Quando o status quo esbarra em Marielles e Lulas

Marielle lutou principalmente pelos direitos civis, como o da vida, da dignidade, da segurança e da liberdade, reduzidos por Temer ao estabelecer uma intervenção federal no Rio de Janeiro, que gerou abusos frequentes por parte das autoridades e que foram duramente denunciados por ela até seu último suspiro, antes de ser executada

marielle
marielle (Foto: Diego Ricoy)

O que a prisão de Lula e o assassinato de Marielle Franco têm em comum? Para além dos episódios envolvendo ambos representarem um avanço do autoritarismo e do fascismo em território brasileiro, os fatos também evidenciam a aversão à presença de representantes com agendas populares na esfera do poder público. E esse ódio é histórico, remonta às origens da República, em Roma.

No contexto do século V a.C., a república romana era dominada pela elite patrícia e o cargo de Tribuno da Plebe foi criado em 493 a.C. com o objetivo de proteger a camada plebeia dos abusos e arbitrariedades dos magistrados e do Senado. No entanto, quando alguns de seus representantes ousaram propor medidas que retiravam direitos dos patrícios, os tribunos tiveram silenciadas suas vozes, seja por perseguição ou assassinato. Foi assim com os irmãos Graco, Tibério e Caio. 

No século II a.C., ambos tentaram viabilizar projetos de reforma na distribuição do ager publicus, uma espécie de reforma agrária que desconcentrava as terras conquistadas pelo Estado romano das mãos de patrícios e distribuiria parte delas com a plebe. Tibério, o irmão mais velho, foi assassinado e seu projeto não obteve êxito. 

Caio então decidiu se candidatar ao cargo de Tribuno, vingar o irmão e retomar seu projeto de reforma agrária. Quando eleito, buscou ampliar a cidadania romana até os limites das províncias italianas, num período onde seu exercício era restrito, porém fundamental para garantir a igualdade civil, além de propor a Lei Frumentária, que responsabilizava o Estado romano pela distribuição mensal de trigo, aliviando consideravelmente a fome da plebe urbana. Após diversos desdobramentos e perseguições, Caio teve o mesmo fim que seu irmão, sendo assassinado a mando de senadores e magistrados romanos por representar uma ameaça aos interesses da elite patrícia. O custo da sua vida não foi o de propor medidas de inclusão, mas o de querer romper com uma tradicional estrutura de privilégios.

Com os olhares do presente percebe-se que, apesar da origem nobre, os irmãos Graco se preocuparam em garantir direitos aos plebeus que hoje chamamos de direitos civis e sociais, que são básicos para o exercício pleno da cidadania na atualidade. 

No Brasil, esses direitos são garantidos pela Constituição de 1988 a todos os cidadãos. Porém, as garantias não significam seu pleno gozo. 

Fato é que os direitos sociais foram ampliados por Lula em seus dois mandatos presidenciais. A política assistencialista do PT foi de encontro às reais necessidades da maior parte da sociedade brasileira. Lula buscou estabelecer um pacto entre as classes, criando uma política de conciliação. Seu erro, como o dos irmãos Graco, foi querer possibilitar o acesso do pobre aos espaços reservados - como universidades, casa própria e viagens ao exterior -, comprometendo a manutenção do status quo por parte das elites. E elas não perdoariam Lula por isso. Mesmo as favorecendo e proporcionando grande enriquecimento e desenvolvimento econômico durante todo seu mandato, as elites não o perdoariam.

Marielle lutou principalmente pelos direitos civis, como o da vida, da dignidade, da segurança e da liberdade, reduzidos por Temer ao estabelecer uma intervenção federal no Rio de Janeiro, que gerou abusos frequentes por parte das autoridades e que foram duramente denunciados por ela até seu último suspiro, antes de ser executada.

Ambos os casos, do presente e do passado, demonstram o risco que se corre e o preço que se paga ao desnaturalizar os espaços sociais concernentes às elites dominantes.

Historicamente, esse grupo buscou evitar a perda de privilégios a qualquer custo. E o mecanismo para isso foi/é silenciar as vozes populares e manipular a opinião pública, cooptando as massas para justificar ações ilegais. O silêncio das autoridades no caso de Marielle e o espetáculo midiático na condenação e prisão ilegítimas de Lula evidenciam o projeto de golpista da elite tupiniquim, a elite do atraso (como bem definido pelo professor e sociólogo Jessé Souza).

Marielle e Lula, uma negra da favela e um operário nordestino, vozes populares, representantes da plebe brasileira. Em comum, eles têm as origens humildes e de poucas oportunidades, o envolvimento e empatia com a ralé brasileira e o interesse pela ampliação da cidadania. Silenciá-los significa perpetuar um cenário de exclusivismos, segregação e desigualdade. A tentativa de eliminação de ambos do jogo político é mais uma estratégia sorrateira dos aristocratas que temem a redução de seus privilégios. 

Contudo, silenciar a voz de duas estrelas populares é o maior desafio da plutocracia e da mídia neste ano eleitoral. Mesmo com Marielle morta e Lula preso, ambos permanecem vivos e presentes no coração da plebe brasileira. São Marielles e Lulas que podem desnaturalizar o status quo e definir os rumos da cidadania e da democracia no Brasil.

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