu no tecido nacional a convicção de que cidadania não é concessão, mas conquista.

Antes mesmo que o direito ao voto fosse conquistado ou que reformas legais fossem promulgadas, mulheres já travavam outra batalha decisiva: a de existir como sujeito de pensamento, criação e palavra.

Safo (c.630–570 a.C.) já desafiava, na Grécia arcaica, a ideia de que a experiência feminina deveria permanecer subterrânea. Seus fragmentos líricos — “Parece-me igual aos deuses aquele homem que se senta diante de ti” — não são apenas versos amorosos; são afirmação de subjetividade feminina em primeira pessoa. Num mundo que estruturava a palavra pública como prerrogativa masculina, Safo escreveu desejo, perda, intensidade, autonomia emocional. Sua genialidade não reside apenas na poesia, mas no gesto histórico de inscrever a mulher como sujeito de linguagem, e não como objeto do olhar alheio. O fato de sua obra ter sido fragmentada, dispersa e em parte destruída ao longo dos séculos revela o incômodo persistente diante de uma voz feminina plena.

Virginia Woolf (1882–1941) compreendeu que a exclusão feminina da produção intelectual não era acidente, mas engenharia econômica. Em Um teto todo seu escreveu: “Uma mulher precisa de dinheiro e um quarto próprio para escrever ficção.” A frase, frequentemente citada, é diagnóstico estrutural: sem autonomia financeira e espaço simbólico, não há criação livre. Woolf desmontou a falsa neutralidade do cânone literário ao mostrar que a ausência de mulheres na história da literatura não era prova de incapacidade, mas consequência de confinamento social. Sua análise continua atual em 2026, quando desigualdades de financiamento, reconhecimento crítico e distribuição editorial ainda afetam autoras no mundo inteiro.

Simone de Beauvoir (1908–1986) radicalizou o debate ao escrever em O Segundo Sexo: “Ninguém nasce mulher, torna-se.” A frase desloca o eixo do determinismo biológico para a construção social. Beauvoir demonstrou que aquilo que se chamava “natureza feminina” era, em larga medida, produto de educação diferenciada, expectativas restritivas e dispositivos culturais de contenção. Sua obra não apenas analisou a opressão; ofereceu instrumental teórico para desmantelá-la. Ao transformar experiência pessoal em investigação filosófica sistemática, Beauvoir reposicionou a mulher como sujeito histórico consciente, não como destino biológico inevitável.

Clarice Lispector (1920–1977) levou essa transformação para o território da interioridade radical. Em A Paixão segundo G.H. e A Hora da Estrela, desestabilizou convenções narrativas para revelar a complexidade da experiência feminina invisibilizada. Quando escreve “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”, Clarice ultrapassa a reivindicação jurídica e toca a dimensão existencial da emancipação. Sua literatura não pede permissão; ela exige reconhecimento da densidade psíquica feminina num mundo que, por séculos, reduziu mulheres a papéis funcionais. Clarice mostrou que a revolução feminina também é linguagem, silêncio rompido, consciência que se recusa a caber nas categorias herdadas.

Durante séculos, homens legislaram sobre corpos que não eram seus, definiram destinos que não lhes pertenciam e impuseram limites que jamais aceitariam para si próprios. Cada frase misógina de um pensador influente tornou-se tijolo de sistemas excludentes.

Cada silêncio imposto a uma mulher significou atraso científico, empobrecimento cultural e instabilidade política.

Se há uma revolução que pode redefinir o século em curso, não será tecnológica nem militar. Será ética. E essa revolução começa com um gesto simples e radical ao mesmo tempo: reconhecer que a humanidade jamais alcançará equilíbrio enquanto insistir em governar-se a partir de uma metade que historicamente silenciou a outra. 

A emancipação feminina não é capítulo lateral da história; é eixo reorganizador da própria condição humana. Ignorá-la não é apenas injustiça — é sabotagem do futuro coletivo. Como afirmou Bahá’u’lláh (1817–1892), “a humanidade é um pássaro, uma asa é o homem e a outra a mulher; um pássaro não pode alçar voo sem o equilíbrio das duas asas.” Durante séculos, insistimos em fortalecer apenas uma delas, imaginando que a outra poderia permanecer atrofiada sem comprometer o voo. 

O resultado está diante de nós: guerras recorrentes, desigualdades persistentes, estruturas de poder desequilibradas. Se quisermos finalmente elevar a humanidade a um patamar de maturidade moral compatível com seu potencial intelectual, será indispensável fortalecer ambas as asas com igual vigor, dignidade e liberdade. 

Qualquer projeto de paz que ignore essa simetria fundamental estará condenado à instabilidade. A verdadeira ascensão da espécie humana começa no momento em que deixamos de temer a igualdade e passamos a compreendê-la como condição de sobrevivência civilizatória.

(P.S.: Dedico esse artigo às minhas netas Cecília, Lua, Nina, Jade, Clarissa. A mais velha tem 4 anos e as duas mais novas menos de um ano cada. Ainda terão que lutar muito, lamentavelmente, para conquistar o que é seu por direito.)

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.